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22 de abril de 2021 | 04:35 pm

GUINHO, O ESPORTE E A TAÇA DE VICE-PREFEITO NAS MÃOS

Tempo de leitura: 2 minutos

Eu não sei de quem foi a nobre ideia de garantir o vice-prefeito Enderson Guinho na Secretaria de Esportes, mas foi, de longe, uma das grandes decisões do governo de Augusto Castro, atual prefeito de Itabuna.

Manuela Berbert

Se a educação convencional e presencial já demonstrava falência especialmente nas comunidades carentes, a pandemia veio para fragilizá-la ainda mais. Sem a presença obrigatória na sala de aula e a falta de recursos para uma condição mínima de conhecimento, não quero nem imaginar o resultado disso tudo a médio e longo prazo. Sabemos que a preocupação é e deve estar voltada para a fome e a sobrevivência de todos, mas não precisamos ter bola de cristal para imaginarmos que a pandemia vai passar, mas muitas consequências dela serão irreversíveis.

Trago para a discussão, neste momento, a importância da valorização do esporte como alternativa não somente como qualidade de vida, mas também como entretenimento. Uma tentativa, sendo bem direta nas palavras, de salvar os jovens e as crianças do ócio, desocupação que proporciona o contato com as drogas, que empodera a criminalidade, e segue num círculo destrutivo que a gente já conhece. É triste, é lamentável e é a degradação do ser humano tanto quanto uma doença, porque também destrói famílias direta e indiretamente.

Eu não sei de quem foi a nobre ideia de garantir o vice-prefeito Enderson Guinho na Secretaria de Esportes, mas foi, de longe, uma das grandes decisões do governo de Augusto Castro, atual prefeito de Itabuna. Guinho, que passou o último mandato como vereador, foi um ferrenho combatente do governo inexpressivo de Fernando Gomes. Com muita responsabilidade, ele é perspicaz e circula muitíssimo bem em todas as classes, o que lhe garante o título de liderança de muitos e diferentes times, mas, especialmente, dos jovens.

Não precisa ser expert em política para entender que a composição de vices é, muitas vezes, jogada para tempo de TV e apoio de partidos e que muitos, após eleitos, seguem à sombra e não se destacam. Guinho, que é vice-prefeito e acumula o cargo de secretário de Esportes e Lazer, desde o primeiro momento vem circulando nos bairros almejando a reforma de quadras esportivas e, na última semana, apareceu resgatando time e estádio, num pontapé inicial que já marca espaço e avança na pontuação do seu novo mandato. Avante, capitão!

Manuela Berbert é publicitária.

ALUNOS DO ABC DA NOITE EM SALA DE AULA

Tempo de leitura: 3 minutos

A visita representa alvíssaras de que em um breve período nenhum dos alunos do ABC da Noite estará fora da sala de aula. Quem garante é o professor Caboclo Alencar.

 

Walmir Rosário

Nunca, em tempo algum neste Brasil, uma visita foi tão comemorada pelos boêmios do Beco do Fuxico e adjacências. Entrando o mês de abril, justamente no dia 1º, em que se costuma a contar mentiras, uma verdade merece ser contada em alto e bom tom: o Caboclo Alencar, nos seus 90 anos, deu as caras no Beco do Fuxico, o endereço do mais conceituado boteco de Itabuna.

Sem alarde ou notícias enviadas aos colunistas sociais que emolduram e abrilhantam nossa imprensa, a visita do Caboclo Alencar teve a simples finalidade de realizar uma vistoria nas instalações do majestoso ABC da Noite, fechado desde que apareceu a pandemia. No chamado grupo de risco, o Caboclo preferiu encerrar as atividades – temporariamente – no seu estabelecimento.

Como faz parte do costume do Caboclo, nesses quase 59 anos de atividades do ABC da Noite, a simplicidade é a marca registrada deste boteco que se transformou numa instituição itabunense. E esse mérito pode ser creditado às divinas batidas que são manipuladas na linha de produção, onde são associadas frutas e raízes às cachaças e vodcas, transformando-as no néctar dos deuses, e aos seus clientes.

