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26 de setembro de 2020 | 03:15 am

A TRAGÉDIA DA ANTICIÊNCIA

A TRAGÉDIA DA ANTICIÊNCIA
Tempo de leitura: 3 minutos

Nas outras partes do mundo, os líderes se renderam à realidade imposta pelo vírus e assumiram os seus papéis e responsabilidades, ajudando na redução da curva da covid-19, enquanto aqui o presidente brasileiro passou a ser o principal obstáculo para a recuperação do nosso país ante a pandemia.

Rosivaldo Pinheiro || rpmvida@yahoo.com.br

O Brasil vive uma tragédia humanitária. O número de mortos pela covid-19 aumenta exponencialmente no país. O isolamento social tem sido o caminho apontado pelos especialistas da saúde e pesquisadores como o único capaz de ajudar no enfrentamento à doença até que seja encontrada a vacina. Não nos torna imunes, mas causa uma desaceleração da contaminação e, consequentemente, possibilita um ordenamento dos serviços de saúde para que, à medida que adoecermos, exista disponibilidade de vagas nas unidades hospitalares.

O vírus acaba provocando a desaceleração da economia e criando uma falsa ideia de que o isolamento seja o responsável pela crise. A confusão acontece no Brasil e em outros países. É preciso compreender que esse problema aconteceria tanto aplicando ou não o isolamento. Retornar à normalidade na fase atual traria um descontrole no número de casos, caos na saúde e ainda mais mortes – e, consequentemente, mais prejuízo econômico.

No mundo ainda percebemos grupos de negacionistas. Eles desprezam a ciência e argumentam que é “necessário tirar a economia do coma”. Por essa analogia, é preciso compreender que a fase atual exige colocar o paciente (economia) em “coma induzido” e ligar os aparelhos (ações dos governos) como parte do tratamento para recuperá-lo. O governo federal, alinhado com estados e municípios, precisa formular políticas públicas para o enfrentamento da pandemia, cuidando das pessoas, para poder, somente assim, salvar a economia.

Sabemos que até o início de março o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, faziam parte dessa corrente negacionista. Mas, após verem o efeito destruidor do novo coronavírus na Itália e na Espanha, mudaram de posição, principalmente após o primeiro-ministro inglês ser atingido pelo vírus.

Por essa demora na aceitação científica, os líderes computam hoje milhares de mortos em seus países – EUA com mais de 83 mil óbitos e Reino Unido com mais de 33 mil. Após a catástrofe chegar às suas nações, ambos os governos foram obrigados a se juntarem ao bloco de países que foram buscar na teoria keynesiana o centro principal da adoção de medidas. O estado voltou a ser o responsável pela indução da economia e, portanto por manter o nível mínimo da atividade econômica, renda para os seus cidadãos e as demais providências socioeconômicas.

Infelizmente, aqui no Brasil o presidente Jair Bolsonaro participava do mesmo movimento negacionista e, mesmo sabendo dos números da doença nos países liderados pelos seus ex-aliados da corrente, permanece até hoje se opondo à ciência e ajudando a impor dificuldade na adoção das medidas necessárias para enfrentarmos esse trágico momento na vida da sociedade brasileira.

Nas outras partes do mundo, os líderes se renderam à realidade imposta pelo vírus e assumiram os seus papéis e responsabilidades, ajudando na redução da curva da covid-19, enquanto aqui o presidente brasileiro passou a ser o principal obstáculo para a recuperação do nosso país ante a pandemia. Temos hoje, sozinhos, mais casos do que os outros 11 países da América do Sul e o território da Guiana Francesa juntos.

O presidente parece viver num mundo próprio, onde não enxerga muita coisa à sua frente, nem o desespero das 12.484 famílias (até o fechamento desse artigo, nesta quarta, 13) que perderam seus familiares no seu próprio país, nem a obviedade da necessidade de segurar as rédeas agora para, o mais breve possível, voltarmos a movimentar a economia sem a preocupação de morrermos por essa doença.

Rosivaldo Pinheiro é especialista em Planejamento de Cidades (Uesc) e economista.

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