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25 de maio de 2020 | 02:01 pm

VOLTAMOS AOS TEMPOS DE PEDRITO GORDO NA BAHIA

Tempo de leitura: 5 minutos

Lula Dantas1Lula Dantas

A guerra midiática entre os grupos em disputa pelo poder político no Brasil ameaça não apenas a gestão do país. Ameaça o estado de direito e o processo de democratização da nação, incitando a sociedade brasileira ao ódio racial, servindo de pano de fundo para justificar todas as formas de atentados aos direitos constitucionais.

 

A diversidade cultural brasileira é fruto de um processo de mais de 500 anos da miscigenação de povos provenientes de várias partes do mundo. Historicamente, os povos tradicionais indígenas, os donos originais da terra, tiveram seus territórios invadidos e usurpados pelo colonizador branco, que ainda os tentou escravizar, até constatar que não seria possível, diante do feroz instinto de liberdade desses povos.

Esses, então, passaram a ser dizimados. Tribos, comunidades e povos indígenas foram completamente extintos para a criação das primeiras vilas e cidades. Os sobreviventes foram se embrenhando e refugiando nas florestas, na tentativa de sobreviver ao poderio bélico, à sanha assassina e a catequese do homem branco.

Como alternativa para o trabalho braçal, após as malfadadas tentativas com os indígenas locais, conforme prática da época, importaram, durante séculos, milhões de negros e negras do continente africano na condição de escravos, sendo os primeiros a desembarcar negros bantus e cabindas, conhecidos como Povos de Angola, inicialmente enviados para minas, plantações e engenhos no interior do Nordeste do país.

Num segundo momento, chegaram Povos de Ketu, Ijexá, Oyó, Sabé e Gêge, dos troncos Yoruba e Ewefon, encaminhados para as cidades que estavam sendo fundadas em toda a Colônia, principalmente para o serviço no comércio, na ourivesaria e enquanto criados domésticos.

Com o advento da abolição, milhões de negros foram libertos sem nenhuma política de integração à sociedade, de inserção ao mercado de trabalho, sem documentos, sem formação e na sua maioria sem referência e/ou vínculo familiar.

Os/As descendentes destes Povos ainda lutam para ter assegurados os direitos e à sua cultura, direito cerceado pela falta de vontade política dos governos em fazer cumprir a Constituição Federal. Os povos originários reivindicam esses direitos por meio de políticas públicas de inclusão social, retomada de posse e reconhecimento dos territórios quilombolas e indígenas, de reparação e de cotas, na tentativa de minimizar danos aos seus descendentes, já que estes ainda enfrentam o racismo institucional e o preconceito racial por parte da sociedade.

Vivenciamos a discussão de valores e de tabus que provocam uma disputa singular e imprevisível na sociedade brasileira, disputa de forças que lutam de um lado pela liberdade de expressão e do uso de seu corpo, de orientação sexual e da garantia de direitos civis e coletivos. E, de outro lado, a reação a essas demandas, promovida por grupos extremistas, liderados e compostos por fanáticos religiosos, nos meios de comunicação, nas redes sociais, nos templos, nas ruas e em eventos pagos com recursos públicos, justificando e destacando os atos de um Congresso Nacional reacionário e retrógrado.

Por meio da criação de novas leis, com o mote de resguardar e garantir a família, a moral e os bons costumes, evidenciam e explicitam a defesa de interesses de grupos políticos hegemônicos, de determinadas facções religiosas neopentecostais e de classe econômica alta, distinta se em detrimento da maioria da população brasileira e das minorias representativas. Nomes, siglas e dogmas se misturam convenientemente com o objetivo de formar “Exércitos” em nome de um Deus de ódio e formam uma “bancada evangélica” que atenta contra a laicidade do Estado brasileiro e contra a democracia.

Enquanto isso, e enquanto contra ponto a um problema que carregamos desde os tempos da Coroa Portuguesa, “Os Sacerdotes Políticos ou, Os Políticos Sacerdotes…”, foram criadas no Congresso Nacional várias frentes em defesa dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, dos Povos Indígenas, da Cultura, da Juventude Negra, LGBT, dentre outras… Tentativas de enfrentamento aos fanáticos que promovem a intolerância a todas as outras formas de fé, mas tendo como alvo principal os Povos de Matriz Africana, e por objetivo impor seus dogmas religiosos a toda a população brasileira, desrespeitando a diversidade religiosa e cultural do país.

