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11 de agosto de 2020 | 10:35 pm

A REDESCOBERTA DE INTELECTUAIS NEGROS

Tempo de leitura: 2 minutos

Eduardo Estevam

 

Enquanto Nabuco preconizava mudanças dentro da ordem, dentro do espaço jurídico e político formal, Luiz Gama, apresentava uma postura mais radical.

 

Vários intelectuais desenvolveram um projeto político para o Brasil no século XIX, em meio às lutas e disputas políticas pela afirmação e estabilização do Estado-nação, cada um alinhando suas práticas sociais as suas concepções políticas e ideológicas. Dois intelectuais entrecruzaram-se em virtude do processo abolicionista. São eles: Joaquim Nabuco (1849-1910) e Luiz Gama (1830-1882).

O primeiro, branco, pernambucano, filho de uma família letrada e escravocrata, historiador, jurista, fez carreira política nacional (deputado) e internacional (diplomata), abolicionista, republicano e defensor de um projeto de Brasil democrático. O segundo, negro, baiano, filho de escrava e escravizado até os 17 anos, advogado, jornalista, editor (fundou em 1864 o primeiro jornal caricaturado, o Diabo Coxo), poeta, orador, abolicionista, republicano e defensor de um projeto de Brasil democrático e pluriétnico.

Nabuco desenvolveu um pensamento crítico com bastante rigor político sobre o problema da escravidão. Conjecturava uma sociedade democrática republicana que “integrasse” o negro ao universo da diversidade existente, ou seja, no mundo dos brancos. Seu projeto de modernização do sistema político e social consistia numa integração étnica hierarquizada e subalterna, onde os valores da cultura branca estariam a preponderar. Nabuco, teorizou a escravidão, jamais sobre o sujeito negro.

A escravidão foi seu objeto de análise e a base para construção de todo o seu edifício teórico-crítico. Em sua campanha abolicionista, discursou veementemente sobre os malefícios e os problemas (vícios) morais e sociais oriundos da escravidão, mas sem jamais ter discursado para negros ou diante de um público negro. Para Nabuco, arregimentar negros e insulfra-los diretamente para uma campanha anti-escravidão era perigoso, pois poderia provocar uma haitinização, ou seja, uma revolução negra.

Luiz Gama desenvolveu seu pensamento por meio da poesia satírica, textos jornalísticos e discursos político (oratória). A produção cultural de Gama situa-se num espaço construído pela diáspora e na contracultura da modernidade. Gama pretendia afirmar a contribuição africana no Brasil, justamente no momento da consolidação da identidade da nação brasileira. Sua posição era de que existia uma africanidade dentro do modelo de brasilidade construído socialmente.

Enquanto Nabuco preconizava mudanças dentro da ordem, dentro do espaço jurídico e político formal, Luiz Gama, apresentava uma postura mais radical: “o escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”. O projeto de Gama para o Brasil era a construção de uma nação heterogênea em que os grupos étnicos estivessem numa condição relacional e sem privilégios.

A historiografia notabilizou e cristalizou Joaquim Nabuco, canonizando-o e ao mesmo tempo silenciando e subalternizando a produção social de Luiz Gama. Com a emergência dos estudos culturais com foco numa história vista de baixo, nas margens da cultura ou nas histórias diaspóricas jamais documentadas, redimensiona-se o lugar social da produção de Luiz Gama, consequentemente desestabiliza-se os vultos da intelectualidade brasileira.

Eduardo Estevam faz Pós-Graduação (doutorado) em História Social pela PUC-SP.