Pois é, mas como com a pandemia da Covid-19 ninguém brinca, o Caboclo Alencar resolveu fechar o boteco por algum tempo e se refugiar em casa, longe dos vírus indiscretos que atacam a qualquer hora do dia ou da noite. Mas como os clientes – alunos, melhor dizendo – não se conformavam sem as aulas diárias, enriquecidas com as batidas de limão, maracujá, gengibre, pitanga, o Caboclo resolveu trabalhar em casa.

Mas foi logo avisando que não queria nenhum “piseiro” em casa e que os pedidos seriam feitos pela internet, através do e-mail ou pelo telefone – fixo e celular –, com hora marcada para retirá-lo. Aos poucos, via whatsapp, as batidas do ABC da Noite eram exibidas nas redes sociais como se fossem troféus arduamente conquistados em campeonatos internacionais, como a copa do mundo.

Mas como diz o ditado que gato escaldado tem medo de água fria, o Caboclo Alencar resolveu sair da toca – o recesso do lar – para dar uma olhadinha no prédio sede do ABC da Noite, uma simples vistoria de rotina. Sem alardes, saiu pela manhã com o intuito de fazer umas compras e aproveitou para dar uma passadinha no Beco do Fuxico e vistoriar se estava tudo em ordem.

E tinha razão o Caboclo, pois assim que o prédio do ABC da Noite ganhou status de tombado pelo patrimônio histórico como patrimônio material imaterial de Itabuna, com direito a discursos e muita bebedeira, aconteceu o impossível. No fim de semana, um inimigo – ou melhor, um amigo do alheio – subiu pela parede de frente, arrombou o telhado do prédio e surrupiou os R$ 300,00 deixados na gaveta.

É bom que fique registrado que o tal larápio não tocou nos poucos litros de batidas acondicionados no freezer, talvez por desconhecer a riqueza do conteúdo engarrafado, que foi disputado pelos clientes. Do alto de sua sabedoria, o Caboclo Alencar analisou o malfazejo em entrevistas para os programas policiais como sendo arte de um reles vagabundo chegado ao uso de crack e cachaça vagabunda.

Como dizem que um raio não costuma cair duas vezes no mesmo lugar, o interior do ABC da Noite se encontrava intacto, sem sofrer qualquer invasão dos larápios, que preferiram arrombar lojas vizinhas, aquelas que comercializam aparelhos eletrônicos, celulares e joias. Após uma rápida conferida no estoque, os litros de cachaça de Itarantim e de vodca estavam intactos, sem qualquer violação.

Se desta vez não houve prejuízo material, o Caboclo Alencar não contava com a quantidade de espiões de prontidão para fotografar sua chegada triunfal ao Beco do Fuxico. Tudo coordenado por Alex Alves (Português) que, de celular em punho, registrou todos os passos do Caboclo, e ainda por cima ligou para outros alunos do ABC da Noite anunciando que as aulas teriam sido iniciadas.

Mais do que de repente, pelo menos uma dúzia de alunos repetentes se postaram em frente ao ABC da Noite à espera que as portas se abrissem e pudessem se deliciar com as festejadas batidas. Nem mesmo nas ausências furtivas do Caboclo, quando ainda apreciava e fazia uso de uma boa cachaça e cerveja, ou de suas viagens de férias pelo Brasil afora, seus alunos foram acometidos de tanta carência etílica.

Mas, para o desespero da distinta clientela, a esperada festa durou apenas poucos minutos. Após o Caboclo Alencar fechar a porta com os cadeados e deixar os clientes com água na boca, anunciou que seria por pouco tempo. A visita representa alvíssaras de que em um breve período nenhum dos alunos do ABC da Noite estará fora da sala de aula. Quem garante é o professor Caboclo Alencar.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

SALVE O LEGADO DE JORGE

Tempo de leitura: 2 minutos

Não sou rico, meus familiares e amigos também não dispõem de grandes recursos. Porém, em sua maioria, tem algo, em comum, o gosto pela leitura, gosto esse que o inominável quer nos tirar..

Cláudio Rodrigues

Membro da bancada do Partido Comunista e eleito para a Assembleia Constituinte de 1946, o então deputado baiano Jorge Amado, eleito por São Paulo, foi autor da Emenda 2.850, aprovada naquele ano e 42 anos depois ratificada e ampliada na Constituição Cidadã de 1988. A Emenda do parlamentar e escritor grapiúna proibia a União, Estados, Distrito Federal e Municípios de criar impostos sobre livros.

