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1 de junho de 2020 | 10:15 am

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

ORDEM INVERSA: ANTES DO CRIME, A PROVA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Não sou gramático, menos ainda gramaticão (variante que identifica gramático mal-humorado), o pior dos tipos. Chego ao supremo exagero de, apesar dos políticos que nos cercam, manter distância do mau humor nas diversas situações da vida. Mas já ando um pouco irritado com a confusão que a mídia faz com dever e deveres. Para não ser processado por calúnia, difamação e injúria, procedimento em moda contra os blogs, cerco-me de cuidados, pondo o carro adiante dos bois: antes de apresentar o crime, eu mostro (com a ajuda do Google, é claro) as provas de que ele vem sendo reiteradamente cometido. Então, vamos lá, como disse aquele prefeito, antes de meter as mãos no cofre municipal.

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Todos precisam fazer o “dever de casa”

“E o dever de casa? Os candidatos estão preparados para fazer?”– questiona um preocupado analista político. Prestigiado blog de Ilhéus sai-se com esta: “Bahia (…) acusou Simões de não fazer o dever de casa na Secretaria de Saúde”. O bispo diocesano de Itabuna também foi envolvido: “Para ele (D. Ceslau) os governos federal, estadual e municipal deveriam fazer o dever de casa…” – reporta famoso blog de Itabuna – e aqui persistem dúvidas sobre se a expressão é do prelado ou do redator (que, assim, teria feito o religioso entrar nesta fria quase como Pilatos no Credo). Em importante jornal de Itabuna, uma declaração da presidenta da Ficc: “É uma sensação de dever cumprido…”

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Atentado contra a língua portuguesa

Exibidas as provas, vamos ao crime.  Pra início de conversa, o texto da presidenta está correto, os outros, não. Se Joãozinho disser à professora (atualmente eles a chamam “Tia”!) que não fez o dever de matemática, ele será candidato à recuperação também em português. Recomenda-se dizer “não fiz os deveres” (melhor ainda seria “fiz os deveres!”), pois essas obrigações que as escolas (quando não estão em greve) mandam cumprir em casa chamam-se “deveres” – assim, no plural. Regrinha simples, que todo jornalista conhece (mas nem sempre usa): dever é para cumprir; deveres, para fazer. Querem um trocadilho bobo? O bom aluno cumpre o dever de fazer os deveres…

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Os sinônimos e a confusão que geram

Às vezes, tais confusões nascem com os sinônimos, pois a palavra “substituta” nem sempre tem o mesmo comportamento. Por exemplo, começar e iniciar. “Aulas de pós-graduação iniciam no polo de Itabuna”, promete uma empresa de cursos a distância (CAD). Isto não é bom (mais ainda quando vem de uma escola!). Melhor seria “Aulas de pós-graduação começam…”. O verbo iniciar, no caso, é pronominal: “As aulas iniciam-se…” No caso de dever/deveres parece haver uma contaminação pelo sinônimo “lição”. Fazer a lição de casa é língua portuguesa; fazer o dever, não é. Que os futuros prefeitos façam os deveres de casa, amém.

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TEMPOS DE NELSON RODRIGUES E ARI BARROSO

O mundo do futebol, todos sabem, é uma espécie de sarcófago da língua portuguesa. Expressões absurdas, que logo são absorvidas, servem para substituir (e sepultar) a boa linguagem: uma das últimas criações é um aumentativo em aço/aça: jogaço, defesaça, partidaça (ou jogasso, defesassa, partidassa?). É de fazer chorar. Mas, com cuidado e boa vontade, é possível pescar no famoso esporte bretão excelentes textos e histórias humanas. Bastaria lembrar que Ari Barroso, Nelson Rodrigues, Mário Rodrigues Filho (irmão de Nelson, que deu nome ao Maracanã e criou a expressão “Fla-Flu”), Antônio Maria, João Saldanha e Armando Nogueira eram do ramo. Nem tudo é pedrada.

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Uma cotovelada no samba-canção

Duas coisinhas sobre Ari Barroso e Antônio Maria. Este é autor de famoso samba-canção dor de cotovelo (um que diz “Ninguém me ama/ninguém me quer…”, ai meu Deus!), enquanto Ari é conhecido pela sua Aquarela do Brasil: não sei de textos sobre futebol de nenhum dos dois, ambos narradores. Não escreviam sobre o velho esporte bretão, apenas falavam – e não falavam bobagens. Já Mário Rodrigues Filho, Armando Nogueira e Saldanha produziram excelentes escritos. Nelson Rodrigues eu deixo por último, mas ele era primeiro. Cronista esportivo genial. No mais, estou na bronca porque tiraram o hífen de “dor de cotovelo” – uma violência (talvez uma cotovelada) desnecessária.

