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21 de setembro de 2020 | 11:40 am

ENSINO SUPERIOR E PRECARIZAÇÃO

Tempo de leitura: 2 minutos

Felipe de Paula | felipedepaula81@gmail.com

Cotidianamente é “vendida” a ideia de que o sucesso está diretamente vinculado a posse de um diploma superior. Jovens chegam à universidade sem dominar conhecimentos mínimos essenciais para sua permanência.

Na última semana, as universidades federais completaram três meses de greve. O movimento de paralisação é um dos maiores da história em adesão. Independente de se discutir as demandas da mobilização, que se centram na reestruturação da carreira docente e na reposição das perdas salariais acumuladas, é interessante refletir sobre a realidade do ensino superior federal.

Quais os caminhos administrativos que têm sido tomados para a educação pública? Quais as vivências que os jovens estão sujeitos em seu processo formativo? Essas e outras questões podem lançar uma luz sobre um espaço fundamental para o desenvolvimento do país e que nem sempre recebe o tratamento adequado.

O Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), criado em 2007, estabeleceu uma ampliação da quantidade de vagas nas universidades sem precedentes. As vagas foram interiorizadas. Milhares de jovens puderam iniciar seus estudos nas suas cidades de origem. Aquilo que, na teoria, pareceria genial, se constituiu em uma realidade problemática. Se as vagas cresceram, os investimentos não foram proporcionais. Políticas de permanência são insignificantes, os campi interiorizados enfrentam precariedades diversas, a qualidade do ensino/aprendizagem cai consideravelmente.

Para quem vivencia cotidianamente a realidade de um campi interiorizado, a percepção dos investimentos feitos mostra-se cruel. Percebo que a falta de estrutura impacta não apenas na qualidade do serviço oferecido. Outro número cresce assustadoramente: a evasão. Jovens dedicam seus esforços para cursarem uma universidade e saem dela antes da sua formatura. É habitual encontrá-los com a auto-estima destruída por sentirem que são incapazes de encarar aquele espaço. Sentem-se limitados, diminuídos. Investir em educação superior deve proporcionar aumento no número de matrículas ou jovens capacitados?

Campi são abertos em regiões com índices sofríveis na educação de base. Cotidianamente é “vendida” a ideia de que o sucesso está diretamente vinculado a posse de um diploma superior. Jovens chegam à universidade sem dominar conhecimentos mínimos essenciais para sua permanência. Não dispõem de bibliotecas equipadas e muito menos de recursos para adquirirem livros. O transporte público inexiste: estudantes viajam espremidos em vans com 20, 22 passageiros. Não há residência universitária, lanchonetes, restaurantes universitários. Resultado? Turmas formadas com 40, 50 jovens, três semestres depois contam com 12, 13 alunos.

O sul da Bahia vivencia a futura implantação de uma universidade federal. Também interiorizada, fruto das políticas de expansão adotadas pelo governo federal. A população deve se sentir responsável por uma instituição que tem entre suas funções a de colaborar com o desenvolvimento regional. A educação, infelizmente, é vista por muitos como apenas um espaço para fornecer diplomas. É mais do que isso. É um espaço destinado ao estímulo da reflexão, da crítica, da ação rumo à criação e a mudança da realidade estabelecida. Provavelmente por esse motivo, recebe tão pouca atenção dos gestores. Uma instituição forte gera um povo forte.

Aprender com os equívocos vivenciados anteriormente pode colaborar com uma instituição que seja aquilo que ela realmente deve ser: pública, gratuita e de qualidade.

Felipe de Paula é professor universitário federal.

Esta publicação possui 9 comentários
  1. Apontar falhas, apontar falhas e apontar falhas.
    Deflagar greves, deflagar greves e deflagar greves.
    Exigir maiores salários, exigir maiores salários e exigir maiores salários.
    Lutar por melhores condições de trabalho, lutar por melhores condições de trabalho e lutar por melhores condições de trabalho.

    Quero ver quando os professores, sempre tão falantes e lutadores, vão também participar na construção de uma solução para melhoria do ensino superior no nosso país, eles que na maior parte das vezes fizerem seus mestrados e doutorados em universidades públicas.

