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1 de dezembro de 2020 | 03:05 am

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 4 minutos

O HOMEM À BEIRA DE LAVAR-SE EM PRANTOS

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Era 1997, no Jorro. Acordei cedo, hábito que mantenho em qualquer lugar, e, ao batalhar um cafezinho na pousada ainda meio adormecida, me deparo, diante da tevê da recepção, com um sujeito em profunda tristeza, à beira de lavar-se em prantos. “– João Paulo morreu”, me disse, em consternação tamanha que eu logo inferi ser esse João Paulo morto um membro muito querido de sua família. Era-me difícil ser solidário, pois não fazia a menor ideia de quem fosse o ilustre defunto. Mesmo assim, num esforço tremendo, perguntei, com o ar mais hipocritamente compungido que me foi possível: “– É verdade?” Foi como abrir as comportas de um dique de lágrimas.

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Olhos de avermelhados a “rasos d´água”

Os olhos, que estavam avermelhados, tornaram-se “rasos d´água” (esta expressão subliterária vem a calhar), o pranto saiu em esguichos e borbotões, tão injusta e irreparável era a perda de João Paulo. Logo me culpei.  Nunca ia saber que um irresponsável “É verdade?”, emitido na falta absoluta de algo útil a dizer, tivesse o condão de desencadear tanta emoção num homem adulto, de barba na cara (mal feita, aliás, me permiti observar).  Enquanto o sujeito fungava, eu tinha um olho na tevê, e por ela fiquei sabendo que o defunto fresco (com todo respeito!) era a outra metade da dupla “sertaneja” João Paulo e Daniel, que eu, com essa capa de ignorância com que o bom Deus me protege, jamais ouvira.

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O pranto sem lenço e sem ombro amigo

O homem pareceu recuperar um pouco da compostura perdida, enxugou as lágrimas, soltou um gutural “Deus sabe o que faz” e foi às águas quentes da praça. Eu, enquanto bebericava meu café, pensava em como é patético o ser humano, e pouco antevia das surpresas da vida: João Paulo morrera, o volúvel mercado “breganejo” continuaria firme e ainda faria disparar a carreira de Daniel, o grande beneficiado da tragédia. Pior é que, em meu canto e na minha torturante arrogância, fui testemunha do sofrimento daquele fã, sem conseguir ser solidário o suficiente, quem sabe lhe oferecendo, para que pranteasse mais confortavelmente seu artista querido, meu ombro… O que digo? Não exageremos: um lenço, talvez.

LUGAR-COMUM: O BRILHO ANTES DA TRISTEZA

“Expressão surrada feito colchão de hospedaria”. Num conto de Machado de Assis, localizo este ótimo conceito de lugar-comum, grande inimigo da boa linguagem. É curioso que ele nasce de um lance de criatividade do falante/escrevente, brilha, belo e útil por breves tempos – e, depois, transforma-se num estorvo. O lugar-comum nasce condenado ao efêmero, porém almas mais ingênuas do que bondosas parecem querer eternizá-lo. As rosas também carecem de perenidade: hoje são encantadoras, frescas, sedosas, brilhantes; amanhã, murchas, secas, desbotadas, tristes. E se não digo que as pessoas possuem iguais características…

NA TV, ARRANCA-TOCOS E PERNAS-DE-PAU

… é porque não pretendo aspergir melancolia sobre as gentis leitoras. Não digo, mas penso que talvez não passemos todos, ao fim de tudo, de meros e enfatuados lugares-comuns. Numa tarde de sol e bola, já perdida nos escaninhos da memória, um cronista inventivo disse que aquela intrincada partida de futebol se assemelhava a um jogo de xadrez. Bela imagem para um dérbi lhe pareceu a criação, e assim seria se permanecesse naquela época e por lá fosse sepultada. O mal é que locutores mal informados misturam futebol com xadrez a todo tempo, tendo como pano de fundo alguns encontros de arranca-tocos e pernas-de-pau com que a tevê aberta nos brinda duas vezes por semana.

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Mequinho (quase) escalado no Flamengo

Creio ter sido em 1974, num dérbi Vasco e Flamengo, que um repórter de rádio patrocinou este episódio: “É um jogo de xadrez!”, chutou o amante dos lugares-comuns. “Neste caso, Mequinho deveria ser escalado no Flamengo!”– rebateu de primeira o narrador Jorge Cury, em dia de bom humor (Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, flamengo, era o terceiro melhor enxadrista do mundo, na época). E foi mesmo um jogo difícil: terminou 0 x 0 – o que deu o título de campeão carioca ao time rubro-negro. Restou dizer que dérbi (derby) é coisa tão arcaica quanto “esporte bretão” (dérbi se ouve ainda no Recife, enquanto “esporte bretão” é usado apenas como gracejo).

