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11 de maio de 2021 | 12:26 am

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

NA REDE, CARREGAM “UM DEFUNTO DE NADA”

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

O tema está em Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto): são encontrados dois homens levando um defunto numa rede, aos gritos de “Ó, irmãos das almas! Irmãos das almas! Não fui eu quem matei não!”. Dos diálogos: “– A quem estais carregando,/ irmãos das almas,/ embrulhado nessa rede?/ dizei que eu saiba. – A um defunto de nada,/ irmão das almas,/ que há muitas horas viaja/ à sua morada. – E sabeis quem era ele,/ irmãos das almas,/ sabeis como ele se chama/ ou se chamava? – Severino Lavrador,/ irmão das almas,/ Severino Lavrador,/ mas já não lavra”. O “já não lavra” pode parecer irônico, mas não é: JCMN não tinha senso de humor.

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A rede traz recordações nem sempre boas

Minha locatária me presenteou com uma rede, bonita em seu colorido, armada e pronta para o uso, me dando uma estranha sensação de volta ao passado. Ou quase. A verdade é que a cidade grande estraga as pessoas, ofende-lhes origens, tradições e sotaques. No meu tempo de criança matuta, a cama era luxo destinado aos ricos, enquanto a rede simbolizava a pobreza, servindo aos vivos e aos mortos. A rede acompanhava o dia a dia das pessoas, também sendo uma espécie de mortalha – pois nela os pobres eram levados à cova – e, acreditem, lá deixado o defunto, ela era trazida de volta. A rede em que se levava o morto ao cemitério era devolvida à utilidade dos 

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Para os pobres, medo de defunto é luxo

vivos, pois a ideia de enterrá-la com o corpo não merecia, sequer, consideração. Uma boa rede não era coisa de se jogar fora, pôr a apodrecer debaixo da terra, pois era um bem valioso para quem quase nada tinha de seu. E digo aos infelizes habitantes da vida burguesa que pobres não têm luxos do tipo medo de defunto, e até ao esquecimento de outros detalhes nos víamos obrigados. Exemplo: não temer deitar-se no espaço em que, muitas vezes, o falecido penara o encerramento do seu tempo na terra e que ali exalara o último suspiro… Olho minha rede e concluo que nenhuma boa recordação da infância ela me traz. Vou agradecer e mandá-la de volta. Vazia, é claro.

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Lei de Murphy vai ao “Aulões do Enem”

Cena 1 – A bela repórter de famosa rede de tevê, com a maior sem-cerimônia, voz caprichada: “Esta calça aqui é toda orgânica. Só para se ter uma ideia, foi feita com algodão, fios de seda e pet. A cor chegou ao jeans por conta de uma mistura feita com ervas…” Cena 2 – Em teste do “Aulões Enem” (Unime/Governo da Bahia), foi assim redigida uma pergunta sobre meio ambiente : “As esponjas são animais de extrema simplicidade estrutural e, por conta disso, podem ser considerados organismos pluricelulares bastante primitivos”. Por conta (em lugar de devido a, por causa etc.) na tevê, já dói; quando vem de uma escola, abona a Lei de Murphy: nada é tão ruim que…

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DE VELHICE, PRECONCEITO E INTOLERÂNCIA

Circula na internet um texto atribuído ao publicitário Lula Vieira, em que ele se diz talvez “velho e ranzinza”, porque se irrita com certas coisas em moda.  A lista dos incômodos é enorme – e eu, por certo “velho e ranzina”, molestado com tanta bobagem, cito algumas. Há quem diga que isto é intolerância e preconceito, e talvez seja. É necessário ser sem preconceitos e encher-se de tolerância para aguentar mulher que anda com aquela garrafinha d´água e bebe um golinho a cada instante. É uma chata. A seguir, outras implicâncias: os naturebas radicais têm conversa incomodativa (falam o tempo todo em “vida saudável” e têm náuseas ao ouvir a palavra “carne”);

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Por que os atletas mordem as medalhas?

todo cara que costuma fazer aspas com os dedinhos quando faz uma ironia é um chato; mexer o gelo do uísque com o dedo é indício robusto de babaquice; gente que fala coisas como “chegar junto”, “fazer a diferença”, “superar limites”, “tudo de bom” e semelhantes, além de usar “gerundismos”, é babaca, com certeza; pegar na mão de desconhecidos durante a missa (Deus se apiede de minha alma!), é pagar mico, dos grandes; no cérebro de pessoas que se despedem dizendo “um beijo no coração”, se aberto, nada de bom será encontrado; por fim, minha contribuição a esta lista de sintomas de mau humor: se algum dia eu matar alguém será um atleta que morde a medalha na tevê. Que diabos os levam a aparecer na tevê mordendo as medalhas?