  2. Ta certo professor, pra que pobre quer universidade?
    Porque abrir vagas em regiões “com índices sofríveis na educação de base” ???
    O professor ta com toda razão quando critica a abertura de vagas universitárias nessas regiões. Pois lá só tem alunos com “auto-estima destruída por sentirem que são incapazes de encarar aquele espaço. Sentem-se limitados, diminuídos”.
    E Absurdo dos absurdos: Eles nem tem “recursos para adquirirem livros”
    Ele desmascara a “ideia de que o sucesso está diretamente vinculado a posse de um diploma superior”. Um absurdo pensar desta forma! o Brasil tem exemplos e mais exemplos de jovens de sucesso que nunca tiveram diploma superior.
    E, sr. José Vidal, esses problemas, apontados pelo ilustre professor, são um grave impedimento para que eles participem da “construção de uma solução para melhoria do ensino superior no nosso país”.
    Vade retro!!!!!!!

  3. Muito bem, professor! Ninguém melhor para expor as mazelas da educação do que a pessoa que vive o cotidiano dela. Os políticos são reflexos da sociedade que menospreza a importância da educação para o significado que ela tem para o desenvolvimento de uma não forte. Muita gente se sente o máximo quando passa em vestibular, mas não sabe que tão difícil do que entrar, é cursar com êxito e sair com mais conhecimento do que entrou. Não somente com conhecimento, mas com sabedoria para interagir com o mundo a sua volta sem arrogância.

  4. Muito pertinente este texto. É importante que se pense bem nas dificuldades e problemas de infraestrutura que muitas das novas federais tem experimentado quando for finalmente escolhida a área para a implantação da UFESBA. A Universidade (seus alunos, docente se funcionários) necessitarão de infraestrutura básica, acessibilidade e segurança que a localização lhe puder oferecer. Não será a Universidade que propiciará estes itens ao local escolhido. No máximo, engrossará o “coro dos descontentes” e, enquanto isso, deixa de crescer e atrair e fixar os melhores profissionais, prestando os serviços que realmente deve à sociedade.

  5. Prezado José Vidal,
    Entendo que sempre pode haver exageros por parte dos docentes, como de resto em qualquer classe, mas apontar falhas, cobrar melhores cndições de trabalho e melhor valorização profissional também fazem parte das ações em prol da melhoria do ensino superior no nosso país. Outras ações e reinvindicações são rotineiramente objetos de propostas, pena que raramente são ouvidas.

  6. Prezado Felipe,

    Parabéns pelo texto. E pela coragem de um momento tão conturbado, vésperas de eleição e julgamento de mensalão, querer colocar o dedo em uma ferida que, há muito, parece exposta e em necrose.
    De fato, os professores federais, e seus colegas de universidades estaduais, não querem apenas aumentos salariais. Querem melhores condições de trabalho. Não querem “universidades de lata”. Trabalhar como educador no Brasil parece tarefa ingrata. Não é possível mais falar a verdade. Existe aqueles que nem colocam o pé nas universidades e se dizem entender o que lá se passa.
    Não sabem que boa parte dos recursos conseguidos para construções de instalações (pavilhões e laboratórios) são conseguidos porque esses mestres e doutores fazem projetos de pesquisa e se dedicam a difícil tarefa de captar recursos juntos as entidades de fomento e outros. São abnegados. Idealistas. E vivem sonhando um mundo melhor.
    Não ligue ou sofra com as criticas que receber aqui. Lembre que sempre existirão os parasitas da politica. Aqueles que confundem políticas de governo com políticas de estado. E o Brasil ainda carece de políticas de estado.
    Sim, há aqueles que dão suas aulas e não batem um prego…Mas são cada vez em menor número. Quem tem olhos que veja!
    Mais fácil é encontrar inúteis na politica…
    Se ao menos tivéssemos o respeito da sociedade… Se a sociedade pudesse compreender o que se passa em sala de aula. As dificuldades em receber um jovem que não sabe sequer escrever…E transformá-lo

  7. Prezado Felipe,

    Parabéns pelo texto. E pela coragem de num momento tão conturbado, vésperas de eleição e julgamento de mensalão, querer colocar o dedo em uma ferida que, há muito, parece exposta e em necrose.
    De fato, os professores federais, e seus colegas de universidades estaduais, não querem apenas aumentos salariais. Querem melhores condições de trabalho. Não querem “universidades de lata”. Trabalhar como educador no Brasil parece tarefa ingrata. Não é possível mais falar a verdade. Existem aqueles que nem colocam o pé nas universidades e se dizem entender o que lá se passa.
    Não sabem que boa parte dos recursos conseguidos para construções de instalações (pavilhões e laboratórios) são conseguidos porque esses mestres e doutores fazem projetos de pesquisa e se dedicam a difícil tarefa de captar recursos juntos as entidades de fomento e outros. São abnegados. Idealistas. E vivem sonhando um mundo melhor.
    Não ligue ou sofra com as criticas que receber aqui. Lembre que sempre existirão os parasitas da politica. Aqueles que confundem políticas de governo com políticas de estado. E o Brasil ainda carece de políticas de estado.
    Sim, há aqueles que dão suas aulas e não batem um prego…Mas são cada vez em menor número. Quem tem olhos que veja!
    Mais fácil é encontrar inúteis na politica…
    Se ao menos tivéssemos o respeito da sociedade… Se a sociedade pudesse compreender o que se passa em sala de aula. As dificuldades em receber um jovem que não sabe sequer escrever…E transformá-lo…

