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24 de fevereiro de 2020 | 08:38 am

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

ANALFABETOS COM DIPLOMA E ANEL NO DEDO

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Vão pensar que brinco em serviço, se lhes repetir o que li: segundo o Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf), 65% dos brasileiros que concluíram o curso médio não são plenamente alfabetizados. Isto quer dizer: têm dificuldades para entender, interpretar, analisar, avaliar conteúdos, relacionar as partes do texto e distinguir fato de opinião. Se os gentis leitores e leitoras ficaram abalados, sentem-se, pois o pior está por vir: diz o Inaf que 38% das brasileiras e brasileiros de nível universitário encontram-se na mesma situação, ou seja, possuem nível insuficiente em leitura e escrita. Estes seriam os analfabetos de terno, gravata, diploma e anelão no dedo.

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Boçalidades exuberantes e barulhentas

E como fica a tese da classe média dita “formadora de opinião”, em defesa da leitura que liberta, transforma, constrói? É pregar no deserto, discursar para ouvidos moucos, mostrar imagem a cegos. Somos uma nação de analfabetos funcionais tácitos e hereditários, alguns desses (devido à sua alta titularidade sem conteúdo) autoconsiderados sumidades, quando não passam de boçalidades exuberantes e barulhentas. Recentemente, uma desembargadora do Rio, no texto de sua sentença, recomendou aos advogados da causa examinada “adquirir livros de português de modo a evitar expressões que podem ser consideradas como injuriosas ao vernáculo”.

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Atentado contra a língua portuguesa

E ela cita exemplos que atestam serem completamente ignorantes em ortografia os nobres causídicos que apresentaram as contrarrazões do processo: em fasse (no lugar de “em face”), aciste (“assiste”), cliteriosamente (“criteriosamente”), doutros julgadores (“doutos”), estranhesa (“estranheza”), discusão” (“discussão”), inedoneos (“inidôneos”). Fico sabendo de uma curiosidade: “o advogado que atenta contra o vernáculo comete infração disciplinar”, de acordo com a Lei nº 8.906/94 (Estatuto da Advocacia). Logo, este caso sugere a ideia de que os advogados dessa causa deveriam ser processados por tentativa de homicídio. A vítima? A idosa, inculta, porém bela língua portuguesa.

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AS GRANDES HISTÓRIAS DE ANTÔNIO JÚNIOR

Antônio Nahud Júnior, depois de publicar, pelo menos, oito títulos (em gêneros variados), está de livro novo na praça, ainda quente do prelo: Pequenas histórias do delírio peculiar humano. São contos da mais diversa feitura, alguns ditos minimalistas, outros extensos, uns na primeira pessoa, outros tendo o autor como narrador “distante” – mas, em conjunto, todos formando uma celebração da maturidade do artista. E mais não digo para evitar a ociosidade da chuva no molhado, pois Pequenas histórias… é apresentado por Jorge Araújo e Ruy Póvoas, ainda com luxuosas orelhas lavradas por uma especialista em Coelho Neto, a pesquisadora Danielle Crepaldi, da Unicamp.

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O lado penumbroso do ser humano

Para Jorge Araújo, Pequenas histórias…“é livro inquieto e inquietante, que convida ao debate e à inteligência não conformados ainda à inércia do pensar de calças curtas”. E destaca o conto “Sem notícias de Deus” como “soberbo, antológico e definitivo”. Danielle Crepaldi percebe a erudição do autor, salientando que Poe, Miller e Ibsen “ecoam nessas histórias”, também destacando “Sem notícias…”, em que “a crítica social singelamente brota da aridez da fome e do clima nordestino”. Ruy Póvoas afirma que Nahud Júnior tem personagens “em crise de delírio”, que mostram “o lado sombrio do ser humano, sua rede de trevas, que a maioria teima em negar ou ignorar”.

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ALITA PRESTA HOMENAGEM A JORGE AMADO

A Academia de Letras de Itabuna (Alita), presta homenagem a Jorge Amado, com o projeto “A Alita vai à escola”, de 27 de agosto a 5 de setembro. Dia 27 – 19 horas: Cyro de Mattos, com o tema Jorge Amado em Itabuna (auditório da FTC); Dia 28 – 9 horas: Margarida Fahel, com Jorge Amado: um humanista nas terras do cacau (Colégio Militar); 29 – 9 horas: Antônio Lopes, com Jorge Amado: o pão e a liberdade (Campus 2 da Unime); 30 – 9 horas: Gustavo Veloso e Ceres Marylise, com exibição de documentário sobre Jorge Amado, seguido de atividades interativas (Escola Lourival Oliveira – Ferradas); Dia 5/9: Ruy Póvoas, com o tema Jorge Amado: ficcionista, ogã e obá.