Eis que o desgoverno de extrema-direita de Jair Bolsonaro em seu projeto de reforma fiscal prevê taxação sobre a aquisição de livros em 12%, com o argumento pífio de que “pobre não lê”, somente os ricos. O mesmo desgoverno que não tributa bancos, grandes fortunas e zera alíquotas para importação de armas quer dificultar o acesso aos livros, inclusive os didáticos.

O escritor Monteiro Lobato disse que um país se faz de homens e livros. Já o atual mandatário brasileiro acredita que uma arma tem mais valor que o exemplar de um livro. Não sou rico, meus familiares e amigos também não dispõem de grandes recursos. Porém, em sua maioria, tem algo, em comum, o gosto pela leitura, gosto esse que o inominável quer nos tirar.

Como pode um presidente que já assumiu que a única “obra” que leu, se é que leu, foi Verdade Sufocada, autobiografia do torturador Brilhante Ustra, e que nem bula de cloroquina, que ele receita a 3×4 para combater a Covid-19, chegou a ler. Quer dificultar o acesso dos brasileiros aos livros? Coisa que nem mesmo os militares – com seu regime de pouco mais de duas décadas de exceção – foram capazes de fazer.

Com o intuito de bajular o chefe, o “Posto Ipiranga”, cada vez com menos combustível, Paulo Guedes e os burocratas da Receita Federal criaram um argumento desprezível para dificultar que os brasileiros obtenção conhecimento e cultura literária.

Como disse Nelson Cavaquinho e Elson Soares, na letra da canção Juízo Final, “quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer…”. Cabe aos escritores, editores, deputados, senadores e – principalmente – ao povo se unir para barrar essa proposta que extrapola o absurdo. O legado do amado Jorge irá prevalecer.

Cláudio Rodrigues é consultor.

O DIA MUNDIAL DA SAÚDE

Tempo de leitura: 3 minutos

É extremamente grave o fato de termos atingido, no dia de ontem, a triste marca recorde de 4.195 mortes por Covid-19 em 24 horas

Paulinho Silva

Hoje, Sete de Abril, é Dia Mundial da Saúde. A nós, militantes sociais, cabe continuarmos no caminho da construção de um mundo mais justo e saudável. Esse é o tema da campanha da OMS/OPAS – Organização Mundial da Saúde representada, aqui na região das Américas, pela Organização Panamericana de Saúde.

Não podemos continuar na situação em que algumas pessoas tenham melhor “acesso aos serviços de saúde do que outras – devido às desigualdades em sua posição, status e voz na sociedade e as condições em que nascem, crescem, vivem, trabalho e idade”. (OMS, 2021)

No Brasil, nosso SUS, cujos princípios de universalidade, equidade e integralidade, é a garantia dos brasileiros, especialmente os mais vulnerabilizados, para o acesso a serviços e ações de saúde, como agora na pandemia, onde todos, indistintamente, tem no SUS em grande parte a assistência e a imunização nesse grave momento de pandemia.

Por isso, devemos reforçar a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) como política pública inclusiva e de qualidade. Que o Conselho Nacional de Saúde traz em debate hoje.

Segundo o CNS, “em 2021, a regra do orçamento emergencial para enfrentamento à pandemia não existirá mais. Ou seja, voltamos ao sufocamento da Emenda Constitucional 95/2016, que congelou investimentos em saúde e demais áreas sociais até 2036. O CNS já demonstrou que houve perda de R$ 22,5 bilhões a partir de 2018 até 2020, quando as novas regras de cálculo do piso da EC 95/2016 passaram a valer”.

O SUS é conquista do povo brasileiro forjado na histórica Conferência Nacional de Saúde de 1986 que fomentou o capítulo de saúde e tornou possível a materialização do direito à saúde descrito e garantido pela Constituição de 1988 como um direito de todos e dever do Estado.

Então, mais do que nunca, precisamos reforçar a campanha de defesa do SUS e recomposição do seu orçamento, que passa pela revogação da EC 95/2016. Além disso, pasmem, na proposta de orçamento apresentada semana passada pelo governo federal e aprovada pela bancada de apoio, a saúde do Brasil sofre um corte de 22% em relação ao empenhado no ano passado, segundo a bancada de oposição no Congresso Nacional.