  8. Felipe,
    Parabéns pelo texto, vemos a cena se repetir há anos e o País permitindo que nossa reserva “pensante” seja desestimulada ou procurem outros cantos do mundo.Todos queremos um País soberano, mas para que seja realidade precisamos do ensino e pesquisa fortalecidos desde sua base.

  9. Parabéns pelo texto e aproveito o assunto para relatar os motivos da nossa greve. Vamos continuar em busca da educação que todos sonhamos.
    IF BAIANO CAMPUS URUÇUCA EM GREVE!

    Para a escola que o SEU FILHO, SOBRINHO, NETO, AMIGO OU VOCÊ MESMO(A) gostaria e merece estudar seja de EXCELÊNCIA, são necessários dois pontos essenciais: SERVIDORES VALORIZADOS E ESTRUTURA ADEQUADA PARA ATENDER ÀS NECESSIDADES DE TODOS.
    O IF BAIANO – Campus Uruçuca pode ser considerada uma instituição de EXCELÊNCIA quanto ao QUADRO DE PROFESSORES (99% POSSUI PÓS-GRADUAÇÃO – ESPECIALIZAÇÃO, MESTRADO E/OU DOUTORADO) e TÉCNICOS ADMINISTRATIVOS BEM QUALIFICADOS, os quais foram aprovados por rigoroso processo de concurso público federal. Quanto a estrutura física e/ou laboratorial, infelizmente, o nosso Campus ainda não dispõe das condições necessárias para desenvolvermos a Educação desejada por toda sociedade.
    No Brasil, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) mostrou que a educação brasileira tem as piores médias quando comparadas aos demais países do mundo, inclusive em relação a países com menos recursos que o nosso. Por outro lado, nosso Brasil se destaca como país que mais arrecada impostos e em corrupção. Enquanto isso, os países mais desenvolvidos do mundo são os que mais têm investido em Educação, e onde os seus cidadãos se destacam profissionalmente, inclusive no esporte (medalhas olímpicas!).
    Por isso, mais uma vez, nós PROFESSORES E TÉCNICOS DO CAMPUS URUÇUCA, VIEMOS REIVINDICAR, ALÉM DOS 10% DO PIB PARA A EDUCAÇÃO BRASILEIRA:
    – ASSINATURA DO DECRETO QUE CONFERE AOS CAMPUS DE URUÇUCA, ITAPETINGA, VALENÇA E TEIXEIRA DE FREITAS (as antigas EMARC’S) A AUTONOMIA NO USO DOS RECURSOS FINANCEIROS, TAL COMO OCORRE PARA OS DEMAIS INSTITUTOS FEDERAIS;
    – CONSTRUÇÃO DE SALAS DE AULAS E LABORATÓRIOS PARA ATENDER A TODOS OS CURSOS EXISTENTES E PARA OS QUE SERÃO IMPLANTADOS;
    – AQUISIÇÃO DE LIVROS E MATERIAIS DIDÁTICOS PARA TODOS OS CURSOS;
    – INTERNET DE QUALIDADE PARA ESTUDANTES E SERVIDORES;
    – CONTRATAÇÃO DE MAIS SERVIDORES PARA ATENDER OS CURSOS TÉCNICOS DE NÍVEL MÉDIO E CURSOS SUPERIORES A SEREM IMPLANTADOS;
    – REFORMA DA QUADRA DE ESPORTES PARA QUE SE TORNE, DE FATO, POLIESPORTIVA;

    POR ISSO, NÃO OLHE OS MOVIMENTOS DE GREVE COMO UM PROBLEMA, MAS COMO UMA FORMA DE PRESSIONAR O GOVERNO FEDERAL A INVESTIR EM EDUCAÇÃO E CUMPRIR AS PROMESSAS DE CAMPANHA.
    DIANTE DESTE CONTEXTO, CONCLAMAMOS A SOCIEDADE BRASILEIRA APOIAR O MOVIMENTO DE GREVE DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO PÚBLICA.

    PARA TODOS NÓS, PAÍS RICO É PAÍS QUE INVESTE EM EDUCAÇÃO DE QUALIDADE!

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