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PELE MORENA E BOCA PEQUENA: MEU DEUS!

Índia é uma guarânia de fronteira, uma coisa brasilguaia, cuja versão de José Fortuna tomou o Brasil de ponta a ponta, a partir de 1952. Foi lançada aqui pela dupla sertaneja paulista Cascatinha & Inhana (Francisco dos Santos e Ana Eufrosina da Silva) e virou mania: vendeu 300 mil cópias no primeiro ano e andava pelos 3 milhões em meados dos anos noventa. A letra é medonha, espécie de indianismo de mesa de boteco em fim de noite nos anos trinta: cheia de cabelos pelos ombros caídos, lábios de rosa, doce meiguice no olhar, pele morena rimando com boca pequena… um horror! Mas a melodia gruda, tanto assim que foi gravada até pelo insuspeito Dilermando Reis e pela orquestra nem tanto de Waldir Calmon.

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Deserto do Atacama, meio-dia, 38 graus

“No deserto do Atacama, vi uma mulher a cantar. Em pleno sol do meio-dia, termômetros em 38 graus (sensação de 42!), ela parecia ter saído do banho, tal a beleza geral que irradiava, além de um particular e incrível frescor da pele. Entre um trinado e outro, perguntei-lhe quem era. – Meu nome é Gal, disse a bela, piscando um olho – e mais não disse, pois acordei emocionado.” Em algum delírio, imaginei escrever uma coisa assim para falar de Gal Costa. É como a entendo: capaz de cantar a lista telefônica do Uzbequistão, em pleno deserto do Saara, sol a pino, 42 graus, sem desidratar a pele. E desafinar, jamais. Em 1973 ela gravou o LP Índia: na capa, um close de suas vergonhas, sob o biquíni pequenininho, que quase leva os militares a fechar a gravadora. A falsa moral é uma riqueza dos ditadores.

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Combinação de rouxinol e pintassilgo

Eu me chateei com o que achei ser concessão ao mau gosto, mas ela, sensata o bastante para não me dar ouvidos, vendeu horrores do disco e do show de mesmo nome (atenção: Gal repete um erro histórico na letra, mas não vou dizer qual). Ainda considero dispensável aquela gravação, mas o nome dela é Gal, cantando qualquer coisa, em qualquer lugar – e fez de Índia o registro definitivo (regravou-a mais duas vezes). Do show de 1983, temos um trecho dos versos quilométricos, ela cantando com a competência de sempre: na primeira parte, quase nos convence de que é uma cantora normal; na segunda, com arrepiantes agudos, é Gal Costa, a única – com seu som que parece combinar rouxinol, pintassilgo e taça de cristal.

(O.C.)

Esta publicação possui 16 comentários
  1. Rede! Um assunto que me encanta e comove! Tenho três e as uso constantemente; adoro ouvir música e ler em seus “braços”! Contudo é preciso que o livro me domine…ou terminarei dormindo (que horror!). Horror maior é saber que és capaz de DEVOLVER tal presente! Minha nossa!!! Eu também já dei essa preciosidade como se fosse um presente inigualável e, segundo consta, ELA NUNCA foi sequer colocada em NENHUM LUGAR DA CASA…ofensa indescritível e imperdoável!!!
    Não sabia que as redes, último meio de transporte dos nordestinos convictos, eram reutilizáveis. Gostei da informação.Talvez a Saúde Pública não goste, mas como ela vive com os olhos fechados…

    Índia, “flor” do meu Paraguai. Não poderia faltar na casa de quem amava música, e curtia as raízes, antes que fossem detonadas pelos “universitários”…morreu sem conhecer tal disparate. A bênção, Pai!

