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1 de junho de 2020 | 09:47 am

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 4 minutos

COMO DEUS AMOU A JACÓ E ODIOU A ESAÚ?

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1Esaú e JacóA forma preposicionada do verbo amar, aqui referida há dias, possui uma exceção muito nobre, que não foi citada. É que o Livro Sagrado dos católicos (no qual se esperava o respeito à regra de amar a Deus) abriga, em Romanos 9:13, esta joia de tradução: “Amei a Jacó, e odiei a Esaú”, palavra de Deus. A expressão, incompatível com um ser de infinita bondade, incapaz de abrigar o ódio (segundo os que Nele creem e O explicam), suscitou variadas interpretações. Destaca-se entre elas a do respeitado teólogo John Murray, no livro Romanos, resumida a seguir.

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“Sem malícia, perversidade ou vingança”

Para o exegeta (nascido na Escócia, em 1898), não se pode dar a esse ódio divino as mesmas características do ódio exercido pelo homem mau. “No ódio de Deus não existe qualquer malícia, perversidade, vingança, rancor ou amargura profanos”, diz o estudioso. Ele acrescenta que “o tipo de ódio assim caracterizado é condenado nas Escrituras, e seria uma blasfêmia atribuí-lo ao próprio de Deus.” E assim vão os crentes tentando explicar as profundas contradições do seu livro-texto, nem sempre com êxito. Voltemos, então, ao verbo, sem intenção de trocadilho.

Noel: “Jurei nunca mais amar ninguém”

Se Cartola escreveu “Não quero mais amar a ninguém”, ferindo a regra, e Pixinguinha foi pelo mesmo caminho, com “Amar a uma só mulher/ deixando as outras todas”, há exemplos do emprego “certo” do verbo: Noel Rosa (na charge de Pedro Thiago) grafou “Jurei nunca mais amar ninguém” e Dora Lopes (na voz de Noite Ilustrada) quase repete o Poeta da Vila, com “Jurei não amar ninguém”. Na poesia, abramos ala para a lusitana Florbela Espanca, que cultua a forma “clássica”: “Eu quero amar, amar perdidamente!/ Amar só por amar: aqui… além…/ Mais este e aquele, o outro e toda a gente…/Amar!  Amar!  E não amar ninguém!”

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ESPUMA RAIVOSA CAINDO SOBRE A GRAVATA

Eu que (quem acompanha esta coluninha sabe) não sou chegado a tevê, recebi de uma gentil leitora a sugestão de dar uma olhada no comentário de Arnaldo Jabor (Jornal da Globo, 12 de junho). Encontrei a preciosidade nos arquivos do Google. Trata-se, todos sabem, de um cineasta (ou ex-cineasta) que se fez popular na última campanha presidencial, pelo uso que a direita faz do seu discurso raivoso. Desta vez, falando sobre as manifestações de rua, ele se superou. Juro a vocês que lhe vi a espuma a escorrer pela a gravata. Felicitando-me por ainda considerar a tevê uma “máquina de fazer doido”, anotei umas frases da fala do homem.
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“Revoltosos não valem nem 20 centavos”
Protesto passagem em Itabuna foto Pimenta www.pimenta.blog.brÓdio puro: “No fundo, tudo é uma imensa ignorância política, burrice misturada a um rancor sem rumo”. Falso desconhecimento: “Se vingam de quê?” Brincando de ser inteligente: “A causa deve ser a ausência de causa”. Em defesa do interesse da Globo: “Por que não lutam contra a PEC 37?” A face da direita: “Esses caras vivem no passado de uma ilusão. Eles são a caricatura violenta da caricatura de um socialismo dos anos 50, que a velha esquerda ainda defende aqui”. A explosão final: “Realmente, esses revoltosos classe média não valem nem 20 centavos”. Depois perguntam por que a Globo estava na lista dos protestos.

ENTRE PARÊNTESES, OU…

Pra não dizer que só falo de espinhos
Aos que me acusam de muito falar mal da mídia – alguns afirmam que caço erros, uma injusta inversão, pois são os erros que me perseguem – vai aqui o que pode ser uma surpresa: o signatário desta coluna é leitor de cabresto de um certo Ricardo Ribeiro, que no Pimenta publica, volta e meia, análises sobre o nosso conturbado viver quotidiano. O defeito do estilo de Ricardo está em não publicar com a frequência que eu gostaria. Ou não. Talvez essa falta de vocação para arroz de festa contribua para fazê-lo avis rara, ou vinho de safra incomum, trigo que se sobressai ao joio. Importa é que a linguagem clara, a lucidez do texto e a visão crítica do autor o levantam ao nível dos “clássicos” do jornalismo regional.

