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16 de abril de 2021 | 02:15 pm

ENTRE A ELEGÂNCIA E A FIDALGUIA

Tempo de leitura: 2 minutos

antônio lopes pimentaAntônio Lopes | abcdlopes@gmail.com

E saibam todos quantos este textinho lerem que o Barão recusou-se a morrer durante o Carnaval, para não entristecer a cidade nem piorar mais o trânsito. Aguentou o tranco até os albores da quarta-feira de cinzas, beijou Denise, sorriu e se foi. Será isto elegância ou fidalguia?

 

Com o Barão de Popoff, que nos deixou na madrugada de quarta-feira, morre um estilo. Exercício que costumo fazer (identificar pessoas ou situações numa palavra só) pensei que “elegante” seria apropriada ao Barão, mas me pus em dúvida: seria “fidalgo”?

Fiquei com as duas: Popoff era tão elegante quanto fidalgo (e saibam todos quantos este texto lerem que essa associação não é tão comum quanto à primeira olhada possa parecer). O comportamento, a forma como se colocava perante o mundo e as pessoas, a solidariedade, o ombro amigo, a paz que transmitia à sua volta, a nobreza dos gestos, a alegria autêntica – e contida, sem os exageros de certas pessoas – eram seus atributos.

Conheci-o nos longínquos anos sessenta, eu estudante do lendário I. M. E., ele morador numa travessa próxima, já casado com a professora Denise (irmã de um querido colega meu, César, e de uma grande admiração, Armando Oliveira).  A mim ele veio conhecer quase 40 anos mais tarde, quando eu fazia pesquisa para o livrinho Solo de Trombone – Ditos & feitos de Alberto Hoisel – e ele se tornou uma das fontes mais importantes.

Empresário de turismo e guia (após aposentar-se do Banco do Brasil), orientou-me na primeira viagem que fiz. Na casa de Farias, entre um uísque e outro (ah, meus tempos!), consultei-o sobre tal iniciativa, e ele, sem mais aquela, olhou-me de cima a baixo, sorriu e sentenciou:

– Seu perfil é Europa!…

Na mosca. Antiamericano por formação, francófilo não sei por que, achei curioso o diagnóstico de Popoff, mas não lhe pesquisei as técnicas e mistérios.

Hoje, descubro que o Barão se foi. Por estar adoentado e ser dono de incontrolável tendência para o ridículo diante de amigos mortos, não vou a suas exéquias. Indo, correria o risco de ter em manchete o meu escandaloso choro público. Faço-o, então, mais discretamente, no silêncio do meu quarto.

E saibam todos quantos este textinho lerem que o Barão recusou-se a morrer durante o Carnaval, para não entristecer a cidade nem piorar mais o trânsito. Aguentou o tranco até os albores da quarta-feira de cinzas, beijou Denise, sorriu e se foi. Será isto elegância ou fidalguia?

Antônio Lopes é jornalista.

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