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ENFIM, CORONEL RECEBE TÍTULO MERECIDO

A Justiça demorou mas reconheceu, agora em agosto, que o coronel da reserva do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra (sem foto, para a coluna não cheirar mal), chefe dos serviços de repressão a presos políticos em São Paulo (1970-1974), merece o título que com tanta determinação perseguiu: “Torturador”. Ele é tido como símbolo dos agentes da ditadura militar (1964-1985) que, em nome do Estado, sequestraram, torturaram, estupraram, mataram e ocultaram corpos de presos políticos e “inimigos” do regime. Estima-se que 17 pessoas foram assassinadas na “gestão” de Ustra (que usava o codinome de Doutor Tibiriçá e raramente sujava as mãos: apenas dava ordens e supervisionava o “serviço”).

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Dante aprendido no pau-de-arara

Não se sabe (nem interessa saber) se Ustra, um bandido vestido de verde-oliva, lia os clássicos. Mas seus presos tomaram conhecimento, pelo modo mais doloroso, do Inferno de Dante: a quem entrasse naquelas masmorras modernas a lógica perversa mandava, como noCanto III de A divina comédia, renunciar a qualquer esperança de rever o céu. Na minha tradução (de Fábio Alberti, para a Abril Cultural) está, à página 18, uma indagação apropriada ao caso: “Que dor tão cruel se apodera deles e os faz gritar, urrar tão fortemente?” O Doi-Codi de São Paulo, era um inferno; o coronel Ustra, o capeta-chefe.

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SEM TREJEITOS, CHICO CANTA A MULHER-MULHER

Sem aqueles trejeitos homossexuais (que transmitem ridícula caricatura da mulher) Chico Buarque tem um lado lucidamente feminino, isto é, político: não canta a mulher “gostosa”, objeto de desejo sexual, nem tão pouco a mulher-musa, deusa no alto do panteon. Seu discurso é o da dor, da discriminação, do “veneno” e da grandeza dessa costela tirada de um ser já também esfacelado chamado homem. Sua visão, prenhe de poesia e beleza, não é sobre a mulher, mas da mulher. São tantas as canções (Atrás da porta, Olhos nos olhos, O meu amor, Teresinha, Folhetim), mas me detenho numa que ele fez especialmente para Nara Leão: Com açúcar, com afeto.

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“Quando a noite, enfim, lhe cansa…”

O malandro sai de casa em busca de dinheiro para sustentar sua Amélia, mas ela sabe que até a oficina “há um bar em cada esquina” – e ele vai beber, cantar, discutir futebol e olhar as pernas das moças – “coisas de homem”. Isto tudo é dito com rimas magníficas, um ótimo trocadilho (“alegre, ma non tropo”) e um fecho de ouro: finda a farra, o cara (que saiu “com seu terno mais bonito”) retorna “maltrapilho e maltratado” feito um gato após orgia no telhado. Ela tenta zangar-se, mas qual! “Ainda vou esquentar seu prato/dou beijo em seu retrato/e abro os meus braços pra você” – que mulher! A cantora erra a letra (onde estava“há” ela canta “existe”, quebrando o verso), mas não reclamo. Nara Leão tem direito.

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Como se fosse uma conversa de botequim

E antes que vocês queiram ver/ouviresta injustamente pouco executada canção de Chico, um aviso a quem interessar possa: a partir da próxima terça-feira, pretendo responder aos comentários que necessitem de resposta. Nada de chat – ou coisa igualmente chata (ops!): só esclarecer pontos de vista e retribuir a gentileza dos que gastam tempo e tutano opinando sobre esta coluna (alguma coisa como uma inocente conversa de botequim, com permissão de Noel). E com vocês, Nara Leão!

O.C.

Esta publicação possui 9 comentários
  1. Grande Lopes:

    Parabéns pelo retorno ao Pimenta.Considero “Com açucar e com afeto” uma das mais belas músicas.Prefiro com a “dupla” Chico e Betânia. Mas,com Nara, também vale a pena. Vamos organizar a viagem com Ronaldo.

    Forte abraço.

  2. Já é um bom começo reconhecer o milico Carlos Alberto Brilhante Ustra como torturador.

    Precisamos avançar sem medo da pecha de revanchistas. Tortura é crime de lesa humanidade, crime imprescritível e tem de ser punido pra que não se repita.

