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28 de março de 2020 | 11:07 am

TRAGÉDIA INOMINÁVEL NAS TERRAS DO CACAU

Tempo de leitura: 2 minutos

Ricardo Ribeiro | ricardo.ribeiro10@gmail.com

É impossível assistir ao filme sem ficar permanentemente com um nó na garganta e um embrulho no estômago, além do sentimento de impotência diante da crueldade.

A dispersão da praga da vassoura-de-bruxa na região cacaueira não foi algo natural e isso ficou totalmente comprovado em inquérito conduzido pela Polícia Federal há alguns anos. As investigações não conseguiram apontar os autores, mas concluíram que a forma como a doença se instalou denuncia um “modus operandi” todo especial, um plano macabro e destruidor, um ato humano deliberado, como sugere o excelente e fundamentado documentário produzido por Dilson Araújo.

O filme traz uma série de depoimentos e documentos oficiais, além de histórias de perdas financeiras, familiares e humanas ocorridas nessas terras a partir do fim dos anos 80 do século passado. Foi o fim de uma era, e é impossível traduzir em palavras a tragédia que se deu nessa região, onde mais de 250 mil trabalhadores perderam seus empregos nas fazendas de cacau e o êxodo para as cidades chegou a 800 mil pessoas.

Pesquisadores ouvidos no documentário atestam que o inchaço das favelas e todos os problemas sociais que vieram a reboque, como a falta de infraestrutura e a violência, têm relação direta com a bruxa que assombrou a região. Suas consequências foram também ambientais, com a destruição do sistema da cabruca em 600 mil hectares de fazendas. Muitas áreas onde a Mata Atlântica permanecia intacta, em uma convivência produtiva e ecológica de mais de dois séculos, foram transformadas em pastagens e a madeira nativa foi alimentar as serrarias.

Tragédia. Crime. Holocausto. Genocídio. Qual a palavra certa para descrever o que se deu nessa região? O Nó apresenta várias, sem deixar de mostrar que os cacauicultores foram vítimas duas vezes. Uma quando a vassoura se instalou, com galhos amarrados diligentemente por mãos assassinas; a outra quando a Ceplac recomendou providências equivocadas, que levaram os produtores a assumir dívidas que lhes atormentam até hoje. Os bancos exigem que eles paguem pelo que não surtiu efeito e o governo não assume o ônus pela falha.

É impossível assistir ao filme sem ficar permanentemente com um nó na garganta e um embrulho no estômago, além do sentimento de impotência diante da crueldade. São histórias destruídas, vidas destroçadas, uma cultura secular que deixou de existir por obra e graça de alguma ideia psicótica. De quem? A polícia diz que não sabe.

Não por acaso, O Nó é narrado quase num sussurro, por uma voz que parece ser de alguém que fala em meio a um velório. O tom é triste, o filme fala de morte.

Ricardo Ribeiro é editor do Cenabahiana.

Esta publicação possui 23 comentários
  1. Parabéns Ricardo, pelo texto e pela avaliação, que certamente quem ainda não assistiu vai procurar fazê-lo para se interar sobre esse episódio.
    Em breve estaremos anunciando a exibição do filme ” O nó” na no teatro Sala Zelia Lessa, aguardem!!!!
    Eva Lima, atriz e produtora cultural

  2. A vassora de bruxa também é fruto de descaso dos produtores que não renovavaram a sua lavoura.Conheci produtores que diziam que seu cacaueiro tinha 100 anos,pegavam crédito nos bancos e construiam casas de veraneio.

  3. Prezado Ricardo,
    muito bem escrito e narra com muita objetividade o que se passou por essas bandas; o pior é que o que se ainda ve hj em dia sao acoes que so servem de propaganda politica, ou para apadrinhamentos fortalecer os que nada fazem e ainda trazem prejuizos a quem trabalha, veja o que esta acontecendo com as ditas invasoes de supostos indios, a propriedades rurais.
    E o Estado de Direito do cidadao?cade os orgaos que deveriam cuidar de nossa seguranca, ate quando iremos assistir a este tipo de absurdo na regiao?