Esse Estado de Exceção se replica em Assembleias Legislativas Estaduais, nas Câmaras de Vereadores Municipais, onde os casos de preconceito/intolerância/desrespeito e discriminação religiosa são enfrentados rotineiramente pelos praticantes e lideranças dessas tradições. Os crimes são praticados por meio de leis que:

– ameaçam a segurança e a prática alimentar ancestral do sacrifício e compartilhamento;

– que silenciam os atabaques centenários, impõem horários ao culto e constrangem os/as adeptos, simpatizantes e lideranças, com a lei do silêncio;

– que não garantem que crianças e jovens negros não sejam humilhadas por causa do cabelo, da cor da pele, da roupa ou da sua religiosidade, por/ ou/e com a permissividade de funcionários públicos, evangélicos, nas escolas e universidades;

–  permitem a utilização de todos os meios de comunicação para a exposição rotineira de campanha infernal, incitando a sociedade ao preconceito e ao ódio racial, em nome de Jesus e do amor;

–  permitem que fanátic@s religiosos continuem pregando as mais diversas mentiras e injúrias nas ruas, nos púlpitos, nas portas das casas das pessoas de tradição, nas portas dos templos de matriz africana, invadindo, profanado e destruindo objetos e espaços sagrados, agredindo, humilhando, coagindo e matando os idosos, os sacerdotes e sacerdotisas de Matriz Africana;

–  não reconhecem nossos Templos enquanto espaços religiosos, de acolhimento, de vivência, de cultura, de assistência, de saúde e solidariedade;

–  querem condenar jovens negros ainda crianças à cadeia e ao crime profissional;

–  diminuem, restringem e até desconhecem territórios tradicionais ancestrais, reconhecidos pela comunidade;

–  dificultam a regulamentação fundiária, a isenção tributária e o reconhecimento dos espaços e templos sagrados de Matriz Africana; e

– não obrigam os gestores públicos e políticos a cumprir a lei.

A guerra midiática entre os grupos em disputa pelo poder político no Brasil ameaça não apenas a gestão do país. Ameaça o estado de direito e o processo de democratização da nação, incitando a sociedade brasileira ao ódio racial, servindo de pano de fundo para justificar todas as formas de atentados aos direitos constitucionais. Tem exposto de forma rotineira e contundente o processo histórico de exclusão/exceção dos direitos dos descendentes dos povos tradicionais e reafirmam a versão eurocêntrica de uma nação branca, elitista e hipócrita.

As crianças, jovens, mulheres e homens negros foram e continuam sendo excluídos da divisão do bolo das riquezas da nação. Consta dos índices e indicadores oficiais a cor dos encarcerados nas penitenciárias, a cor dos desempregados, a cor dos favelados, a cor dos assassinados pelo tráfico e pela violência policial, a cor das mulheres agredidas e estupradas, a cor das crianças abandonadas, a cor de quem mora nas ruas, a cor de quem vive abaixo da linha da pobreza… Esses problemas nunca foram devidamente enfrentados e muito menos resolvidos, embora constem de leis, tratados internacionais, planos, programas e políticas públicas e até das plataformas políticas de partidos e de governos, mas sem investimento, sem vontade e coragem política para fazer o necessário para promover a mudança que a sociedade brasileira negra e pobre clama.

Os Povos de Matriz Africana e sua cultura resistiram ao degredo, à diáspora, a escravidão, a catequese, ao abandono, ao sincretismo, a folclorização, a criminalização, ao racismo institucional, a intolerância religiosa e a discriminação, a demonização neopentecostal, e a ausência de políticas públicas. Vão continuar resistindo, os atabaques não serão silenciados, os deuses e ancestrais continuarão dançando e aconselhando seus descendentes, mas cuidado Povo de Santo, Povo de Axé, Povo de Terreiro, Povo de Tradição. “Pedrito Gordo” voltou para a Bahia!

#Ainda Lutamos Por Direitos!

Lula Dantas é presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Itabuna.

Esta publicação possui 5 comentários
  1. Há tempos não vemos um texto tão brilhante e contextual como este.
    Parabéns a Lula Dantas pela exposição do pensamento e esperamos muito que outros grupos que se sintam também alijados manisfestem-se diariamente sobre esta forma coercitiva de alguns poderes.
    Nos entristece ter conhecimentos de diversos grupos que são criados a sombra de algumas lideranças que se contentam a sair com o pires na mão atrás de políticos em troca de empregos por votos esquecendo ou dando as costas para os objetivos para os quais foram criados, e por assim se comportarem caem no descredito ou no esquecimento.
    Apenas juntando forças, nos empoderando e focados nos objetivos é que seremos grandes e vitoriosos.
    Axé Lula.

  2. Não costumo tecer comentários em redes sociais, mas este texto suscitou em mim, a necessidade de fazê-lo, tendo em vista, a veracidade premente de defender nossos direitos como pessoa e mulher negra nordestina,que ao longo da minha vida vivencio a discriminação e o desrespeitos às pessoas negros e indígenas e a sua cultura.
    Todos temos direito a professar a nossa fé, e acredito no que Gandhi pregava “as religiões não se destinam a separar os homens; destinam-se a uni-los”.
    E quando veremos isso, uma vez que, a cada dia as pessoas criam mais barreiras, perseguições? Assim, no século XXI “ainda lutamos por diretos!” Grande Lula Dantas

  3. Achei que fosse um texto tratando do respeito as diferenças, parei do “facções religiosas”. Menos blá blá blá e mais coerência nessa guerra ideológica inútil. O colunista expressa a mesma intolerância dos sujeitos a quem critica.

  4. “Invasões de templo” “ataques a idosos de religião africana”, esse homem tá falando do Brasil ou de um país do oriente médio? Vitimização..a gente ver por aqui.

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