    Um abraço!

  2. A Leitora Atenta me parece ser mais nordestina que o ilustre escritor que me acorda aos domingos com suas impagaveis e impecaveis cronicas semanais. Como sou do tempo em que a Bahia e Sergipe faziam parte da Regiao Leste, acredito que alguns baianos se consideram nao nordestinos, e as vezes usam o termo nordestino com uma ponta de “racismo” como se fossemos (os nordestinos nao baianos) outra raça diferente dos humanos. Sei que nao se aplica ao senhor Ousarme Citoaian .Caso a locataria, quando de posse da sua rede rejeitada como presente, queria que “o melhor lugar para se deitar” tenha bom uso, me canditado a receber preciosa oferenda.
    Quanto a Gal Costa, concordo com todas afirmaçoes aqui feitas. Mais ainda digo: Inesquecivel show e maravilhoso momento em que Gal, durante a apresentacao de India, executa uma dança que embalou meus sonhos de jovem apreciador da MPB.

  3. Concordo plenamente com tudo que foi escrito por você. De tudo isto o que mais incomoda é ver pessoas com nível superior que acham altamente intelctuais,usando este gerundismo desinfreado, depois ainda saem cantando o Hino Nacional Brasileiro si autoproclamando nacionalista fervorosos mas acatam e usam sem nem questionar tudo que é vindo de outros idiomas, simplesmente por que acham que é bonito mas que para o nosso belo português brasiliero ou simplesmente IDIOMA BRASILEIRO não faz o mínimo sentido.
    Pobres imbécis de merda…

  4. o ato de morder a medalha vem do antigo costume de reconhecer o metal precioso pela sua diferença de textura desde a época de Alexandre o Grande, e para reconhecer o ouro e diferencia-lo usava-se os dentes, e ao receber uma medalha de ouro demonstra-se o interesse em mostrar através do ato de morder que realmente é ouro….

    entendeu. qualquer outra duvida estarei à disposição.

  5. ” O caudaloso Pilcomayo, que nasce na cadeia Real dos Andes, distrito de Potosi, com 1.200 quilômetros de curso, desde o planalto boliviano e corre pelo Chaco até lançar-se no rio Paraguai… o aproveitamento daquele curso d’água e seus desníveis pelos milhares de retirantes da Bolívia, resultou também na invasão Guarani do Paraguai”
    (Moacyr Soares Pereira
    Índios Tupi-Guarani na Pré-História)
    Não seria então, a nossa Índia Guarani?

  6. Sobre os atletas e suas fotos mordendo as medalhas, devem estar é simbolizando a pureza do ouro,reafirmando a medalha de ouro que ganharam. Isso se explica com o fato de um dos testes que se fazia para saber se é ouro de verdade ou cristal de pirita (o ouro de tolo) é justamente morder! O ouro ao ser mordido fica com a marca dos dentes, pois sua dureza é baixa, já a pirita possui dureza maior e não pode ser marcada quando mordida.

  7. Ocorro-me agora que essa capa do disco de Gal é de um simbolismo muito grande. Já que o povo brasileiro, especialmente os artistas, pensadores, intelectuais em geral, não podiam expor seus pensamentos, pelo menos a genitália podíamos mostrar.

    Mais tarde o grupo Secos e Molhados criou outra capa super emblemática, cabeça dos seus membros em uma bandeja, como que a dizer, entregues por uma Salomé, aqui estamos nós!

    Eu, retorpectivamente, mostro meus orgãos genitais para os milicos que governavam o país na época: aqui pra vocês, ó, canalhas!