  4. A história dos fazendeiros de cacau, ou coronéis do cacau que são tão bem retratadas por livros, documentários e telenovelas, mostra que enriqueceram com o árduo trabalho braçal de trabalhadores e trabalhadoras rurais em suas lavouras de forma desumana, muitos não recebiam nem salários e viviam como escravos, sem nenhum tipo de direitos, época que a lei era as armas dos capangas. Pelo outro lado era comum assistir a luxuria de mulheres e filhos de fazendeiros, filhos que estudaram em universidades da Europa e do EUA.

    O fruto de ouro além de produzido aqui no sul enriqueceu principalmente Salvador e região metropolitana, nos relegando a último plano. Poderíamos ter uma região socialmente melhor, com mais emprego e renda, mas fomos o tempo todo explorados pelo o comando político dos coronéis.

    Os trabalhadores rurais hoje têm terras, diversificaram a cultura agrícola e estão plantando, colhendo e vendendo seus produtos, melhoraram suas condições de vida através da agricultura familiar e dos diversos planos de governo que fortalece as trabalhadoras e trabalhadores rurais.

    Os saudosistas reconstituem a história de uma época que a classe trabalhadora do campo era apenas coadjuvante.

  5. MPF/BA pede arquivamento de inquérito sobre vassoura-de-bruxa

    Arquivamento foi requerido por conta da ausência de indícios suficientes e pela prescrição dos delitos.

    O Ministério Público Federal em Ilhéus (BA) pediu o arquivamento do inquérito policial que apurava prática de disseminação da vassoura-de-bruxa no sul da Bahia entre os anos de 1987 e 1992. O arquivamento foi requerido por conta da ausência de indícios suficientes e pela prescrição dos delitos de disseminação de praga e de formação de quadrilha.

    O inquérito foi instaurado após veiculação da matéria “Terrorismo Biológico” da revista Veja na edição de 21 de junho de 2006. Em entrevista à publicação, Luiz Henrique Franco Timóteo afirmou que a praga que atacou diversas plantações no sul da Bahia, entre os anos de 1987 e 1992, teria sido disseminada de forma criminosa por ele e outras cinco pessoas ligadas ao PT e à Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac).

    A procuradora da República Fernanda Oliveira, responsável pela manifestação, explica que o prazo de prescrição de cada um dos crimes de disseminação de praga e de formação de quadrilha é de oito anos, conforme prevê o artigo 109, inciso IV, do Código Penal. “Considerando que já se passaram 15 anos desde a última ação relacionada à disseminação da vassoura-de-bruxa – que teria ocorrido no ano de 1991 ou 1992, consoante noticiado por Luiz Henrique Franco Timóteo e demais documentos – conclui-se que o prazo prescricional já foi superado”, afirma a procuradora.

    Na análise do inquérito, o MPF constatou, ainda, que as informações sobre a disseminação da vassoura-de-bruxa são desencontradas pelo fato de haver relatos de que o primeiro foco teria sido detectado tanto em Uruçuca (BA), enquanto outros apontam Camacan (BA). Além disso, a Comissão de Sidicância do Ministério da Agricultura e Pecuária e Abastecimento, ao qual está vinculada a Ceplac, não conseguiu reunir elementos suficientes para responsabilização de qualquer das pessoas apontadas por Timóteo.

    “Indicam os autos, no entanto, que a ocorrência de tal doença na região cacaueira se deu por ação humana, ou, pelo menos, esse é o único ponto sobre o qual há menos controvérsia, sendo certo que esse elemento foi fator determinante para uma crise econômica e social na região sul da Bahia, trazendo duras conseqüências até os dias de hoje não só para os produtores de cacau, como também para inúmeras famílias que dependiam da cacauicultura, além da sociedade como um todo”, disse a procuradora no pedido de arquivamento.

    Gladys Pimentel
    Assessoria de Comunicação
    Procuradoria da República na Bahia
    Tel.: (71) 3336-2026
    E-mail: asscom@prba.mpf.gov.br

  6. Excelente texto Ricardo, mas a justiça realmente não sabe ou faz vistas grossas, algo tão comum nessa terra brasilis? O que aconteceu com a nossa região realmente tem todas as características de um “modus operandi” e isto, em um país de pessoas com vergonha na cara já teria sido desvendado e os culpados estariam numa prisão perpétua,quiçá pena de morte, mas aqui, eles riem e ainda ocupam cargos públicos pousando de salvadores da pátria, que miséria!!!