Artigo publicado originalmente no blog Tempo Presente

Esta publicação possui 13 comentários
  1. Eduardo,

    Que alegria ler o seu texto tão bem escrito! Que alegria saber que você está fazendo doutorado! Você, assim como muitos outros, é a prova de que o estudante de escola pública não precisa de favores; ele precisa, sim, é de uma boa escola; ele precisa, sim, é de estímulo para crescer; ele precisa, sim, é de uma família que o apoie; precisa sentir-se capaz e estimulado a vencer as dificuldades que se lhe apresentem.
    Você sempre soube que o seu sucesso dependia única e exclusivamente do seu esforço – e isso vale para qualquer um, estudante de escola pública ou privada, negro ou branco, rico ou pobre. Você, sim, deve ser apontado como exemplo para os nossos jovens, e não aqueles que consideram sucesso a riqueza fácil conquistada à custa da dor e do sofrimento de muitos.
    Você é o brasileiro que me orgulha e que me faz perceber que a luta valeu a pena! Bjo.

  2. Amigo Eduardo Estevam;

    Parabéns pelo excelente texto;( Redescoberta de Intelectuais Negros).

    Abraços em; Dona Olga,Chico,Paulo,Luciana e Luciano.

    Abraços José Roque Santos
    Guarujá-SP
    E-mail:peritoambiental@yahoo.com.br

  3. parabéns Eduardo pelo texto cientifico,lembro da nossa luta pela inclusão dos negros nos cursos,de medicina e direito,e engenharia da UESC,já que fomos da comissão que aprovou cotas nessa academia,eu não sei se destruiremos descriminação racial com a intelectualidade,quebraremos algumas arrestas,pois, vivemos em um sociedade racista.

  4. Texto de tácita semente racialista… que tende,a interpretar o Brasil como um país duas raças, apenas: Brancos (opressores) e Negros (oprimidos, potenciamente revolucionários)
    Brancos e mestiços pobres brasileiros, de todas as cores, estão ausentes desse texto. Isso pode parecer mero recorte, mas não é. As identidades raciais não são inocentes…

  5. Ao colega Eduardo parabenizo pelo dialogo de análise e a dicotomia apresentada entre os discursos de Gama e Nabuco. Nabuco como bem conhecemos cantado em verso e prosa como defensor da causa abolicionista pela historiografia oficial.Enquanto Gama esquecido, mas com uma intervenção decisiva para as mudanças historicamente alcançadas.Muito importante essa releitura da História do Brasil.

    Quero aproveitar o ensejo para convocar a uma reflexão às pessoas que só valorizam a questão econômica na formação e ai supervalorizam os estudantes que são aprovados nas áreas as quais não preciso aqui citar pois estão divulgados no marketing que os cursos colocam nas mídias. Parece que não existe a questão realização pessoal quanto relegam a area de Ciências humanas e os aprovados na mesma. É claro que todos precisam ser valorizados pelo lado econômico também.

    Não é justo que aceitemos que o médico seja tratado como doutor com uma graduação, então os pacientes acham justo que ele chegue atrasado na hora que quer, pois isso é “normal”. Enquanto que o professor mesmo quando responsável lhe seja imputado todo o peso do mundo, pelo fato de não ter optado por uma profissão “economicamente viável.”
    É preciso que se diga ao aluno da escola pública ou particular que ele também poderá ser doutor na área de Humanas,como o professor Eduardo.

  6. Caro amigo Eduardo, fico feliz pelo seu desempenho acadêmico, pela professora jamais saída de nossos corações Guadalupe comentando sobre seu texto, e não fique tétrico diante de comentários imbuídos de massa podre encefálica na cabeça quiçá no coração, todos conhecem de alguns comentários que nada para este rapaz é satisfatório, até a imagem dele própria deve-lhe causar insatisfação.

  7. Num debate sadio, o argumento é o que deve ser combatido, contraposto. É o que se espera de um espírito democrático. Refutar argumento, com tergiversações sobre uma suposta estética física e espiritual interlocutor, seria rísivel, se não fosse trágico. Elevemos o espírito. Não sejamos totalitários ou escapistas.

  8. Parabéns pela divulgação do artigo que além de tão bem escrito, nos traz o conheciento aprofundado sobre os grandes vultos da história do Brasil. Joaquim Nabuco eu já conhecia, agora vou buscar por Luiz Gama. Continuem nessa linha, pois a publicação de temas tão instigantes, lhe trarão outros públicos, que a partir de agora será o meu caso.

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