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15 de julho de 2020 | 12:06 am

WE LOVE BRAZIL

Tempo de leitura: 3 minutos

Karoline Vital | karolinevital@gmail.com

 

É bonito e importante valorizar a cultura brasileira. Mas precisamos de revanchismo para isso?

 

O café da manhã dos filmes norte-americanos me deixava intrigada. Qual seria o gosto da panqueca? Redonda, fofinha, dourada, coberta com xarope de bordo… Parecia deliciosa! Há cerca de um ano, tentei reproduzir a receita em casa. O resultado? Um disco disforme, murcho, borrachudo, queimado e coberto com um enjoativo xarope de milho.

Segui a receita tim-tim por tim-tim novamente e consegui algo menos ruim. O gosto lembrava muito o crepe francês. Pedi ajuda ao oráculo do Google e descobri que a coincidência de sabores não era por acaso. A diferença entre os pratos é que a panqueca norte-americana é mais alta, com cerca de meio centímetro. Um dos meus grandes símbolos do american way of life tinha sotaque francês!

A partir deste intercâmbio culinário, embarquei na viagem sobre o que poderíamos chamar de cultura pura, verdadeira, genuína? Afinal, cultura é tudo o que é produzido pelos seres humanos. E, como gente é um bicho inquieto, em permanente aprendizado, seus saberes e fazeres nunca estão totalmente prontos, vivem em constante transformação cultural.

No meu primeiro semestre do curso de comunicação, em 2000, vi uma entrevista do filósofo francês Michel Serres no programa Roda Viva. Uma de suas falas grudou em minha mente: “Culto é quem vai buscar outra cultura”. A afirmativa me ajuda a avançar mais um pouco em minha associação de ideias e tentar entender uma das últimas campanhas das redes sociais: “Halloween, não! 31 de outubro é dia do saci!! Deixe de pagar pau pra gingo! Valorize a cultura brasileira!”.

Uma das imagens em que esta frase está escrita mostra um saci de cara ossuda, expressão agressiva e que em nada lembra o negrinho traquina das histórias. Sinceramente, o saci da imagem lembra mais um usuário de crack do que a lenda do folclore brasileiro. Mesmo assim, despertou o espírito nacionalista em mais de 40 mil pessoas, que compartilharam a foto em seus perfis.

O dia do saci foi criado em 2003, na tentativa de abafar a festa celta, difundida em nosso território a partir da expansão dos cursos de inglês. É bonito e importante valorizar a cultura brasileira. Mas precisamos de revanchismo para isso? Será que compartilhando uma imagem estamos dando importância à nossa cultura? E o que é realmente nossa cultura? Soa até romântico tentar encontrar um símbolo puramente nacional em uma nação construída pela mistura de povos, tão rica e diversificada.

A minha viagem de questionamentos não para por aí. Dessas mais de 40 mil pessoas, quantas priorizam a cultura nacional? Vamos citar uma das festas mais estrangeiras da nossa cultura: o Natal. Quantos o celebram sem pinheiros com neve artificial e pães recheados com frutas cristalizadas? Seria radicalismo.

Assessorando o Teatro Popular de Ilhéus, percebi entre meus próximos a abundância de discursos ufanistas contrastando com atitudes que priorizam o estrangeirismo. Inúmeros espetáculos de alta qualidade já deixaram de ser apresentados por falta de público. Atores a postos, maquiados, cenário, luz, tudo pronto e nenhum ou poucos gatos pingados na plateia. Quem sai perdendo com isso? Certamente é quem fica em casa e trocaria tapas por um ingresso de uma peça com artistas globais ou musicais importados da Broadway. Pois, como é cantado no refrão de uma das canções de Lendas da Lagoa Encantada, da ilheense Cia. Boi da Cara Preta: A cultura popular desenvolve ser humano!

Karoline Vital é comunicóloga.

Esta publicação possui 6 comentários
  1. O esquerdismo quer mandar em tudo.
    Repudio as cacas das duas culturas, mas cada um faça o que quiser, assista o que quiser… se pudessem, eles fariam lavagem cerebral nas pessoas, como fez Stalin, Fidel, Lênin, Mao… etc.
    Esquerdista repudia os EUA, mas adora Internet, Windows (embora afirme que não), Facebook, Google, Intel, Twitter e muitas outras coisas dos “ianques”.
    Que falta de assunto dessa gente!

  2. E completando…
    A nossa genuína cultura é marcada pela malandragem, corrupção, lei de gérson e e tantas outras mazelas…
    Em São Paulo, um corrupto como Maluf está cantando de gala com um certo molusco, festejando vitória e sua participação em um governo, na prefeitura da qual desviou recursos aos montes.
    O povo vota em corrupto, sabe o motivo? A cultura da malandragem do saci ensina que isto é virtude. Fora Monteiro Lobato.

  3. Excelente texto! Parabéns Karoline!
    Aos desinformados…. o texto trata da diversidade cultual, por favor… deixem seu partidarismo políticos de lado e sejam mais políticos e inteligentes.

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