Outro ponto importante é defender a estrutura de gestão pactuada que garante o controle social a nível nacional, estadual e municipal. Em Itabuna o Conselho Municipal de Saúde exerce seu papel fundamental de defesa do SUS, de fiscalizador e propositor das ações de saúde pública e se estabeleceu como fórum importante de debates, especialmente na reestruturação do nosso sistema a partir da atenção básica, além de estar desde o princípio da pandemia participando ativamente dos comitês de combate a covid-19.

Este dia também é dedicado, com muita justiça, aos Trabalhadores da Saúde, nossos heróis e heroínas, que têm demonstrado coragem, profissionalismo e, acima de tudo, lealdade à profissão e amor pelo que fazem, mais evidenciado ainda nesta pandemia. A todos vocês minha gratidão, respeito e minhas mais sinceras homenagens.

Deixo meu repúdio ao comportamento absolutamente condenável do Presidente da República na condução da crise sanitária. É extremamente grave o fato de termos atingido, no dia de ontem, a triste marca recorde de 4.195 mortes por Covid-19 em 24 horas, de acordo com levantamento do Conass (Conselho Nacional de Secretários da Saúde) e, ao todo, 336.947 brasileiros que perderam a vida. Mais triste ainda saber que essa situação poderia ser evitada se as autoridades sanitárias e médicas fossem ouvidas, se a ciência não fosse negada e o apreço pela vida fosse o imperativo.

Meu apoio e admiração a coragem e determinação de governadores, prefeitos, gestores, universidades, institutos de pesquisa, cientistas e professores que estão nos comitês universitários, que, com base em evidências, em verdades factuais, estatísticas, científicas e imbuídos da firmeza necessária não cedem a pressões de extremistas e exercem o verdadeiro combate a este mal.

Por fim, minha mais profunda solidariedade as famílias enlutadas. Meu sentimento de profundo pesar, mas sobretudo, minha participação e luta por um mundo mais justo e saudável.

Paulinho Silva é conselheiro municipal de Saúde.

UM VALIOSO APARTE

Nazal relembra debate acalorado sobre construção do muro do Cemitério São João Batista
Tempo de leitura: 3 minutos

Maneca sempre discursava com veemência, mais ainda se no dia tivesse esquentado os dentes com uma boa pinga, esfriando-os depois com umas cervejas durante o almoço.

José Nazal | nazalsoub@gmail.com

Início da década de 70 do século passado, Edmond Darwich assumiu o governo do município depois de vencer Gilberto Fialho na eleição. Era o tempo do bipartidarismo, com a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), e ele governou com apertada maioria na Câmara Municipal.

No Legislativo, palco de acaloradas discussões em busca da defesa do melhor para a cidade, em uma das sessões, o vereador Manoel Paulino de Oliveira, popularmente conhecido como Maneca do Caixão (era dono da funerária mais luxuosa da cidade), apresentou um requerimento sugerindo que fosse construído um muro no Cemitério São João Batista – no antigo Distrito de São João da Barra do Pontal, muito antes de ser bairro -, pois estavam ocorrendo ações de vândalos, havendo túmulos danificados, inclusive, com roubo de metal dos ornamentos.

Maneca sempre discursava com veemência, mais ainda se no dia tivesse esquentado os dentes com uma boa pinga, esfriando-os depois com umas cervejas durante o almoço.

No grande expediente, após a apresentação da proposta, o professor e vereador Cláudio Silveira, que já estava inscrito para falar, mudou seu discurso e foi frontalmente contra a proposta de Maneca, alegando que o recurso público a ser gasto na construção do muro seria melhor aplicado na reforma de pelo menos dois colégios, com melhor condições para os alunos.

Pronto. Bastou o contraditório para que os ânimos fervessem. E tome-lhe réplica, tréplica… Enfim, um desacordo completo! Foi aí, no ponto mais alto da discussão, em que os dois falavam ao mesmo tempo, defendendo suas posições, que o vereador Jocelim Macêdo fez sua intervenção:

– Caros colegas, meus nobres edis, vossas excelências permitam-me um aparte, disse com voz firme e forte (naquele tempo não tinha sonorização nas sessões).