PAULINHO DA VIOLA DUAS VEZES EM PAUTA

Por e-mail, me chegam duas sugestões: uma leitora pede a história que contei em outro lugar e tempo, envolvendo Paulinho da Viola; um leitor quer saber mais sobre Ousarme Citoaian, origem, significado, se é pseudônimo ou heterônimo, essa brincadeira que eu imaginava esclarecida. Penso que o pedido vale uma entrevista-montagem ou exercício semelhante. Aos que desconhecem esse recurso jornalístico: é quando o repórter formula as perguntas e dá as respostas, baseado no conhecimento que tem do entrevistado. Paulinho da Viola, que já estava em pauta – entrará outra vez, mais tarde.

OS GENIAIS BRANQUELOS DE DAVE BRUBECK

Todo mundo já ouviu Take five, do saxofonista Paul Desmond, que o quarteto de Dave Brubeck imortalizou, a partir de 1959, com um solo de sax alto do próprio autor. Desmond era um músico de sopro que fumava feito uma chaminé. Morreu de câncer do pulmão, é claro, em 1977. Dez anos antes deixara o grupo de Brubeck, mas este continuou a tocar Take five, tendo como destaque o sax de Bobby Militello. Aqui, a apresentação do quarteto no Festival de Jazz de Montreal de 2009 (com uma referência a Desmond, em1981). Brubeck (piano), Militello (sax), Randy Jones (bateria), Michael Moore (baixo) e Matt Brubeck, filho do chefe (violoncelo), roubam a cena. Nada mau para um grupo de branquelos tocando jazz.

(O.C.)

Esta publicação possui 11 comentários
  1. Se o assunto é frase feita, os locutores de rádio são imbatíveis. Tendo que ocupar o espaço, de preencher o silêncio, eles falam a primeira coisa, geralmente uma estultícia, que lhes vem à boca.

    Quem escreve conta com o poder de escrever, reescrever, mandar pra revisão etc., mas quem fala e não tem conteúdo diz a primeira besteira que lhe socorre.

    É só ver a quantidade de candidatos a cargos políticos, oriundos do rádio. Os níveis se equivalem: nossos políticos, nossos locutores.

    Ah, sabem João Henrique, o pusilânime incompetente que desgoverna Salvador? a trajetória dele está sofrendo um intinerário inverso. Soube que ele está fazendo um curso de radialista em uma faculdade da capital baiana.

    Logo, logo, estará com um programa de rádio, falando mal dos governantes, dando uma de vestal, revelando indignação e enganando trouxas com frases feitas.Estamos ferrados!

  2. “Todo mundo já ouviu ‘Take Five’…” Devo confessar: como diria Silvio Caldas naquela – aí sim!!!- inesquecível “MENOS EU”
    letras.mus.br/silvio-caldas/1766758/ O saudoso Pai a adorava e acordava a vizinhança em plena madrugada a plenos pulmões – lembra?
    Quanto às americanas, os meus ouvidos preferem aquele sax rouquinho que não fere os ouvidos e acalenta a alma…De qualquer forma, grata por me recordar a mais acachapante declaração de amor que a MPB já registrou!(Menos Eu, claro!!!)Vou ouví-la trezentas vezes !!!Lembranças…

  3. Não resisti, caro Ousarme, e voltei ao assunto frase feita e não entedimento das coisas por parte de quem emite informações, no caso os papagaios das frases feitas, e o receptor que é formado pelo público ouvinte ou telespectador.

    Entre essas papagaiadas está a ilusão de que vivemos uma democracia. Pra encurtar conversa e reforçar meus argumentos, quero dizer que só me convencerei de que vivemos em uma sociedade democrática no dia em que as pessoas desligarem seus aparelhos de televisão e voltarem-se para os livros.

    No dia em que de fato abolirmos o analfabetismo,incluindo o analfabetismo funcional, e não apenas propagarmos estatísticas, aí, e só aí, estaremos vivendo uma democracia. Só o texto escrito, pensado e replicado por um povo pensante é capaz de formar um país democrático. Abraço, mestre.

