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8 de agosto de 2020 | 12:28 am

AS ESCOLAS E SEUS ASSASSINOS

Tempo de leitura: 3 minutos

Ricardo Ribeiro | ricardoribeiro@pimentanamuqueca.com.br

 

Tratam a educação de maneira empírica e irresponsável, fazendo experiência com a vida alheia. São verdadeiros futuricidas, que vêm destruindo várias gerações.

 

A atitude insana de Wellington Menezes colocou o Brasil no mapa dos crimes cometidos por psicopatas em escolas, ceifando vidas de crianças indefesas. O massacre de Realengo assombra e revolta toda a sociedade, que compartilha a dor de familiares e amigos diante da tragédia. O país sangra e chora.

Tudo já se falou sobre o crime brutal e, diante do estupor, há quem pense em transformar escolas em espécies de bunkers inexpugnáveis, separadas de um mundo terrível e assustador. É a resposta do medo, não da razão.

A escola, como disse o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, é espaço de interação com a comunidade. Pelo menos na teoria.

Aproveitando a deixa do prefeito carioca, que tal fazer com que as escolas se tornem efetivamente aquele espaço de interação, aprendizado e desenvolvimento humano? Que tal os governos passarem a se preocupar de verdade com o que está acontecendo nos estabelecimentos de ensino?

Após a barbárie em Realengo, a cúpula da política do Rio de Janeiro “entrou” na escola. Os homens do poder deveriam entrar nelas mais vezes e talvez pudessem se chocar com uma realidade que certamente devem conhecer, mas só de ouvir falar.

Do Rio para Itabuna, no sul da Bahia. Em certas escolas municipais desta cidade, alguns alunos são liberados para casa mais cedo, porque não há merenda para todos. Pelo menos uma delas, no bairro Califórnia, usa o seguinte critério: os estudantes que moram mais perto saem primeiro. Com fome.

Em casa, muitas dessas crianças também não têm o que comer e ainda encontram pais brutalizados pela miséria, quando não pelo vício em álcool e drogas como o crack. Relatos de professoras dão conta de que há crianças que choram desesperadamente na hora da volta para casa, temendo o que as espera. Não vivem num lar, mas em um inferno cotidiano que lhes retira tudo o que deveria fazer parte de uma infância: a alegria, as brincadeiras, a segurança, o exemplo, os sonhos.

Do portão para dentro, além de faltar merenda, também não há estímulo, principalmente financeiro, para que os professores desenvolvam um trabalho de melhor qualidade.

Em Itabuna, utiliza-se o método de ensino por ciclos de aprendizagem, sem o devido funcionamento das classes de integração. Alunos são aprovados sem aprender, apenas porque as estatísticas devem mostrar a redução dos índices de repetência. Muitos chegam à sexta série sem saber ler, mas o sistema segue registrando seus “progressos”.

Muito antes de Wellington Menezes, já se falava em alunos agressores e homicidas nas escolas, em professores ameaçados e assassinados (houve casos recentes em Itabuna), na venda de drogas e trânsito de armas dentro dos estabelecimentos de ensino. Em vários deles, o clima é de medo e não é de hoje.

Os sinais de que o sistema educacional brasileiro está falido já foram dados há muito tempo, mas as autoridades se negam a reconhecê-los ou não dão importância. Tratam a educação de maneira empírica e irresponsável, fazendo experiência com a vida alheia. São verdadeiros futuricidas, que vêm destruindo várias gerações.

Antes do assassino Wellington Menezes, muita gente puxou e continuará puxando o gatilho que condena tantos filhos deste país. Seja à morte cruel e prematura, seja a uma vida que muito se assemelha a isso.

 

Ricardo Ribeiro é um dos blogueiros responsáveis pelo Pimenta e também escreve no Política Etc.

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