Em respeito ao colega, de pronto os dois permitiram e pediram a fala. Do alto de sua experiência de vida, Jocelim fez sua intervenção, inicialmente saudando os companheiros:

– Meus queridos amigos e colegas de legislativo, obrigado por me permitirem intervir, com o único e exclusivo intuito de resolver essa questão. A você, meu amigo Maneca, tenho a dizer que nossa amizade não é apenas dentro dessa casa legislativa. Nossa amizade remonta há muito anos e vem sendo confirmada pelos nossos encontros diários, especialmente nas mesas dos bares que frequentamos, de segunda a domingo, um dia no Bar Atlântico, do nosso amigo Manolo Barral; ou no Barril, onde Maynard serve o chopp mais gelado da Bahia; no Pif-Paf de Turquinho; com João Nepomuceno Filho, o nosso Garangau; nos Bancários, para comer o caranguejo do João; sem falar em tantos outros pontos que juntos frequentamos. Desta forma, em nome dessa nossa amizade, me sinto à vontade para sugerir que abra mão do seu projeto e apoie o do vereador Cláudio Silveira. Ao vereador Cláudio, que conheço menos do que Maneca, mas tenho certeza de que, sendo filho do grande cidadão João Rodrigues Silveira, jamais se negará a permitir que os dois assinem juntos esse requerimento. A você, querido Maneca, além desse pedido que faço em nome de nossa amizade, ofereço ainda um argumento na tentativa de convencê-lo da minha proposta: vale mais a pena usar os recursos para as reformas das escolas do que para fazer o muro do cemitério. O cemitério não precisa de muro porque quem está dentro não pode sair e quem está fora não quer entrar!

Rindo muito, Maneca do Caixão concordou.

José Nazal é fotógrafo, memorialista e foi vice-prefeito de Ilhéus (2017-2020).

GOLPISMO NA ORDEM DO DIA

O novo ministro da Defesa, Braga Netto, e o presidente da República: é bandeira demais
Tempo de leitura: 2 minutos

Enquanto costura sustentação política com o Arenão, Bolsonaro estica as cordas em várias frentes, sobretudo na disputa das polícias, que aderiram ao presidente, presas aos governadores apenas pelas amarras frouxas da institucionalidade.

Thiago Dias

Os planos do golpe estão aí, só não vê quem não quer. O presidente da República e seu novo ministro da Defesa propagam descaradamente o ideário de 64 e usam a ameaça golpista como instrumento político.

Enquanto costura sustentação política com o Arenão – adoto a terminologia do Foro de Teresina para nomear o conjunto partidário herdeiro da Arena -, Bolsonaro estica as cordas em várias frentes, sobretudo na disputa das polícias, que aderiram ao presidente, presas aos governadores apenas pelas amarras frouxas da institucionalidade.

O governo, com o auxílio da bancada da bala, desfigurou projeto de lei de 2001 para subverter o pacto federativo usurpando o comando das polícias estaduais. Quer criar a figura do general PM, que responderia diretamente ao presidente. No mundo de Bolsonaro, os governadores só atrapalham.

O deputado federal Vitor Hugo (PSL-GO), bolsonarista até os ossos, propôs ampliação das hipóteses de uso do instituto da mobilização nacional, típico de guerra, para momentos como o atual, de calamidade pública em razão da pandemia.

A demissão dos três comandantes das Forças Armadas deixou ainda mais clara a ameaça civilizatória do projeto de Bolsonaro, que investe no Arenão e no autoritarismo ao mesmo tempo.

Para completar, Messias entrou na mente de boa parte da população. Pessoas andam por aí repetindo que Lula é uma ameaça comunista e que desconfiam da segurança das vacinas contra a Covid-19.

A ameaça comunista e o medo contemporâneo de vacina são produtos do glossário da extrema-direita, palavras de ordem que evidenciam a dimensão discursiva do embate político brasileiro.

Conforme tese do professor Idelber Avelar, da Universidade de Tulane, o bolsonarismo expressa os ressentimentos daqueles que ficaram (ou se sentiram) fora do grande pacto lulista – o oximoro do lulismo, que mete o pau na TV Globo no comício de manhã e janta com diretores da empresa à noite.

Esse é só um dos exemplos da complexidade do arranjo do governo do ex-presidente, segundo a análise acurada de Idelber no livro Eles e Nós – retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI.

Idelber recorre ao que o filósofo Marcos Nobre chamou de emedebismo ao analisar as coalizões que governaram o país antes de Bolsonaro. Segundo Nobre, uma coalizão, por maior que seja, tem que deixar alguém do lado de fora. Isso interessa aos seus membros, porque os frutos dados a quem ajuda a governar são limitados.