  7. Deixando de fora os prejuízos de “algumas” pessoas que não tem nada a ver com o caso e realmente não mereciam o que aconteceu a região está pagando hoje o que os coronéis faziam na década da novela Gabriela (1920 – 1930), quando contratavam trabalhadores, geralmente de Sergipe, para contratos de arrendamentos em suas terras e quando vencia o contrato, eles pagavam o saldo do contrato e executavam ou mandavam executar o trabalhador para pegar o dinheiro de volta e a família do pobre coitado em Sergipe nunca mais tinha notícias do mesmo. QUEM AQUI FAZ, AQUI PAGA. E, OS JUSTOS HOJE PAGAM PELOS PECADORES DE OUTRORA. Mas, soube que a lavoura já recuperou 30 % da produção daqueles anos áureos do cacau, o que já é alguma coisa. Em 2100 já vai estar quase totalmente recuperada e o bom é que hoje não existem mais os coronéis. Apenas alguns poucos índios sem vergonha e caráter querendo tomar as terras produtivas de alguns fazendeiros na região de Pau Brasil, para viverem de caça e pesca em pleno século XXI, e ainda plantar maconha para consumo. Estes índios merecem é surra de binga de boi e xilindró.

  8. Interessante, é a historia de pseudos agricultores, que tomavam dindim oficial nos bancos e compravam mansoes e apartamento em Salvador, para manter suas amantes e as vezes garotos de programa nessas residencias, interessante é a historia de pseudos agricultores que nem nas suas fazendas iam, ficavam na praça adami olhando a vida passar e quando iam tinham VERGONHA, de trazer o excesso da produção de bananas e hortaliças e vender nas feiras livres, interessante é a historia que tomavam dindim e faziam aplicação em OVER NIGHT e outras aplicação, interessante é a historia das grandes festas em Itabuna regadas as prostitutas famosas do Rio de Janeiro e drogas licitas e ilicitas custeadas com dindim tomado de emprestimos bancarios para recuperação da lavoura cacaueira, é interessante essa nossa historia, então não foi só vassoura de bruxa, foi a historia toda dessa regiao cacaueira, que ainda nao desceu do pedestal, continua a mesma.

  9. Vamos transportar esse texto da seringa para o cacau: “senhores em seus domínios em função do sistema de exploração a que estavam manietados.[19] O débito dos seringueiros lhes dava amplos poderes sobre eles, inclusive de caçá-los em fuga e recebê-los de volta com auxílio do poder público. Como forma de reforçar seu status, os seringalistas obtinham, por meio de relações políticas, a compra de patentes da Guarda Nacional. Desse modo, surgiram os “coronéis de barranco”. Semelhantemente ao que ocorria com os aviadores, em relação à comenda, a patente dos coronéis era atribuída por força do hábito de se considerá-los homens importantes, mesmo que não a tivessem recebido oficialmente. Atuando como potentados, os seringalistas exerciam força moral, política e mesmo policial em seus domínios, estabelecendo vínculos de compadres e afilhados, fazendo conchavos e acordos para apoiar candidatos às eleições municipais e estaduais, resolvendo brigas, combatendo as invasões de seringais vizinhos, justiçando criminosos e exercendo poder para prender e punir seringueiros que fugissem de seu seringal”
    Lucilene Gomes Lima

  10. Eu, sinceramente, só vi como aspecto negativa o advento da vassoura de bruxa no que trata da derrubada de matas para a construção de pastos.

    Não lamento nem um pouco pelos sub empregos “perdidos” pelos trabalhadores rurais, escravos da sanha acumuladora e perdulária dos propietários de terras e produtores de cacau.

    Até vejo benefícios, como a diversificação da lavoura, e a necessidade sentida pelos exploradores de que tinham que, finalmente, trabalhar.

    A profissão que mais prosperou nessas Terras do Sem Fim foi a de herdeiros, preguiçosos e tão cruéis como seus antepassados.