ÂNGELA E A LUZ DIFUSA DO ABAJUR LILÁS

7Ângela MariaO nome é Abelin Maria da Cunha, apelido Ângela Maria, ex-vocalista de coro de igreja que, escondida da família, se apresentava em shows de MPB. Cantou durante quase 70 anos, de 1945 até hoje. E cantou tudo o que lhe caiu às mãos: o verso clássico de Ari Barroso e Noel Rosa, rimas ricas e indigentes, dores de amores derramados ou contidos, a deliciosa cafonice da “luz difusa do abajur lilás que nunca mais irá iluminar outras noites iguais”. Cantou famosos e anônimos, transformou desconhecidos em clássicos, foi de Capiba a Chico Buarque, de Dolores Duran a Paulo Vanzolini. Cauby Peixoto disse que com ela aprendeu a cantar os “finais” das canções. Elis Regina diz que deve a Ângela Maria ser cantora.
Vítima de roubo, agressão e humilhação
Discreta, Ângela não alardeia seus nove casamentos e que seus maridos a submeteram a humilhações, agressões físicas e prejuízos financeiros, quase a levando ao suicídio. No fim dos anos 60, em desespero, mudou-se do Rio para São Paulo, mas continuou sendo roubada, caindo ao estado de grande pobreza. Deu a volta por cima, com uma nova união, a décima (conviveu por 33 anos e casou-se em maio último). Diz que seu melhor amigo sempre foi Cauby Peixoto (ele já confessou ser apaixonado por ela – e que só não se casaram porque ele chegou “atrasado”, Ângela já estava casada). No vídeo, o depoimento de Elis Regina e o canto inconfundível da Sapoti (show da TV Globo, em 1980).

(O.C.)

Esta publicação possui 10 comentários
  1. Sou Filósofo e Teólogo, e fiquei possuido pela emoção de me deparar com uma matéria riquissíma do ponto de vista teológico e cultural. Matéria brilhante; juro que me deixou emocionado hoje domingo pela manhã, dia 07 de julho de 20l3.
    Se deliciar com um texto desse, é mui gratificante para – quem faz alusão à inteligência aguda como a sua. Muito obri – gado mesmo..! cidade Ilhéus- Ba.

  2. Ontem questionei (na gaiatice) se ao adquirir dois Chapéus Panamá, eu e meu camarada companheiro, estaríamos prontos para o seleto mundo dos blogueiros de sucesso. Depois lembrei que nem o Davidson Samuel nem o Ricardo Ribeiro usam Chapéu Panamá.

    Provavelmente os “Pimentas” não foram os primeiros da região a se lançarem na blogosfera, mas souberam como ninguém selar o cavalo e sair em disparada. Para alguns distraídos do “métier” esse cavalo passou selado e eles não se deram conta.

    O estilo do Ricardo Ribeiro foi sem dúvida um ingrediente especialíssimo para o sucesso dessa Muqueca. Um alento para quem procura talento e honestidade literária em meio a Febeapás e Patropis.

  3. Muito obrigado a você também, Regina! E aproveito para acrescentar que tanto eu (e agora tomo a ousadia de revelar) Davidson Samuel somos admiradores de seu texto. De verdade mesmo.

  4. NOEL ROSA
    Passei pela primeira vez na Vila (Isabel) no início dos anos 70, mas, só fui conhecê-la de verdade nos anos 90, quando morei por 9 anos na Tijuca.
    Pelos idos dos anos 80, uma de minhas filhas foi premiada em um concurso com o livro “A Vila, de Isabel a Noel. Uma brochura que conta a história do lugar desde os tempos do Império, quando era passagem (estrada) por onde a Princesa Isabel acessava fazendas imperiais de café situadas no sopé do maciço tijucano onde hoje estão os bairros do Andaraí e Grajaú.
    Hoje, o que impressiona na Vila são as calçadas do Boulevard 28 de Setembro, todo em pedras portuguesas formando desenhos das partituras das odes de Noel. A boemia dos tempos de Noel praticamente desapareceu. A Vila é somente ligação entre as Zonas Sul e Norte, nada mais que isso. Além das partituras nas calçadas, o que lembra Noel é um velho túnel que leva o seu nome e liga a Vila ao Jacarezinho.

  5. AINDA SOBRE NOEL
    Incrivelmente, uma pessoa que viveu pouco mais de 26 anos compôs 259 músicas. Um gênio! Só não conseguiu safar-se da bebida!

  6. Esta historia de que Joaquim Barboisa viajou de avião da FAB para ver o jogo no Rio de janeiro é mentira, já desmentida pelo TRibunal. E voce devia saber disso ou é mal informado. E ainda por cima presta um desserviço á nação caluniando um homem honesto que hoje se coloca contra os desmandos do PT e que deve colocar os mensaleiros na cadeia. Vai ver que voce gosta mesmo de Lula.

    Da Redação: Sr. João Araújo, há um equívoco na leitura que o senhor fez. Afirma-se que o ministro e presidente do STF viajou às custas do erário para assistir ao jogo. O senador, sim, viajou em avião da FAB e, pego em flagrante, prometeu ressarcimento.

  7. Não. ele deixou nas entrelinhas a afirmação de que Joaquim Barbosa é desonesto, coisa que o PT anda pregando nas redes sociais. Joaquim Barbosa só viaja em avião de carreira com a cota que é dada aos ministros para que voltem para suas casas no caso de Joaquim Barbosa que tem um apartamento no Rio. Nunca solicitou um avião da FAB apesar de ter direito a isso como ministro e chefe de um poder. O resto é querer jogar lama em um homem honesto que não está deixando (quando depende dele), as falcatruas do PT prosperarem e nivelar todo mundo como ladrâo, neste pais dee ladrões.

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