Nesse embate, como se sabe, não é a revolução comunista que assusta o bolsonarismo. O que Lula ameaça são os planos do presidente para 2022.

Bolsonaro adorava ter o ex-presidente como adversário quando o petista não podia entrar no ringue. Agora, está muito claro quem mais sentiu o impacto do renascimento político de Lula, que tirou Jair da zona de conforto – aquela logo acima de 317 mil cadáveres.

Os gestos recentes de Bolsonaro, que passou a atirar para todos os lados, foram incitados pela volta do petista ao jogo, notadamente aqueles que levaram os ex-comandantes militares a impor limites a Jair na demissão conjunta e inédita desta terça-feira (30).

Lula, satisfeito com a estocada que deixou o oponente sangrando junto com o povo brasileiro, ficou em silêncio por duas semanas. Vai falar amanhã, em entrevista a Reinaldo Azevedo, o mais novo xodó do garantismo petista. A bibliografia do jornalista, o rottweiller amoroso, ficou no passado.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

ZITO BAÚ DEIXA UM EXEMPLO DE VIDA

Tempo de leitura: 3 minutos

Que o despojamento e os ensinamentos de José de Oliveira Santana – Zito Baú, nome em que era mais conhecido – sirvam de exemplo às novas gerações, para que possam analisar como um paradigma a ser seguido.

 

Walmir Rosário

A ninguém é dado ao direito de desconhecer as mudanças em nossas vidas, por mais que possamos rejeitá-las, pois, na esmagadora maioria das vezes, elas não dependem ou ocorrem da nossa finita vontade. As que não nos dizem respeito, apenas acompanhamos pela leitura dos meios de comunicação; outras, as que nos atingem, sejam no plano físico ou espiritual, nos regozijamos ou choramos. É da vida.

E é justamente quando essa mudança extingue a vida que não nos conformamos, embora tenhamos plena consciência de que nada poderemos fazer para mudar o evento morte, restando, no entanto, consolar a família e os amigos com orações. E foi justamente o que fizemos nesta quarta-feira (31), na celebração da Santa Missa de 7º Dia em homenagem à alma do amigo José de Oliveira Santana, na Igreja de N. S. da Conceição, em Itabuna.

José Oliveira Santana, mais conhecido como Zito Baú (pela estrutura avantajada do seu corpo), faleceu na quinta-feira (25 de março), após ter sido internado para se submeter a uma cirurgia cardíaca. Infelizmente, pelo que soubemos, o internamento lhe trouxe consequências desastrosas, por ter sido infectado pelo terrível vírus e ser acometido pela Covid-19. Triste partida.

Não sei se é dado ao direito de algum filho de Deus escolher quando partirá para a eternidade, mas acredito que foi em data imprópria, pelos simples motivos de não ter se despedido da grande legião de amigos, bem como comemorar seu aniversário. E faltavam poucos dias para a efeméride, já que no dia 14 de abril próximo Zito completaria 82 anos de vida, e bem vivida, para ser mais claro.

Aos que não tiveram a felicidade de conhecê-lo ou desfrutar de sua amizade, Zito Baú era uma daquelas pessoas que Deus colocou no mundo para fazer o bem – sem olhar a quem, da forma mais indistinta possível. Foi assim na sua infância, adolescência, continuando quando adulto até o seu desaparecimento, não havendo registro algum de uma pessoa desafeta ou ex-amigo.

De fala fácil, sabia ser o amigo, o conselheiro. Somente ele sabia subir o tom de voz na medida certa ao repreender um amigo, sem deixar qualquer mágoa, ao contrário, solidificando a amizade. E procedia de maneira simples – como ele – nos campos de futebol (baba, pelada), ao expor sua filosofia de que não bastava ao garoto ser um grande craque e sim um cidadão. Chorava quando algum deles desvirtuava.

E assim, desde os meados dos anos 1950 – quando o conheci – gastava seu tempo a praça (jardim) dos Capuchinhos aconselhando a garotada a estudar para jogar nos seus times de baba ou no Botafogo juvenil do bairro da Conceição, do qual era técnico. E para convencer os futuros craques, rádio de pilha no ouvido, se inteirava das resenhas dos grandes centros futebolísticos como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Ilhéus e Itabuna.