    Agora, se a proliferação da vassoura de bruxa foi deliberadamente criminosa, também quero ver os autores na cadeia.

  11. ANALISEM disse:
    O seu comentário está aguardando moderação.
    26 26UTC julho às 19:38

    GOSTEI ELIZABETH.KKKKKK. OS CULPADOS DO VÍRUS DA DENGUE DAS MORTES, SÃO DO EX PREFEITO QUE É MACUMBEIRO E NÃO NEGA, DO ATUAL GESTOR QUE GOSTA TAMBÉM DO TAMBOR E PÕE O POVO QUE FAZ CAMPANHA PRA ELE PRA TOMAR BANHO DE PIPOCA. VAMOS FICAR DE OLHO PRA VER SE ELE VAI TOMAR BANHO DE SANGUE NA ENCRUZILHADA.
    A RESPOSTA VEM A JATO VIU AZEDIM? SUA IMPUGNAÇÃO. VAI COLHER O QUE PLANTOU.
    AGORA, AQUI PRA NÓS, RICARDO VOLTOU PARA O PIMENTA PRA ESCREVER MATÉRIAS QUE BENEFICIEM SEU EX-PATRÃO O CAPITÃO?

  12. Parabéns pela matéria Ricardo!
    Tivemos uma reunião com Dilson Araújo hoje a tarde e estamos agendando exibições do filme “O Nó” na Sala Zélia Lessa, além de debates sobre o assunto tão polêmico.
    Ari Rodrigues
    Diretor presidente da ACATE

  13. Assisti o filme e recomendo a todos, principalmente estudantes e educadores. O trabalho é muito elucidativo e não deixa dúvidas sobre o crime e o fracasso da ceplac. Prova disso é que na falta de argumento para contestar os fatos que o filme mostra, alguns ficam nesse lero-lero de “coronéis”, tentando justificar o injustificável.

  14. Zelão diz: – “O NÓ” – A Reprise!

    “A cada eleição o filme entra em exibição: – Não é com o intuito de aumentar a bilheteria é para atingir politicamente a um alvo predeterminado.”

    Financiado integralmente pelo grupo político formado pelos grandes fazendeiros que sempre financiaram subservientes e em defesa dos seus próprios interesses as campanhas de governadores, prefeitos e deputados ligados ao partido político dominante na Bahia, o “NÓ” é uma “peça de defesa:”- Não dos cerca de 250 mil trabalhadores rurais que migraram para as grandes cidades da região, nem dos pequenos “burareiros e arredantários.” Foi, antes de ser uma peça de caráter técnico e social, uma peça de defesa para; mais uma vez, livrar os grandes devedores do pagamento das dívidas contraídas com os bancos.

    Qual o benefício buscado para os trabalhadores rurais? Se hoje mitigam as margens das rodovias esperando pela reforma agrária (que não vem), ao menos guardam a esperança de um dia; participando de um assentamento, ser dono de um “pedaçinho de terra,” sonho que antes era proibido de sonhar e, nem mesmo uma roça de subsistência podia plantar. Que diferença faz da miséria sob os barracos de lona em que hoje vivem para o mísero salário que antes recebiam que mal dava para alimentar mulher e filhos e das condições “assemelhadas com o trabalho escravo” em que viviam?

    Sinto realmente um “Nó” na garganta, diante de tanta hipocrisia!

  15. O filme mostra documentos que comprovam que a introdução da doença foi um crime e o próprio diretor geral da ceplac confirma que “não tem dúvidas. NINGUÉM DIZ NADA AO CONTRÁRIO!

    O filme mostra documentos que comprovam o fracasso do programa de recuperação feito pela ceplac e o secretário do ministro confirma que não havia tecnologia, ou seja, que enganaram os produtores. NINGUÉM DIZ NADA AO CONTRÁRIO!

    Agora, disseminar a mentira de que a vassoura-de-bruxa afetou apenas os ricos e maus e fazer desse desastre uma espécie de “ação heróica”, essa é sim uma triste e ridícula tentativa de construir uma “peça de defesa” para defender o indefensável… É a subserviência a serviço dos coronéis da política.

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