    E quanto aos analfabetos diplomados, meu caro Ousarme, há jornalistas em penca nesse rol. Diante disso, não vejo porque a exigência do diploma para o exercício profissional nessa categoria.

  3. É um prazer ler o Universo Paralelo. Faz o diferencial no meio de tantas coisas que são mal escritas por estas terras.
    Muito boa a reflexão sobre Chico – um profundo conhecedor da alma feminina – e sua leitura sobre a mulher brasileira.
    Vou aguardar com ansiedade o próximo Universo Paralelo.

  4. Parabéns ao Universo Paralelo me sinto honrada em poder ousar escrever um simples comentário ao monstro da literatura. Além de excelente literário, é sensível, sabe tocar na vaidade femenina, escolhendo “Chico Buarque ” e ,a canção Com açúcar,com afeto mulher adora,tem necessidade… Bravo!

  5. A ideia de exigir diploma de jornalista já gorou uma vez, pois o STF a derrubou. Agora, o Senado aprovou a exigência… é um samba do crioulo doido. E jornalismo, como samba, não se aprende muito na escola (olha Noel aí, gente!). Mais eficazes do que as más escolas de jornalismo são o talento e a prática nas redações.
    Toda essa celeuma foi criada pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) que, querendo reservar mercado para os recém-formados, pregou por aí que os não licenciados não têm ética. Balela. Ética nada tem a ver com diploma. Em geral, quem tem mãe tem ética.
    E antes de o STF derrubar a pretensão da Fenaj e o Senado a restabelecer, o mercado já resolvera o problema: emprega quem tem competência (e, valha-nos Deus, até quem não tem), independente de portar diploma, beca e capelo.
    Muito obrigado a todos que se deram ao trabalho de ler nossa coluninha, mais ainda aos que, para minha honra e glória, postaram comentários.

  6. FBH confessou modestamente que não seria capaz de piropos (galanteios, cantadas) à Vinícius – pelo menos no início da carreira. Como ele declarou: “Engraçado. Eu gosto tanto de Vinícius e eu não consigo fazer canções de amor como o Vinícius faz.”
    Porém, talvez, esse avatar mulher – já contestado em parte pela Joyce quando mais ou menos disse que ele chegou perto, mas não disse tudo – seja a suprema sedução, radicalmente invasiva.
    É como se o cara balbuciasse no pé de ouvido: “Eu sei dos teus desejos e de tuas dores. Eu sei o que escondes.”

    Mudando o gênero do falante:
    “Eu sou sua alma gêmea
    Sou sua fêmea
    Seu par, sua irmã
    Eu sou seu incesto
    Sou igual a você
    Eu nasci pra você”

    Lembremos ainda que o terceiro pretendente (Alter ego do próprio Chico?) é quem fica com a Teresinha (Até quando não sabe. Mas duvido que seja para todo sempre.):

    “O terceiro me chegou
    Como quem chega do nada:
    Ele não me trouxe nada,
    Também nada perguntou.
    Mal sei como ele se chama,
    Mas entendo o que ele quer!
    Se deitou na minha cama
    E me chama de mulher.”
    …………..

    Salvo melhor juízo, parece-me que FBH tem um quê antirromântico (Um quê machadiano?):

    “Como se separavam naquele tempo. E não era assim tão desesperado que daí a pouco você ia encontra uma outra pessoa. Não era o fim do mundo. Não era “o meu mundo caiu”, como a Maysa cantava…Porque, acabou o amor, nunca mais serei feliz…Aquela coisa de as mulheres então abandonadas. Mentira!… Porque logo depois também iam encontra um sujeito melhor, provavelmente melhor do que aquele.”

  7. Correção, por favor.

    Salvo melhor juízo, parece-me que FBH tem um quê antirromântico (Um quê machadiano?):
    “Como se separavam naquele tempo. E não era assim tão desesperado que daí a pouco você ia encontrar uma outra pessoa. Não era o fim do mundo. Não era “o meu mundo caiu”, como a Maysa cantava…Porque, acabou o amor, nunca mais serei feliz…Aquela coisa de as mulheres então abandonadas. Mentira!… Porque logo depois também iam encontrar um sujeito melhor, provavelmente melhor do que aquele.”
    uma outra pessoa. Não era o fim do mundo. Não era “o meu mundo caiu”, como a Maysa cantava…Porque, acabou o amor, nunca mais serei feliz…Aquela coisa de as mulheres então abandonadas. Mentira!… Porque logo depois também iam encontrar um sujeito melhor, provavelmente melhor do que aquele.”

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