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9 de agosto de 2020 | 11:02 pm

COQUINHO DE QUELÉ AINDA É LEMBRADO COMO UMA DAS DELÍCIAS DE CANAVIEIRAS

Tempo de leitura: 4 minutos

Tia Quelé recebe amigos e relembra fatos de Canavieiras

Uma unanimidade: assim era considerado o coquinho de Quelé, uma deliciosa mistura de cachaça com o coco, fabricado anos a fio na atual rua Dr. Edmundo Lopes de Castro, no bairro da Birindiba, em Canavieiras. E o delicioso produto etílico, àquela época, era consumido por pessoas das mais diversas faixas etárias – de mamando a caducando, como se diz –, bastando, para tanto, saborear um bom aperitivo.
Aos 89 anos, Dona Clemência Vieira Costa está aposentada deste afazer desde 2009, para desespero dos antigos e fiéis clientes, que relembram com água na boca as visitas ao Coquinho de Tia Quelé. Para uns, visita diária obrigatória – ao meio-dia para despertar o apetite, ou ao final da tarde para descansar de um dia estafante de trabalho e se encorajar para um banho frio –; semanais, às sextas-feiras, com a finalidade de abrir o fim de semana; e ainda tinha a turma do sábado ou do domingo.
Desculpas de biriteiros à parte, a fama do Coquinho de Quelé reunia representantes de todas as camadas sociais de Canavieiras por ser um local onde até os políticos adversários se encontravam e se comportavam com civilidade. Até mesmo os alunos do Ginásio Municipal Osmário Batista – uniformizados, inclusive – frequentemente pulavam o muro para beber um coquinho em Tia Quelé, como fazia o hoje bancário aposentado, Raimundo Antônio Tedesco, isso aos 15 anos de idade.

Coquinho de Tia Quelé, umas das delícias de Canes

Mais de 100 coquinhos eram produzidos mensalmente, sem contar as encomendas destinadas a parentes e amigos em Salvador, que recebiam os coquinhos para verdadeiros mimos para matar as saudades da terra natal. Além do coquinho, Tia Quelé também atendia aos mais diferentes paladares, oferecendo cachaça com folhas (folha podre, no ditado popular) e cerveja. Já os tira-gostos eram servidos por estabelecimentos vizinhos.
JEGUE AMARRADO NO BALCÃO
No Coquinho de Quelé também tinha a turma da saideira, que amarrava o jegue no balcão e só deixava a casa depois de pronto e acabado, embora para uma grande turma era o local do início dos “trabalhos”. Informa Tedesco, que o local era uma espécie de esquente para a turma ir à farra, após umas doses espertas do coquinho. “Dali cada um tomava o seu rumo”, conta Tedesco.
E Tia Quelé, que serviu e introduziu várias gerações ao mundo etílico e boêmio por várias décadas, finalmente aposentou e não deixou nenhum substituto à altura, como reclama um dos clientes mais assíduos, Nélson Barbosa (Nélson Amarelão). Essa também é a queixa dos canavieirenses que residem em outras cidades, que frequentemente visitam Tia Quelé em suas idas e vindas. Outro cliente com muitas encomendas era o ex-bancário Jaime Bandeira, para presentear os amigos em Salvador.
Até mesmo o bancário aposentado e ex-secretário municipal Antônio Amorim Tolentino, hoje fora das lides etílicas, quando relembra o coquinho de Tia Quelé diz que vem a saliva na boca. Para ele, além da alta qualidade do produto, a casa reunia a mais fina-flor da boemia, a exemplo de Arimar Chaves, Fred Érico Almeida, José Reis, Almir Melo, Tyrone Perrucho, Toninho Pereira Homem, Ériston Nascimento, dentre outros, que passavam os mais variados temas em revista.
Na opinião do jornalista Tyrone Perrucho, mesmo com todos o bares e botequins da cidade, a casa de Tia Quelé era uma parada obrigatória da boemia, lembrando a grande profusão desses estabelecimentos em Canavieiras. “De repente, ficamos órfãos com a aposentadoria de Tia Quelé. Ela representou para nós o mesmo que Caboclo Alencar, do ABC da Noite, simboliza para Itabuna”, retratou.