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É preciso atenção à escrita e à fala

É esse “enriquecimento” da língua, ferrenhamente defendido por certa corrente de linguistas, que precisa ser obstado pelas pessoas que têm responsabilidade com a linguagem dita culta – aquela aprendida na escola e lida nos (bons) livros. Jornalistas, pela influência que exercem no ambiente em que atuam (até se usa para eles o abominável epíteto de “formadores de opinião”), precisam tomar cuidado com o que dizem e escrevem. Indivíduos que não foram à escola têm direito de falar “errado”. Mas quem exerce atividade intelectual (ou próxima a isto), deve deixar de lado os modismos e, sem afetação, expressar-se em língua portuguesa. “Defesaça” não pode.

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ATENÇÃO AO RUIM, AO BOM E AO VICE-VERSA

As relações (melhores disso, maiores daquilo) me fascinam, na medida em que informam sobre os gostos e as escolhas das pessoas. Mas não caio na armadilha de montar listas: aprendi o perigo que existe em emitir “juízo de valor” sobre arte: o que hoje é “bom”, amanhã pode não ser (e vice-versa), a depender dos humores do público. E como a gentil leitora e o bem informado leitor devem estar pensando naquele pintor holandês, vá lá: Van Gogh – ao que consta, em vida, o velho e sofrido Vincent teve seus quadros encalhados, menos um (que o irmão comprou, por humanidade). Hoje, nos leilões de alto preço, sua pintura é disputada a tapas. Então, nada de melhores disso, maiores daquilo. Apenas opino, por direito que me dá a Carta de 1988.

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“Por onde for, quero ser seu par”

O refrão “Por onde for, quero ser seu par”, de Andança (Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi) é dos melhores já criados na MPB, e ainda há uma espécie de sub-refrão (“Me leva, amor”) simples e tocante. Beth Carvalho, uma das nossas cantoras mais competentes, lançou a música em 1968, no II FIC (Festival Internacional da Canção), da Rede Globo. Andança teve cerca de 300 gravações – e a própria Beth Carvalho a registrou em quatro ou cinco arranjos diferentes. Neste, ela se mostra em toda sua grandeza de artista popular, equiparando-se às maiorais da canção nacional (Alcione, Elis Regina, Gal Costa). Músicos de primeira (regidos por Ivan Paulo, que também fez o arranjo), coral afinado, apresentação apoteótica. Cantemos: “Por onde eu for…

(O.C.)

Esta publicação possui 10 comentários
  1. Delicioso!…Mesmo quando o “prato servido” azedou (mau uso da língua pátria).
    Aplausos para a escolha da melodia da semana,coisa que já é de se esperar, sempre.
    Quanto ao Vincent, quem melhor derramou nas tintas as inseguranças e torturas da alma humana, conservando entretanto o lirismo e o colorido que essas mesmas emoções comportam, por mais sofridas que sejam? Valem-se delas, também a poesia e a música…

  2. Como é bom ler o universo paralelo,com essas aulas de portugues(será que ainda tem acento? mas até fico acanhada de fazer algum comentário e cometer erro de gramática.

  3. Dá-lhe, Ousarme! Que os arrogantes “formadores de opinião” percam a pose e a preguiça intelectual. Aos livros, cambada.

    Que tal uma dose matutina, antes até do café da manhã, de Machado de Assis; à tarde, Graciliano Ramos e à noite, para não precisar contar carneirinhos, é recomendado João Guimarães Rosa.

  4. Todos os que gostamos de qualidade, cultivamos paixão por Universo Paralelo. Eu alardeio ser a apaixonada nº1 dessa pérola em ambiente obscuro. Não conheço muita coisa, mas em matéria de Coluna Literária em ambiente virtual, Ousarme é o melhor. Aproveito para aprender mais, além de fruir o Belo da Arte.

    Ousarme, quero humildemente pedir, uma bela página sobre Safo de Lesbos de quem sou admiradora, apesar de ser hetero. Para mim, o que mais importa é o SER e ela, apesar de culta e sensível é um Ser quase desconhecido.

