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14 de abril de 2021 | 02:14 am

ITABUNA: ESTE CHÃO TAMBÉM SOU EU

ITABUNA: ESTE CHÃO TAMBÉM SOU EU
Tempo de leitura: 2 minutos

Digo tanto para fazer refletir: quantas vezes Itabuna se reconstruiu todos os dias nesses 110 anos? E nós? Passaremos por esses nossos igualmente firmes, pois como diria Valdelice Pinheiro, “[…] de doces e tristes coisas é feita a vida…”.

Ícaro Gibran || icarogibran1@gmail.com

Quando estive em Itabuna, era ainda uma centelha de vida, dia após dia abrindo as vistas para o mundo que me parecia ser a Avenida Juracy Magalhães e seu enorme fluxo. No enquadramento da janela entelada de um apartamento onde cheguei com meus pais, caatingueiros como eu, a turva visão de criança não me deixava conhecer tantas nuances em tantas encruzilhadas. Sim, por ali passavam viajantes, grapiúnas e agrapiunados, vidas cruzadas. Passava também o cotidiano do operário, do lojista, prestadores de serviço, mascates e o ritmo das horas aceleradas pela urgência em tomar os rumos da vida pós-crise.

A memória não me acode quanto aos pormenores, mas já em outra fase e em outra cidade, os relatos eram os de “pantomias” do menino que lançava pelas frestas e sobre os transeuntes tudo quanto fosse possível. Da repreensão, há recordância. Lançada, possivelmente, foi a profecia da volta.

Novos tempos, e quando Itabuna esteve em mim, aos 18, já não se tinha conta a fazer. Eu fui apenas um dentre tantos que vieram, retornaram ou permaneceram para a lida com a semeadura e cultivo de sonhos. Por vezes escutei pelas bandas do sudoeste baiano sobre o grandioso potencial da cidade com ares de capital. Essa impressão (a de teimosa latência) em mim continua morando. Mas cacau já não havia. Neste lugar estavam as marcas da pós-grapiunidade forjada a suor e sangue pelos que adubaram a monocultura e instituíram a hierarquia de subalternidades que organiza a dinâmica geográfica e decalca os limites da periferia e da violência ainda e sobretudo hoje.

Falo de hoje, pois permaneço nessa vivência há mais de década. Ainda que por ter recebido deste lugar os insumos necessários para uma formação privilegiada (é bem verdade), permaneço pelos ganchos com a resistência de uma cultura ímpar, dissidente, inquietante como os cheiros que se misturam ao cair da noite, abrindo o olfato para as madrugadas de chocolate no ar. Aqui estou pois, como no Cachoeira, há perenidade nos Vinte poemas do rio, do Cyro de Mattos. Há multifacetadas expressões na Inúmera Daniela Galdino. Há juventude fazendo literatura não canônica, há (re)existência e rap nas praças, e há poesia mesmo no desfilar das capivaras.

Digo tanto para fazer refletir: quantas vezes Itabuna se reconstruiu todos os dias nesses 110 anos? E nós? Passaremos por esses nossos igualmente firmes, pois como diria Valdelice Pinheiro, “[…] de doces e tristes coisas é feita a vida…”. Mas, por como me sinto – filho desse espaço –, é honra minha fazer com a poeta uníssono: “Eu sou plantada neste chão. Eu sou raiz deste chão. Este chão sou eu”.

Ícaro Gibran é bacharel em Comunicação Social (Uesc), pós-graduando em Gestão Cultural e atua no marketing sul-baiano há muitas lavagens de beco.

Esta publicação possui 22 comentários
  1. Que saudades de cruzar a Juracy Magalhães e de dar uma olhada nas capivaras a caminho do shopping Jequitibá. Itabuna tbm tem sua poesia. ❤️

    1. Belíssimo texto, as nuances da região cacaueira, principalmente, da cidade de Itabuna, que nos revelou e nos revela a todo tempo grandes talentos. Parabéns Ícaro, por trazer a memória de várias fases histórica dessa cidade tão querida!!!

    2. Sou fã do estilo de Ícaro Gibran (sempre que posso dou uma espiadela nas redes sociais), que nos presenteia sempre com textos inteligentes, prazerosos, reflexivos e, porque não, faceiros.. Viva Itabuna!💕

  2. Devo dizer que o texto me tocou muito! A sensibilidade na escolha das palavras me fez lembrar dos bons momentos que tive enquanto morei em Itabuna. A cidade tem sim os seus problemas como muitas outras, mas existe também o afeto, a amizade, a sua história. Parabéns pelo texto e obrigada por me fazer viajar até lá mesmo estando tão longe!

  3. Que texto sensível! Itabuna é marcada pelas antíteses, ainda assim que cidade fértil para se viver. Parabéns pelo texto, de cá despertou memórias…

  4. Ícaro querido!
    Alegria infinita te ler, poder me inspirar através do seu texto nesses tempos, para além da memória saudosa da amada Itabuna, fui tocada por um apreço pelo seu tom, seu dom, e celebro com vc, aguardarei ansiosa por mais escritos seus, porfavor compartilhe mais.
    Abraço

  5. Texto lindo e leve. Uma reflexão-vivência-sentida muito bonita, consoladora e inspiradora. Que nós leitores sejamos presenteados com mais textos assim. Parabéns ao autor.

  6. Que lindo texto!
    A cidade é isso, um espaço onde a atuação e observação de todos os seus acontece.
    Parabéns!! Esperando pelas próximas reflexões.

  7. Aí amigo, quanta sensibilidade. Consegui sentir, através da sua escrita, a intimidade das tuas lembranças e das vivências desta cidade, que nos proporciona tantos encontros felizes. Saudades enormes!

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