Tia Quelé faz pose com os embaixadores

HOMENAGEM
Mas o sentimento de perda do Coquinho de Tia Quelé deixou nos nostálgicos clientes está perto de ser satisfeita e, quem sabe, neste Carnaval possam matar as saudades do coquinho, numa edição especial de homenagem, com 50 coquinhos. Mais ainda, outra edição do coquinho está prevista para o dia 5 de junho, data em que Tia Quelé completa 90 anos de idade. Quem promete essa festa toda é o seu bisneto Paulo Henrique.
A intenção da família é relembrar uma das grandes tradições de Canavieiras criadas por Tia Quelé e que faz parte da memória da cidade e das pessoas que aqui viveram e foram apreciadores da iguaria. A notícia das edições especiais já despertaram alguns dos clientes mais assíduos, que tentam se inscrever numa lista de pré-venda e participarem das homenagens.
RECONHECIMENTO
Num expediente sabático na Confraria d’O Berimbau, entre as várias e simultâneas discussões, o Coquinho de Quelé foi apontado pelos confrades especialistas em assuntos etílicos como uma das maravilhas da vida boêmia de Canavieiras. Considerado um assunto dos mais relevantes, imediatamente foi programada uma visita de reconhecimento à Tia Quelé, com a formação de uma comissão de alto nível para a importante missão.
Nesta embaixada, participaram os jornalistas Tyrone Perrucho e Walmir Rosário, os bancários aposentados Raimundo Antônio Tedesco e Antônio Amorim Tolentino e o funcionário público aposentado Nélson Barbosa. O objetivo principal foi o de refrescar a memória das pessoas sobre uma pessoa que contribuiu para tornar Canavieiras uma cidade de cultura rica, notadamente na gastronomia e nas bebidas.
Tia Quelé, que criou e netos adotivos, se aposentou aos 81 anos e hoje vive com o bisneto Paulo Henrique. Aualmente tem dificuldades em reconhecer as pessoas, mas, com esforço, lembra de alguns fatos e amigos mais chegados, a exemplo de Raimundo Orelhinha e Wallace Mutti Perrucho. Apesar dessas condições, não perde o bom humor, mesmo quando reclama de algumas dores ao ficar sentada ou em pé. Mesmo assim não se fez de rogada ao ser chamada a ir para a porta para pousar na fotografia com os antigos clientes.

Esta publicação possui 0 comentários
  1. Aqui em Itabuna havia o COQUINHO DA SORTE,frequentado por políticos e muitos apreciadores, talvez até por Rosário. Era uma espécie de barracão instalado no início da rua Rui Barbosa, onde hoje é fundos do edifício do Sindicato Rural. Era ponto do prefeito José de Almeida Alcântara.

  2. Parabéns pelo texto Valmir Rosário, a narrativa e fotos com velhos amigos me fez lembrar, com saudades da minha passagem por Canavieiras. Um forte Abraço em Tolentino, Tedesco e confrades.

  3. Coisas acontecem no cotidiano dos seres humanos de maneira natural,nascer,morrer
    dormir,acordar,pescar,fazer canoa,rede de pescar,assim com o Tia Quelé,uma ação de introduzir cachaça na combuca do coco seco e transformou num manjar dos deuses uma delícia!
    Em Mutuns no Bar do Seu gringo,vendia a cachaça na combuca do coco seco e fazia o maior sucesso há 5O anos,este comentarista com 1O anos não podia provar do manjar mas, a então criança ficou adulto e já provou que delicia!
    É uma pema hoje não existe este costume de introduzir aguardente no coco seco,
    embora no Bar do seu Gringo tinha “folha Pode” cachaça, sapo na cachaça,cobra coral na cachaça e diversas plantas e iguarias.
    Voltando ao que interessa,a construção da história em Canavieiras de Tia Quelé,o
    ofício do jornalista,historiador,escritor é escrever dando vida o passado e até exorcizar os mortos,graças a Deus que Tia Quelé vive e tenha vida longa.
    Que história fascinante! Certamente o autor de Raízes do Brasil,seus restos mortais estão saltitantes no túmulo, Sérgio Buarque de Holanda. 19O2-1982. são
    os acontecimentos simples do dia a dia ou seja,os seres humanos constrói suas próprias histórias.
    Doce Tia Quelé,se não fosse o brilhante jornalista o mundo não conhecia a senhora,sua vida simples no cotidiano transformara numa brilhante história de vida e criação do manjar da aguardente de coco,este comentarista está com água na boca.
    Vida longa doce Tia Quelé e parabéns quem escreveu a história desta brilhante mulher e parabéns Canavieiras por ter este tesouro na cidade e nos 1OO anos da doce Tia Quelé,este comentarista faz questão de celebrar tomando a cachaça na combuca do coco que delícia de iguaria nesta doce cidade de Canavieiras.

  4. Jorge sais, o dono do Coquinho da Sorte, em Itabuna, era Cícero, que morava no bairro Conceição e que, posteriormente, se mudou para Ilhéus. O nome Coquinho da Sorte vinha das atividades comerciais etílicas e de lotéricas. Em Itabuna, como em Canavieiras

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