    Estou “curtindo” Andança e… Cantando junto!
    Felicidades!

  5. Preciso esclarecer: quando digo que o “prato azedou” refiro-me às inúmeras vezes em que, no cotidiano, encontramos a nossa língua portuguesa assassinada.É um prato azedo, difícil de engolir, embora isso não nos tire o direito de errar,às vezes…Falo por mim! Afinal não sou nenhuma especialista.Contudo procuro estar atenta.Quanto às suas “aulas”…adoro! Aliás, concordo com as outras leitoras. Todos os capítulos são excelentes :a Coluna Literária, a Página Musical e aquela em defesa irretocável do nosso idioma.Se em algum momento fui mal compreendida, perdão!

  6. Quem sabe se deixasses um pouco de lado essa tua concorrência com o Sacconi, o Sérgio Nogueira e o Pasquale Cipro Neto?
    Talvez fosse mais interessante recuperar alguma coisa do espírito de “Solo de Trombone” e “Estória de Facão e Chuva”.

  7. Agradeço a quem comentou meu textinho desta semana – e também a quem leu e não comentou (não agradeço a quem não leu, porque já seria exagero de gentileza – e o poeta disse que “o exagero é uma forma disfarçada de mentir”). Vamos aos que “pedem” resposta:

    Leidikeiti – O velho Jung (1875-1961) disse que não há coincidência (como habitualmente empregamos o termo), há sincronicidade, que ele chama também de “coincidência significativa”. Não me cobre a diferença, pois não sei (mas indico, para as devidas explicações, minha psicanalista favorita, Simey Soeiro, em Ilhéus). Isto é para dizer que, quando vi seu comentário, pensava em levantar a discussão poeta/poetisa, tendo Safo como referência.
    O que este nosso “raciocínio em bloco” significa, perguntemos a Jung (ou à Dra. Simey). E esta coluna é “pérola em ambiente escuro”? Preciso me cuidar, senão você me toma o emprego… No mais, cantemos: “Por onde for, quero ser seu par…”
    Leitora (sempre) atenta – “Quem melhor derramou nas tintas as inseguranças e torturas da alma humana, conservando entretanto o lirismo e o colorido que essas mesmas emoções comportam, por mais sofridas que sejam?” – para alguém que escreve assim, nada me autorizaria a dar “aula”. E, por favor, vamos parar com isso de estar “errada”, pois esta coluna não pretende ser fiscal de ninguém. Mais persigo o jogo, o lúdico, a diversão – e parece que estamos nos divertindo (mesmo que, vez por outra, alguém me leve a sério). Faz parte…
    Ricardo Seixas – “Aos livros, cambada!” é um fenomenal grito de guerra a ser usado não só nas redações, mas, principalmente, nas escolas. É mais direto e contundente do que “Ó bendito o que semeia/ livros, livros à mancheia…” E sua receita (Machado de Assis no café, o Velho Graça à tarde e Guimarães Rosa ao deitar) é perfeita.
    Márcio – Curto e direto. Obrigado pela participação.
    Juliana Soledade – Pois é. Cantemos todos: “Me leva, amor” – exemplo de como a poesia pode ser simples e tocante. Uma frase aparentemente banal, mas que, no contexto, revela uma grande força.
    elisabeth Martins – Pelo amor de Deus, não! O UP não é aula nem eu sou professor (e como gostaria de sê-lo!). Não fique acanhada nem se preocupe em cometer “erros de gramática”. Nossa intenção não é assustar as pessoas. E quando você se preocupa em não errar já avançou vários passos. Ah, sim: português continua com chapeuzinho.
    jucemir rodrigues da silva – A coluna nunca se meteu a espaço de tira-dúvidas (embora alguns leitores entendam assim, me parece). Você não tem obrigação de ter observado isto, mas nem em toda coluna falo de língua portuguesa.
    Em geral, quando tangencio as questões gramaticais é a propósito de textos vistos ou ouvidos em nossa mídia. Nada a ver com os professores citados: não tenho notícia de Cipro Neto, gostei de ver Sérgio Nogueira na Globo, recentemente, e de Sacconi eu nem sabia que também fazia o tipo de trabalho dos outros dois. Além disso, concorrer com eles seria suicídio pra mim.
    Concluo que você conhece pelo menos dois dos meus livrinhos, o que o faz dono de muitos direitos adquiridos: quem encontra um leitor encontra um tesouro.
    Penhorado,
    O. C.

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