  8. “O leitor não lê o autor, lê a si mesmo, no texto do autor”. A frase de Proust é ótima para quando a gente não se faz entender: põe-se a culpa no leitor, e ponto final. Não gosto desta fórmula fácil. Se ruídos há na comunicação, a responsabilidade deve ser do emissor, não do receptor. Criou-se uma “celeuma” em torno da rede que ganhei e que falei em mandar de volta: não tomem meu pobre texto ao pé da letra, não o levem muito a sério (já pedi isto antes) e não pensem que sou deseducado a ponto de devolver um presente. Fui mal: a intenção era mostrar a triste lembrança da rede como mortalha provisória, daí a referência a mandá-la de retorno, “vazia, é claro”. Sobre a saúde pública “implicar” com a reutilização da rede seria um requinte de política sanitária inimaginável na terrinha onde nasci, há (muito) mais de meio século. Um exemplo meio escatológico: lá não se ia à privada: ia-se “lá fora”…

    É a velha questão cultural: determinadas peças que para a burguesia são só elementos de decoração, para os pobres são meio de vida. Citei, dia desses, o berimbau: turistas o compram e penduram na parede da sala, como enfeite; os negros pobres da Bahia o fabricam e vendem para comprar o feijão de cada dia. Semelhante à rede. Então, não me acusem de desrespeito ou preconceito com ela: na minha terra, rede não é motivo de curiosidade, mas meio para o descanso dos vivos e de transporte até a morada dos mortos, por falta de dinheiro para comprar caixão. Era o que eu queria dizer, e não disse claramente.

    Nasci no coração do NE, num dos vértices do Polígono das Secas. Digo isto como informação, não necessariamente com orgulho, saudade ou descrença. Se fugi da seca, feito ave de arribação, segui a destino secular da minha gente; se perdi o sotaque, não perdi o jeito “intelectual”, absorvido dos cegos da feira de Flores, às margens do rio Pageú, e dos livretos de literatura popular. Antes de ser aprovado na Carta de ABC eu já recitava (e recito até hoje), aprendida com os violeiros, a abertura de O pavão misterioso (que é dos anos vinte!): “Eu vou contar a história/ De um pavão misterioso/ Que levantou voo na Grécia/ Com um rapaz corajoso/ Raptando uma condessa/ Filha de um conde orgulhoso”. Mas creio que, mesmo sem renunciar às origens, a busca do homem é pelo universal, “el cielo como bandera” – e creio ser oportuno lembrar que se “o poeta é um fingidor”, o prosador também é…
    Sobre as medalhas, outra vez errei: a pergunta sobre as razões do tresloucado gesto de mordê-las em público era apenas retórica… Mas enriqueci-me com tantas explicações. Uma delas, deveras extraordinária, é que os caras mordem para provar que elas são, realmente, de ouro. Demais, não? Sem alardes e sem trombetas, o leitor R. Antonio aportou uma informação de especialista, um certo David Wallechinsky, presidente da Sociedade Internacional de Historiadores Olímpicos: a mordeção seria para satisfazer a “fome” dos fotógrafos. Isto quer dizer que, incentivada pela mídia, essa babaquice de presente tão irritante está com o futuro garantido, ai meu Deus!
    Sobre o erro de Gal Costa, a Leitora (sempre) atenta deu a pista ao mencionar a “flor do meu Paraguai”. É que Gal e outros artistas cantam “dentro do meu coração, todo o meu Paraguai”, o que, convenhamos, é expressão destituída de lógica. A propósito, tal qual nice, imagino que essa “flor do meu Paraguai”, se teve modelo real, seria do povo guarani. De Ricardo Seixas, uma sacada superinteressante sobre o simbolismo de certas capas de discos, incluindo esta com as partes subalternas de Gal. E faço meu o seu gesto retrospectivamente indignado (mesmo com o risco de sermos chamados de revanchistas): aqui pra eles, ó!!!

    Quero agradecer a todos, incluindo os não citados (mas lidos e comentados) majestade, eleitorapimentado, Paraibano, Advir Ad Reis, michel catai, Camila, Helio, Questionador e BOY (postos na ordem que se apresentaram e respeitada a grafia que utilizaram).
    Até a próxima.

  9. Concordo plenamente!Acho de um mau gosto terrível andar com garrafas d’água. Nossa…Chega a irritar! Tomam tanta água, sem nem saber o porque,de uma coisa tenho certeza:(De cede é que não é).Até parece que essa atitude contribuirá, ou irá influenciar em alguma coisa a saúde.Bravo!Amei seus comentários, vamos ver se agora se tocam!!!

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