  4. Ousarme Citoaian,

    Na verdade o “time out” foi um dos maiores discos do jazz, é tão inovador quanto “kind of blue” do miles. É um disco de 1958 que ainda hoje soa sofisticado, melow e upbeat, um crossover entre west coast e o cool. Uma obra prima que não pode faltar na coleção de um apaixonado por Jazz. Obrigado pelo post.

  5. Parece que os leitores entraram em doce complô esta semanas e resolveram me poupar trabalho. Vamos lá:

    • Ricardo Seixas: – Desconhecia que João Henrique tinha pretensões de adentrar o universo radiofônico – e não digo (porque não acho) que a notícia seja alvissareira.
    Já chega desses apresentadores a dar murros, pauladas e patadas para expressar sua “indignação” com o meio em que vivemos. Em geral são indivíduos reacionários, que pregam a violência contra a violência e volta e meia se metem a disputar votos de eleitores incautos. Famosos, costumam se dar bem na cabala dos votos, mas quebrar a cara na vida pública, para a qual não estão preparados. Penso que João Henrique será o Mário Kertész do futuro, e isso, por certo, em nada nos ajuda.
    Quanto à democracia, está em construção há muito tempo, é uma plantinha tenra há muito tempo. Concordo com você que, por enquanto, chegamos apenas ao estágio do faz de conta. Mas não deixemos morrer a esperança.
    • Leitora (sempre) atenta – Elementar, minha gentil e sempre atenta leitora: chamemos o velho Sherlock Holmes, ou um moderno hacker, desses que escarafuncham máquinas até encontrar o que não era para ser encontrado. Na verdade, eu saí perdendo, pois estou certo de que sua contribuição era doce feito caldo de cana caiana.

    bypsycho – Puxa! Parece que temos (mais) um conhecedor de jazz. Tomara que a lembrança de Kind of Blue faça muita gente correr até a prateleira dos CDs e tentar recuperar o tempo perdido. Miles, Miles, o Divino!

  6. Me faz lembrar “O Pasquim”. A diferença é que Ivan Lessa jogava fora os sacos de cartas que recebia. Na época era papel,somos imigrantes digitais.Eram publicadas as que ele escrevia e respondia rsrs. Com Ousarme é diferente.

    Forte abraço, companheiro

  7. Motivada por tão delicado, atencioso e gentil retorno (eita rasgação de seda da gota serena!!!)vejo-me quase que obrigada a repetir o que desapareceu no oco do mundo internético.
    É que a afirmação “Todo mundo já ouviu Take Five”, lembrou-me uma canção que era das preferidas do meu saudoso Pai e, longe de ser jazz, é uma perola da antiga MPB: “Menos Eu”

    “http://www.youtube.com/watch?v=23A7U5yt8kQ&feature=player_detailpage

    Em tempo: de jazz sei NADA, mas aceito aquele sax rouquinho que consola e amacia a alma! E só!(ou quase…)

  8. Aprecio bastante a obra do sr. Brubeck, especialmente o seu álbum Jazz impressions of Japan (1964), com suas bem encaixadas referências musicais à cultura nipônica, juntando dois temas que eu amo muito: jazz e cultura oriental.
    Porém, e essa é uma opinião pessoal, o Kind of Blue é insuperável. Com suas melodias marcantes, a reunião dos gênios Davis, Evans, Coltrane e os outros componenentes do grupo, resultou na mais linda expressão desse gênero e, possivelmente, da música como um todo. Recentemente fui presenteado com a edição de 50 anos do Kind of Blue, uma verdadeira maravilha para os apreciadores da obra de Miles Davis. O box conta com dois cds, um dvd e uma camisa comemorativa. Indispensável nas prateleiras daqueles que se deleitam com o jazz. Recomendo.
    Só pra encerrar, fico feliz em ver pessoas da região comentando sobre as belezas desse gênero musical tão sofisticado e, paralelamente, intimista, emocional e profundo que é o jazz! É difícil encontrar por perto outros que compartilhem dessa mesma paixão.
    Abraço!

  9. QUE HORROR!!!!! APARECEU TUDO DE UMA VEZ!!!!!SINTO MUITO! SUMIREI POR UNS TEMPOS PARA NÃO ABUSAR DESTE ESPAÇO TÃO SELECIONADO!

    Da Redação: Perdoe-nos, Leitora (sempre) atenta, mas o erro foi do nosso sistema. Não suma, pois, para nós, será sempre motivo de alegria a sua participação.

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