skip to Main Content
30 de maio de 2020 | 06:13 pm

AÇÃO POLÍTICA E GESTÃO PÚBLICA – OU 'HABEMUS CACAO!'

Tempo de leitura: 3 minutos

Domingos Matos2Domingos Matos | matos.domingos@gmail.com

Os produtores queimam cacau hoje, em protesto contra a importação do produto da África, porque os nossos armazéns estão abarrotados. O que temos de amêndoas aqui dá – de sobra – para atender a planta moageira instalada no país. Isso é autossuficiência.

No dia em que o presidente da Venezuela Hugo Chavez fez a viagem, e o mundo viu a população em peso nas ruas chorando sua morte, poucas horas antes, em Ilhéus, um protesto contra a importação de cacau pelas indústrias moageiras instaladas no Brasil também chamou a atenção do país.
O leitor deve estar se perguntando o que teria a ver El Comandante com o protesto em Ilhéus. Muita coisa, diria. Uma, importantíssima: os dois fatos – o luto dos venezuelanos e o luxo de se queimar cacau na rua – derivam de uma ação política.
Da parte de Chavez, sabemos que sua popularidade veio da execução de um projeto (social) que fez com que o país auferisse ganhos econômicos e sociais bastante expressivos.  No sul da Bahia, o fato – repito – luxuoso de se queimar cacau em praça pública também só é possível porque houve, antes disso, um projeto, gestado, implantado e gerido a partir de uma ação política, visando um resultado que beneficiasse toda a sociedade.
Esse projeto foi parido dentro da Ceplac, divulgado com antecedência, e hoje permite que a região possa dizer que já não precisa de cacau importado. Falo aqui do projeto “Autossuficiência com Sustentabilidade”, oficializado no Dia Internacional do Cacau, no auditório da Ceplac, mas que foi apresentado ao ex-ministro Geddel Vieira Lima em janeiro de 2012 pelo superintendente da Ceplac/Bahia, Juvenal Maynart, em conjunto com o chefe do Centro de Pesquisas do Cacau, Adonias de Castro.
Lembremos que dias antes da oficialização, a Ceplac voltava, vitoriosa, de sua participação na conferência da ONU para a sustentabilidade, a Rio+20, onde o cacau da Bahia foi inserido no documento oficial do governo brasileiro para as Nações Unidas como uma das premissas para a sustentabilidade, capaz de contribuir para a diminuição da fome e das desigualdades no país (o cacau cabruca foi consignado como a nona das 10 premissas do MAPA para uma agricultura sustentável).
Pois bem. A safra de 2012 na Bahia bateu 154 mil toneladas – segundo consultoria independente – e a desse ano tem previsão de ultrapassar as 160 mil toneladas. Ora, os produtores queimam cacau hoje, em protesto contra a importação do produto da África, porque os nossos armazéns estão abarrotados. O que temos de amêndoas aqui dá – de sobra – para atender a planta moageira instalada no país. Isso é autossuficiência. E essa autossuficiência foi prevista como uma ação política, direcionada para a sociedade regional.

É preciso que a sociedade volte a se encantar com a política – apesar de tantos desencantos – para que essa mesma sociedade saiba cobrar das autoridades o que de fato se espera delas: ações que promovam o bem comum. Esse protesto em Ilhéus, para mim, é fruto de uma esperança que se reacendeu nessa região.
Não nos enganemos, porém: o combustível para manter a esperança continua sendo o suor do trabalho de todos. E quando eu digo “todos”, a imagem que nos vem à mente não poderia ser mais especial: trabalhadores rurais sem-terra, agricultores familiares e grandes produtores, além de políticos de todos os matizes ideológicos, todos num só grito de guerra – não pronunciado, mas acalentado em cada coração: habemus cacao!
Domingos Matos é jornalista e blogueiro.

Esta publicação possui 4 comentários
  1. O aumento da producao de cacau em nossa regiao nao tem nada a ver com a CEPLAc, mas sim com o esforco de varios produtores e daqueles que, nao aceitando os erros desse paquidermico orgao, acreditaram e partiram para solucoes diferentes.

  2. Faço parte de um pequeno espólio, hoje, por conta da provocada vassoura de bruxa, que todos sabemos e cremos a sua orígem, e, a mais de uma década, não temos a menor condição de fazermos qualquer investimento nas plantações, nem mesmo os mais básicos.
    A natureza, com sua generosidade, nos ajuda em anos bons de colheitas e esse cidadão quer dizer que isso é fruto dessa instituição que nos causa repulsa.
    Só idiotas creem nisso!

Deixe seu comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back To Top