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7 de maio de 2021 | 05:13 am

CULTURA SEM PIRES NA MÃO

Tempo de leitura: 3 minutos

Karoline Vital | karolinevital@gmail.com
 

Já faz parte do senso comum, virou até ladainha,  que o povo precisa de mais cultura. Mas que tipo? A do cair na gandaia, encher a cara e esquecer os problemas?

 
Aí o patrocinador, seja ele público ou privado, enche o peito para mostrar que investiu trocentos mil ou milhões na cultura. Mas como? Da maneira mais óbvia: eventos! Carnaval, Micareta, São João, Festa do Padroeiro (a parte profana, claro!), e por aí vai. Tudo com a logomarca do governo ou da empresa para aparecer bem bonito na televisão e nos anúncios em jornais e internet. Tudo colorido, estampado em tamanho generoso!
Infelizmente, a realidade dos investimentos no setor cultural é a política dos eventos. Não há política organizada como um conjunto de ações voltadas para a promoção dos segmentos culturais. Muitas vezes, impera a politicagem míope do pão e circo. Os artistas e grupos por mais organizados que estejam ainda são vistos pelos possíveis patrocinadores como pedintes indesejáveis. Afinal, o que vale mesmo para promover a imagem é disponibilizar os recursos na mão de quem já tem dinheiro, como grandes astros industrializados.
Por mais que os agentes culturais arquitetem projetos permanentes, possíveis de serem executados a um custo relativamente baixo, quando tentam apresentar os planos a potenciais investidores, ganham o mesmo tratamento de uma criança ao mostrar seu desenho para o pai que assiste futebol:
– Que lindo, muito bom! Agora chega pra lá que eu estou muito ocupado! – diz, educadamente, dando um tapinha na cabeça e um discreto empurrão nas costas para o incômodo sumir logo de sua frente.
Já faz parte do senso comum, virou até ladainha,  que o povo precisa de mais cultura. Mas que tipo? A do cair na gandaia, encher a cara e esquecer os problemas? Às vezes, dão a entender de que os artistas (não as mega-estrelas!) fizeram voto de pobreza. E um maná divino desce dos céus para produzir CD, filmar, montar espetáculo, organizar exposições, publicar livros, ministrar cursos e oficinas artísticas, pesquisar e registrar manifestações populares, manter um espaço cultural como cinema, biblioteca, museu, teatro ou galeria.
Confiar em bilheteria não paga conta alguma. É impossível se manter com a venda de ingressos, ainda mais com tantas pessoas exigindo cortesias e convites por achar um absurdo pagar para ver “gente daqui”. Talvez uma grande estreia, bem produzida, divulgada, em um local de alto nível… Só que tudo isso depende do que? Do “vil metal”, oras!
É inegável que, nos últimos anos, os governos federal e estadual, ampliaram o acesso a recursos para diversos segmentos culturais, através de leis de incentivo e abertura de editais. Algumas empresas também seguem a mesma linha, realizando seleções para projetos que se enquadrem em seus parâmetros e objetivos. Mas ainda é muito pouco diante da vasta produção cultural.
Claro que os grandes eventos merecem patrocínios. Porém, por que despejar um enorme montante em algo sazonal? É preciso empregar recursos pensando nos benefícios para a sociedade como um todo. Os investimentos devem ser contínuos, contemplando diferentes segmentos culturais, uma vez que a criatividade é perene. Não é empregar dinheiro com a intenção de ajudar os artistas. Afinal, eles são trabalhadores, como arquitetos e engenheiros voltados para construção do pensamento crítico.
Karoline Vital é jornalista.

Esta publicação possui 5 comentários
  1. Perfeita a análise da articulista.
    Deve-se acrescentar que a Lei Rouanet também não tem auxiliado pequenas produções culturais ou de artistas desconhecidos, pois as empresas patrocinadoras não se contentam apenas com o benefício fiscal, querem também ganhar visibilidade e aparecer na mídia, portanto preferem patrocinar grandes projetos, de artista consagrados que, na maior parte das vezes, já tem público garantido e não precisariam desse auxílio, que utiliza recursos públicos, via renúncia fiscal.

  2. Sua palavras são muito coerentes Karoline e não há necessidade de “fontes seguras” e números para embasar sua fala, é simplesmente isso.
    Para os governantes ou mesmo pessoas da rede privada o apoio à cultura se dá no intuito em receber algo em troca. O apoio não é dado porque o povo precisa evoluir em cultura, porque o povo precisa perceber novos horizontes, porque o povo precisa se divertir por divertir (sim! isso mesmo, todos nós temos direito à diversão).
    Não é nada contra as festas populares, citadas por ti, mas cultura é muito mais do que isso.
    Você simplesmente arrasou. Parabéns pelo artigo.

  3. Não concordo com você. Tem uma empresa pública que patrocina TUDO, de parada gay e show católico/evangélico, até batisado de boneca.
    Procura a BAHIAGÁS minha nega, e convsera com Davidson.

  4. A cultura tem que vir de dentro das pessoas. Todo mundo se queixa que não tem, mas deixa de ir a um cinema, ou um teatro pra tomar uma cerva em um barzinho. Deixa de ir a um teatro também. Em Itabuna, por exemplo, o cinema deixou de funcionar porque ? Porque não tinha público. Meia dúzia de pessoas na última sessão. Reclamamos tanto…

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