Ali mesmo na pracinha reunia a garotada no comecinho da noite para incentivá-los a jogar o bom futebol, ter um bom comportamento na escola e na sociedade, ter uma boa e rendosa profissão. E ele fazia os comparativos com os famosos jogadores de futebol do Brasil, citando muitos dos quais abandonavam os estudos em troca de uma carreira curta e às vezes desagradáveis.

No time de Zito Baú, aos jogadores não bastavam saber defender, construir, atacar e fazer gols. Eles tinham que saber driblar as adversidades da vida, aprender a construir uma vida sólida. Muitos dos que não gostavam desses conselhos e, mesmo que buscassem espaço em outros times, não deixavam de escutar o conselheiro Zito Baú e continuavam amigos para o resto da vida.

E o mesmo exemplo que pregava aos outros praticava consigo mesmo. Estudou com afinco para ser aprovado no concurso da Ceplac, onde se aposentou, e continuou sua carreira acadêmica, diplomando-se em Direito, seguindo a advocacia. Com todos os afazeres profissionais, Zito nunca deixou de viver sua vida no pacato bairro da Conceição, cercado de amigos.

Ele deixou como um dos seus exemplos bem-sucedidos aos pretendentes a craques: No Botafogo juvenil – onde era o treinador – aconselhava a garotada a estudar para fazer concursos, a exemplo do Banco do Brasil, um sonho para uma carreira de sucesso. E o primeiro a ser aprovado no concurso foi Sinval, que se tornou um exemplo a ser citado por Zito, tanto assim que em seguida Raul Vilas Boas e outros tantos foram aprovados.

Que o despojamento e os ensinamentos de José de Oliveira Santana – Zito Baú, nome em que era mais conhecido – sirvam de exemplo às novas gerações, para que possam analisar como um paradigma a ser seguido. Por ora, nos resta dar um adeus ao amigo, orientador, conselheiro, psicólogo, advogado, e dizer que os que aqui ficaram continuarão sentido muito a sua falta. Até mais!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

MARÃO, A EMBASA E O ÚLTIMO PEDIDO PÚBLICO DE MÃE LAURA

O prefeito e a mãe de santo, que, antes de falecer no último sábado (27), manifestou publicamente o desejo de que estação elevatória de esgoto não seja construída no local da Festa de Iemanjá
Tempo de leitura: < 1 minuto

Thiago Dias

O feminino desempenha papéis centrais na dinâmica matriarcal de boa parte dos terreiros de candomblé. Posiciona mulheres – muitas delas negras – na liderança de comunidades, algo fora da curva numa sociedade patriarcal. Esse era o caso de Mãe Laura, que faleceu no último sábado (27), no Hospital de Ilhéus, vítima da Covid-19.

O prefeito Mário Alexandre (PSD), segundo nota da Secretaria de Comunicação, expressou “as suas mais sinceras condolências a todos os amigos, familiares e admiradores de Mãe Laura”.

Reinvestido do cargo mais importante do município, após a vitória grandiosa de 2020, Mário pode fazer mais do que uma manifestação de sentimento para honrar a memória de Mãe Laura.

Pode, por exemplo, realizar o último desejo manifestado publicamente pela mãe de santo, que se posicionou contra a instalação de um equipamento da Embasa no local onde, durante quatro décadas, ela organizou a Festa de Iemanjá, um dos festejos mais bonitos e tradicionais da cultura popular de Ilhéus.

Foi a Prefeitura de Ilhéus que cedeu à Embasa o terreno dentro da Maramata, local da celebração sagrada para o candomblé. Por isso, uma canetada do prefeito pode evitar que a estação seja construída ali. Afinal, município e Embasa têm recursos para desapropriar outro espaço com as condições topográficas exigidas pela boa técnica dos engenheiros.

Já o bom senso político, atravessado pela cultura, religião e economia, recomenda o tombamento da Festa de Iemanjá como patrimônio cultural de Ilhéus e a construção de um busto de Laura na Maramata, que poderia muito bem passar a ser chamada pelo nome da mãe de santo.

