skip to Main Content
12 de julho de 2020 | 12:27 pm

O DESTINO DE TODOS NÓS…

Tempo de leitura: 3 minutos

aldineto mirandaAldineto Miranda | erosaldi@hotmail.com

Fiquei olhando para a minha querida aluna, parecia dormindo num sono profundo e mais do que nunca pensei no sentido da vida, na brevidade da existência, e em tudo que não tem valor e que damos tanto crédito.

A morte andou me mostrando suas faces esta semana, e de alguma forma rondando próximo à minha vida. Uma vizinha da minha noiva, muito querida por todos, gente boníssima, faleceu. Era uma senhora distinta que vendia salgados deliciosos, lembrei-me da palavra saber, do latim sapere, que significa sabor. O sabor delicioso dos salgados de D. Dora não estava simplesmente no gosto dos alimentos, mas no amor, dedicação que empreendia na confecção destes e na generosidade e felicidade com que trabalhava com ardor e delicadeza. Ela sabia que esses eram ingredientes fundamentais, daí ela imprimia o saber/sabor na feitura dos deliciosos alimentos. Deixará saudade. Quando estava indo para o enterro da querida D. Dora, eis que encontro alguns ex alunos da Uesc, do programa PARFOR, me gritam, ao me ver passando, estavam numa lanchonete próxima ao cemitério, e me informam, desconsolados, que sua colega tinha falecido, uma ex-aluna, que tinha em torno de trinta e seis, trinta e sete anos. Um colega no enterro comentou comigo: “como diria Renato Russo, os bons morrem jovens.”
Fui ao velório e fiquei realmente triste e pensativo, lembrei-me de todas as teorias sobre a morte que a filosofia me concedeu, e cheguei à conclusão de que teorizar é diferente de vivenciar a morte. O corpo antes animado, sedento de saber, de repente imóvel, inerte. Fiquei olhando para a minha querida aluna, parecia dormindo num sono profundo e mais do que nunca pensei no sentido da vida, na brevidade da existência, e em tudo que não tem valor e que damos tanto crédito. Pensei nas pessoas que na vida querem ou quiseram me prejudicar e tive pena delas, pensei em mim e em meus problemas, e percebi que são tão minúsculos… Vi a dor nos olhos dos familiares e me senti solidarizado, e indignado, no momento, com as tramas do destino. Mas, parando pra pensar, compreendi um pouco mais as palavras de Heidegger, filósofo alemão, ao afirmar que o ser humano é “um ser para a morte” e viver autenticamente é não fugir dessa condição.
Lutamos, casamos, construímos coisas, por vezes não perdoamos os erros, somos duros conosco e com os outros, egoístas, mesquinhos, e para que? Carpe diem! Aproveite o dia! Essa é uma sábia frase, pois o dia é só o que temos. Sejamos melhores e intensos em cada dia, pois só temos este momento agora! Sejamos bons agora, amáveis hoje. Não inconsequentes,pois a inconseqüência machuca os outros. E a morte nos joga na cara nossa condição, não temos o direito de nos achar diferentes do outro. Temos um destino comum! Pensei nisso tudo, e no meio do pensamento veio a tristeza, uma tristeza que não posso exprimir porque palavras e teorias não explicam os sentimentos mais recônditos do ser humano.
Mas, no sábado fui a um aniversário em Ilhéus, crianças pulando, a vida transbordando no sorriso de cada menino e menina, esqueci por momentos dos fatos funestos ocorridos na semana, voltando de carro com minha família, a estrada, em um determinado trajeto, estava com os veículos parados, sinalizando um acidente ocorrido. Pergunto o que ocorreu a um homem, ele diz: “acidente entre um carro e uma moto, o casal que estava na moto faleceu”.
Passou a cena na minha cabeça, imaginei todo o ocorrido. Pensei na fragilidade humana, e qual significado daquilo tudo ter ocorrido numa só semana. Talvez não haja significado, seja puramente o absurdo da existência. Talvez, como salienta Albert Camus, sejamos como no mito de Sísifo, homens condenados a levar uma pedra acima da uma montanha, e quando lá chegarmos com ela, fatalmente ela rolará pra baixo de novo, e mais uma vez levaremos a pedra incessantemente, sem refletir sobre a inutilidade e o absurdo de tanta correria para colocarmos a pedra lá em cima. Estamos agindo, e nem sempre refletindo. Viemos a ser um dia, mas um dia também deixaremos de ser. Já pensaram sobre o que vale ou não a pena na vida? Acredito que valeu para D. Dora, e valeu para minha querida aluna. Foram pessoas que viveram com saber/sabor, e dedico este despretensioso texto a elas.
O homem vale por suas ações nessa existência. Tudo o mais, como afirma o belo texto de Eclesiastes, parece-me que é “fugaz e correr atrás do vento (…)”. Carpe Diem! Vivamos com mais saber/sabor.
Aldineto Miranda é graduado e especialista em Filosofia, mestrando em Linguagens e Representações e professor do Instituto Federal da Bahia (Ifba).

Esta publicação possui 0 comentários
  1. Gostei da sua crônica, professor. Escreva sempre! Compreendo que é difícil melhorar o semelhante, más um comentário tão simples e tão profundo,como esse seu, ajuda muito. Pensar, é como se alimentar, amar, sorri e ser feliz… A vida agradece. E daí vamos levando a vida ou visse versa.

  2. Sábias palavras num texto que merece muita reflexão, principalmente para aqueles materialistas, orgulhosos prepotentes, gananciosos, arrogantes e etc… E os que se esquecem que DEUS existe, e que a vida pertence a ELE. Viemos do pó e ao pó voltaremos, como está escrito no livro santo, as Sagradas Escrituras. Enfim, a vida é muito bela para quem sabe viver. Aldineto Miranda, parabéns pelo texto, e pelas belas palavras ali contidas, as quais com certeza servirão para muitos leitores sensíveis refletirem.

  3. A nossa origem é espiritual, mas mergulhados temporariamente no corpo carnal para vivenciarmos as provas que nos impulsionam ao crescimento espiritual, nos deixamos envolver pelas seduções da matéria, daí a nossa dificuldade em explicarmos as tragédias e os sofrimentos que na realidade podem ser definidas pela explicação do Espírito Luis Sergio: “A dor e as lágrimas são lixas necessárias a luminosidade do Espírito”. (José Carlos Peixoto/Jornalista e apresentador do Programa “Sementes de Luz” – Rádio Nacional- aos sábados das 10 as 12 horas)

  4. Parabéns meu inesquecível amigo-irmão Aldineto !!!
    Quem diria, após 12 anos que fizemos Magistério no IMEAM de Itabuna,você iria ser Professor, e eu iria ser Construtor em São Paulo.
    Abraços na Sra. Maria Lúcia, Sr. Aldineto e família;
    ATT: José Roque
    Guarujá-SP

  5. Partilhamos dessa reflexão, Neto. A morte de Elisana, nossa aluna, além de provocar muita tristeza, nos faz refletir sobre os verdadeiros valores da vida que é breve, passageira e por isso, não podemos esquecer que todos nós teremos um encontro com Deus, a quem prestaremos contas dos nossos atos. Elisana , teve uma curta passagem, mas deixou marcar profundas em todos quantos a conheceram

Deixe seu comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back To Top