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29 de novembro de 2020 | 01:47 am

O CACAU DA BAHIA: UMA VISÃO GLOBAL QUE PEDE UMA ATUAÇÃO LOCAL

Tempo de leitura: 3 minutos

eduardo thadeuEduardo Thadeu | ethadeu@gmail.com

Fatores por nós já bastante conhecidos e identificados, fizeram com que a produção da tradicional região cacaueira baiana perdesse importância e começasse a derrapar em um mar revolto de enganos e interesses, por vezes escusos, travestidos de ciência de ponta, mas a serviço do oligopólio já instalado.

Não é nenhuma novidade que a commodity cacau e seu mais refinado produto final, o chocolate, sofrem influências de um mercado oligopolizado e de tal forma concentrado que não se vislumbra precedente ou comparação em nenhuma outra cadeia produtiva iniciada no setor primário.
É por demais conhecida a situação de que cinco ou seis grandes compradores e processadores da matéria-prima cacau, a amêndoa, detêm quase 100% do mercado mundial, mercado este que, sem muito alarde, envolve algumas dezenas de bilhões de dólares.
Apesar dessas cifras, esse mesmo mercado deixa somente 7% dos ganhos em sua ponta inicial e, em contrapartida, tem 74% dos ganhos auferidos pela indústria alimentícia que utiliza os sabores e o nome do chocolate.
A novidade oligopólica aqui é que os processadores finais, aqueles que colocam as cáries nos dentes de nossos filhos ao açucararem o cacau, são os mesmos que detêm o poder de compra da matéria-prima original, o nosso bom e saudável fruto, o Cacau.
O Brasil, representado pela Bahia, já foi um importante fornecedor deste mercado internacional. Fatores por nós já bastante conhecidos e identificados, fizeram com que a produção da tradicional região cacaueira baiana perdesse importância e começasse a derrapar em um mar revolto de enganos e interesses, por vezes escusos, travestidos de ciência de ponta, mas a serviço do oligopólio já instalado.
A agência governamental brasileira, a Ceplac, não conseguiu dar respostas em tempo hábil às necessidades mercadológicas e científicas que se colocavam em tal situação de oligopolização. Os interesses nacionais não foram protegidos e, em especial os baianos, foram vilipendiados.
Nas décadas de 70 e 80 do século passado, ainda sob a égide de governos militares que entendiam a Amazônia como uma fronteira a ser protegida via ocupação física dos espaços da hiléia brasileira, foi sendo esquecida a riqueza já sedimentada nestas maviosas matas úmidas do sudeste baiano. A falta de atenção e prioridade teve como consequência o que carpimos nos últimos 25 anos.
Ainda como consequência desta avaliação errônea, recentemente a agência estatal foi entregue a administrações equivocadas e interessadas em, por definitivo, mudar o eixo natural da lavoura cacaueira brasileira. A tentativa torpe de alavancar a produção amazônica em detrimento da baiana causou e tem causado sérias consequências à produção brasileira de um produto nobre e de larga aceitação nos modernos e socioambientalmente exigentes mercados consumidores.
Nos últimos cinco anos, podemos observar que os investimentos governamentais, via Ceplac, seguiram uma lógica que podemos chamar de ilógica ou mesmo de estapafúrdia.
É clara a discrepância observada entre os valores investidos versus os percentuais de produção de cada uma das regiões produtoras, saltando aos olhos ainda a enorme evolução dos gastos com o Escritório de Brasília, onde, sabemos, não há um pé de cacau sequer, mas cujos recursos lá alocados podem ser repassados para outras unidades por atos da Diretoria Geral. Para a Bahia não vieram.
Não resta dúvida de que a falta de lideranças políticas baianas, interessadas em reverter este quadro, somada às sequentes administrações centrais da Ceplac desvinculadas da tradicional região produtora baiana, irão postergar a visível capacidade de recuperação que o produtor baiano vem demonstrando, representada por suas participações em eventos internacionais e pela última safra, a maior desde que a vassoura de bruxa foi instalada na região.
A recente união da classe produtora visando barrar as absurdas importações de produtos inferiores ao nosso, com a finalidade de derrubar os preços pagos aos nossos produtores, pode ser um embrião de um movimento decisivo que consiga dar um basta ao que está aí.
 
Eduardo Thadeu é economista, mestre em planejamento e desenvolvimento regional, especialista em planejamento ambiental e conselheiro fundador do Conama.

Esta publicação possui 5 comentários
  1. O texto está muito bom, mas deixa de destacar o principal: toda a miséria foi iniciada com o CRIME da vassoura-de-bruxa. Doença que não foi “instalada” na região.
    No Inquérito 2-169/2006-DPF.B/ILS/BA a Polícia Federal escreveu:
    “…reputa-se induvidoso que a introdução e a disseminação da doença vassoura-de-bruxa na região sul da Bahia decorreu de ato humano deliberado, não podendo ser atribuído a agentes naturais”.
    Enfim, a doença não foi “instalada”, não “surgiu”. Foi CRIME DOLOSO!!!

  2. SINCERAMENTE, o certo é que ninguém neste País quer ver o Estado da Bahia ,principal fornecedor de mão de obra barata pra as regiões sul e sudeste, desenvolvido. Está claro para mim, não só por esta situação da lavoura de cacau que está sendo claramente SABOTADA, como também da sabotagem do Porto Sul, da ferrovia oeste-leste, da Ponte Salvador – Itaparica, dentre outros projetos, que se realizados irão alavancar o desenvolvimento do nosso Estado o colocando em outro patamar econômico- social. Esta situação de sabotagem é facilitada por elegermos, com as devidas exceções, políticos corruptos que não estão “nem aí” para as causas do Estado, só se interessando em enriquecer suas contas bancárias com dinheiro publico. Alia-se a isto o fato da total ignorância do povo que só quer saber de “oba -oba” e também não se interessa por assuntos políticos, sendo prezas fáceis destes políticos corruptos que prometem e não cumprem. Tomara realmente que, no caso do cacau, a classe produtora consiga se organizar e ter forças para mudar a atual situação a favor do nosso Estado, pois ,do contrário, não vejo nenhum horizonte promissor para o cacau e para nosso Estado como um todo. Que Deus nos ajude!

  3. Muito boa reportagem, e com relação a Vassoura de Bruxa não está se tratando da mesma e sim do prêço do produto pago ao produtor e o mal está na falta de compromisso do Governo estadual e Federal com a nossa regiao e a falta de representatividade política, estamos dependendo de nós mesmos é preciso impedir o desembarque nemk que seja na marra

  4. Finalmente alguem coloca o dedo na ferida de séculos. Parabéns!!! O cacau de melhor qualidade produzido no mundo está aqui em nossa região e é o único que garante as exigências sociais e ambientais que os países ricos estão adotando. Nossa dívida,dos produtores, ocasionada por orientações erradas, tanto técnicas quanto creditícias, tem que ser anistiada imediatamente. Um novo mundo nos espera, o do cacau e do chocolate sustentável.

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