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11 de maio de 2021 | 01:21 am

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

“A BAHIA GANHOU ATÉ DE JESUS CRISTO”

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1Escola BahianaAntigamente nossa língua abrigava certas formas de grafia com “h” medial que hoje parecem esquisitas. Escrevia-se, “em bom português”, Christo, pharmácia, Nitheroy, athético, e por aí vai. Em Itabuna, era muito conhecido um senhor chamado Anfilófio Rebouças, vejam só. Se Anfilófio já é nome que causa estranheza, imaginem que a grafia, de que o dono certamente se orgulhava, era… Amphilophio! Em 1942, houve uma das tantas reformas a que submetem a língua portuguesa e o “h interno” caiu. Manteve-se uma exceção – Bahia, que virou piada para os despeitados: diziam que a Bahia ganhara até de Jesus Cristo: o filho de Deus perdeu o “h”; a Bahia, não.

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Em defesa do formato “original”

Em 2012 contam-se 70 anos desde aquela reforma ortográfica, mas ela nunca foi assimilada por alguns setores deste Estado, que perpetuaram o uso do “h” em palavras da família Bahia: bahiano (baiano) e derivados. É claro que tal uso é inteiramente indevido, nada havendo que o justifique. A regra possui somente uma exceção: Bahia. O abuso é visto em geral com o nome de entidades: Federação Bahiana disso & daquilo, e Escola Bahiana de Medicina etc. Os defensores desse formato esdrúxulo vão argumentar que esta era a grafia “original”, mas não importa: o verbete bahiano não existe em língua portuguesa (note-se este termo estranhíssimo:  corinthians).

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(ENTRE PARÊNTESES)

3MaiasAgora é oficial: “por enquanto”, o planeta não vai cerrar as portas. O astrônomo do Vaticano, que, suponho, tem informações privilegiadas, assegurou que as profecias marcando data para o fim dos tempos “são, obviamente, falsas”. Elegante, o homem recusou-se a uma paródia bíblica esnobando os Maias (“Perdoai-os, eles não sabem o que dizem”), que teriam marcado como último de nossas vidas o dia 21. Portanto, gentil leitora e nervoso leitor, acalmai-vos: é preparar o peru (ops!) e os presentes, que Papai Noel ainda vai encontrar o Brasil no lugar de sempre e com a gente ouvindo Simone (o que me faz pensar se não seria melhor se os Maias estivessem certos).

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DE MARCELO REZENDE SOBRE SAMUEL WAINER

5PosteHá uns 300 anos, trabalhei na Última Hora, de Samuel Wainer. Grande jornalista (revelaria no livro Minha razão de viver alguns “malfeitos” como empresário), montou um império, enriqueceu, viveu bem, até que veio o golpe de 64. Perseguido, exilou-se em Paris, voltou ao Brasil, teve o patrimônio dilapidado pela ditadura. Morreu pobre, em São Paulo, assalariado do grupo Folhas. Reza o folclore que Wainer gostava de “testar” seus repórteres, como forma desafiá-los, incentivá-los, motivá-los para que atingissem nível de excelência. De Marcelo Rezende (então repórter da Globo) ouvi a história do poste, que talvez interesse à gentil leitora, candidata a jornalista.

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História do poste que virou personagem

Certa vez, SW chamou à sua sala um foca promissor. “ – Dizem que o senhor é bom… O senhor é capaz de fazer uma matéria sobre um poste? – provocou, ao tempo em que pegava o boquiaberto jovem pelo braço e apontava, da janela: “ – Faça uma reportagem sobre aquele poste ali. Para amanhã”. O rapaz descobriu tudo sobre o bendito poste: quando e como chegou ao local, que peso e tamanho tinha, quanto custou, falou com os operários da Light (conta o bom Marcelo Rezende que até os cachorros que faziam xixi no poste foram fotografados). Dia seguinte, a matéria estava sobre a mesa do chefe. Que a aplaudiu, mas não publicou, por falta de gancho (a história não guardou o nome do repórter). A propósito, o exigente leitor saberia o que é gancho, no jargão das redações?).

NINA SIMONE: O TALENTO E A GROSSERIA

Eunice Waymon era precoce. Começou a estudar piano aos três anos e aos quatro já tocava feito gente grande. Queria ser pianista clássica, mas terminou na parada pop. Antes dos 20 anos, quando adotou o nome artístico de Nina Simone (em homenagem à atriz francesa Simone Signoret), já era profissional, apresentando-se no lendário Carnegie Hall e no Newport Jazz Festival. Geniosa, genial e belicosa, certa vez teria atacado um fã com uma garrafa. Zuza Homem de Melo, um especialista em jazz, disse que teve “o desprazer de trabalhar com Nina Simone”, pois a talentosa artista “cometia as maiores grosserias com os músicos e todos ao seu redor”.
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7Juca ChavesA militante negra engajada e perseguida

Cantora preferida de Juca Chaves, ela é a mais engagée das divas negras do jazz (certa vez, disse, bem ao seu estilo rápido e rasteiro, que era “a única diva do jazz”): cantou no enterro de Martin Luther King, e fez várias canções sobre os direitos civis – uma delas, Mississippi Goddamn, tornou-se hino da causa negra. Tida como pianista, cantora e compositora das mais dotadas da história, abraçou vários estilos como gospel, soul, blues, folk e jazz, é evidente. Muito perseguida nos EUA, Nina Simone abandonou o país e passou a morar na Europa, onde morreu em 2003. As cinzas, a seu pedido, foram espalhadas por diferentes países africanos.

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Versos dirigidos à mulher sem coração

Sobre Ne me quitte pas já se disse tudo (não de tudo, pelo amor de Deus!). É um soberbo canto de amor (uma cantada?) que Jacques Brel dirige a Suzanne Gabrielle, no momento da separação do casal. Ao contrário dos ianques, os franceses são bons letristas.  A mim me encantam os versos “Eu te darei pérolas de chuva/ Vindas de países onde nunca chove” (Moi je t’offrirai des perles de pluie/ Venues de pays où il ne pleut pas) – mas essa Suzanne tinha uma pedra de gelo sob o seio esquerdo…  É mais uma canção que todo mundo conhece, e da qual vale repetir uma curiosidade: o registro mais divulgado é o de Maysa (do filme A lei do desejo, de Almodóvar). Nina Simone… Ne me quitte pas.

(O.C.)

Esta publicação possui 3 comentários
  1. “Antes um asno que me carregue do que um cavalo que me derrube”.
    Aceito “a nivel de…”, “enquanto professora” (ops) “faço de
    um tudo..”, etc., mas abomino o “americanalhismo de “buling”, “free”, “sale”, “rent” e outras idiotices.
    Ah! o “mimi” foi genial (“…a mim me encantam os versos…)!

  2. Eu sempre desconfiei desse tal “espírito natalino”. Sempre achei esse sujeito falso.

    Todas as vezes que eu ouço falar em uma reunião familiar em que seus membros se confranerizam sob os olhares complacentes do tal espírito natalino fico com uma pulga atrás da orelha.

    Primeiro, porque quando eu vejo uma família reunida, penso logo na reunião de ex-presidiários lembrando o tempo em que passaram encarcerados.

    E aí então vejo o espírito natalino, de lado, olhando de soslaio para todos os familiares.

    Quando as bebidas começam a serem servidas, ele, o tal espírito, começa a ralar os cascos no chão, pronto pra partir.

    Quando os ânimos acirram-se, ele cai fora e deixa a lavagem de roupa suja para que os chefes das famílias administrem as mágoas e ressentimentos que surgem na barrela.

    Confraternização de natal? tou fora. Especialmente se a trilha sonora for Simone cantando “Então é Natal…

  3. Embora provérbios (ou ditos, anexins, sentenças, aforismos, adágios, apotegmas, máximas etc.) tenham pouco sentido lógico, alguns são indiscutivelmente saborosos, como o citado. Outro de que gosto muito é “Praga de urubu magro não pega em cavalo gordo”. E mais um, ainda no ramo dos quadrúpedes: “Em jumento carregado de açúcar até o rabo é doce”. Creio que à lista de “americanalhismos” não pode faltar “delivery”. Quanto a “a mim me encantam…” acho uma deliciosa redundância, mais ao gosto lusitano do que ao nosso, irmã gêmea da que existe naquele verso que Amália Rodrigues cantou nesta coluna: “… e deu-me esta voz a mim” (“Foi Deus”, fado que Alberto Janes fez para Amália).
    Também não sou muito chegado a confraternizações de Natal, ou reuniões de qualquer espécie. Para mim, quase sempre, encontro de mais de três é comício. Mas, em nome da convivência, tento e, às vezes, me dou bem. E creio que isto acontece quando existe a rara combinação de alguns fatores: os chatos não foram convidados; ninguém fala me segurando, como se eu pretendesse fugir (será que advinham?); a música não é alta, apenas audível; quebraram, previamente, os CDs de música baiana, seja lá o que isto queira dizer, jubt9o com “aquele” de Simone. Poderíamos também falar da qualidade do uísque (ao menos às primeiras doses) e das comidinhas – a propósito, quem não bebe ou está de “dieta” melhor faria se ficasse em casa em dia festa. Assim, será lamentado como ausente, não detestado como chato.
    No mais, é tempo de lembrar Assis Valente: “Papai Noel,/ vê se você tem/ a felicidade…” – Boas festas!

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