Nessa miragem, posso ver a Universidade Livre Mãe Laura ao lado da Praça Padre Luiz Palmeira.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

HAROLDO LIMA E A “QUEBRA DO CACAU NO PÉ DO PAU”

Tempo de leitura: 2 minutos

Quando Haroldo Lima foi convidado a fazer uso da palavra parece ter feito uma viagem de volta ao passado, lembrando de que, quando estava na clandestinidade, perseguido pela força policial da Ditadura Militar, atuou como trabalhador rural nos municípios de Buerarema, São José da Vitória e Arataca…

Wenceslau Júnior

Hoje recebi um telefonema do amigo Lucas Costa, ex-secretário de Agricultura e Meio Ambiente do Município de Arataca.

Ele fez questão de manifestar o seu pesar pelo falecimento do nosso querido Haroldo Lima.

Logo hoje, 26 de março, Dia do Cacau, dois dias após o falecimento de Haroldo e um dia após o aniversário do Glorioso Partido Comunista do Brasil.

Uma história curiosa me chamou a atenção e jamais poderia guardá-la comigo.

Lucas lembrou de uma reunião ocorrida na campanha eleitoral do ano de 1998, ocasião na qual Haroldo Lima foi candidato a deputado federal e Davidson Magalhães a deputado estadual.

O cenário: umas dezenas de pessoas na porta do estabelecimento de um outro “cabo eleitoral” conhecido como “Zé do Caixão”, já falecido. Todos em pé no meio da rua. Uma caixa de som e um microfone improvisados. Lucas e Zé do Caixão apresentavam seus candidatos a Deputados.

Quando Haroldo Lima foi convidado a fazer uso da palavra parece ter feito uma viagem de volta ao passado, lembrando de que quando estava na clandestinidade, perseguido pela força policial da Ditadura Militar, atuou como trabalhador rural nos municípios de Buerarema, São José da Vitória e Arataca, período no qual se dedicou a “recrutar” e formar militantes rurais para resistirem à Ditadura.

Mirando uma mata que podia ser vista por todos, Haroldo Lima apontou para ela e disse: “Baixinhos, eu já quebrei muito cacau no pé de pau nestas matas de Arataca”.

Alguns permaneceram em silencio, outros cochicharam nos ouvidos daqueles que estavam ao lado. Um ar de desconfiança pairava no ar.

Evento encerrado, Haroldo e Davidson seguiram viagem com a comitiva e a turma permaneceu no bar de Zé do Caixão para bebericar e jogar sinuca.

Aí foi aquele alvoroço: “o que ele quis dizer com isso? Quebrar cacau no pé do pau?”

Muitos duvidando da história de Haroldo Lima trabalhador rural. Outros querendo entender a expressão, outros rindo da cara de Haroldo.

Quando Lucas explicou que nessa época costumava chover muito na região, o que dificultava a colheita e transporte do fruto na “cabruca” (cacau plantado sob a mata). Por tal razão os trabalhadores colhiam o fruto, colocavam nas raízes das árvores frondosas umas folhas de bananeira para servir de anteparo e não sujar a poupa e ali mesmo quebravam o cacau, dispensando a casca e coletando apenas o caroço. Tal pratica facilitava o transporte para as barcaças, pois reduzia o peso e o volume.

Lucas finalmente disse: “vocês estavam duvidando do homem e o homem mostrou que conhece mais de cacau de que vocês todos”.

Haroldo Lima e Davidson angariaram alguns votos e nossa amizade com Lucas que até hoje permanece sólida.

Wenceslau Júnior é ex-vereador de Itabuna e professor da Uesc.

NÃO SE PODE NATURALIZAR BOLSONARO E BOLSONARISTAS

O presidente Jair Bolsonaro
Tempo de leitura: 3 minutos

Bolsonaro não pode ser tratado como um político comum. É um criminoso que tem nas costas a reponsabilidade da morte de 300 mil brasileiros.

Carlos Pereira Neto Siuffo

Sempre foi comum se ouvir a frase “não se deve brigar por política, religião e futebol”. É uma máxima de origem conservadora, brandida normalmente por pessoas que se consideravam “neutras” ou que diziam “não gostar de política”. O futebol entra de gaiato na história.

Tal frase poderia ter até sentido em períodos de normalidade política, nos jogos eleitorais das pequenas políticas provincianas, onde cada qual buscava as suas melhoras dentro das ofertas dos grupos políticos em contenda (processos fisiológicos de atendimento das necessidades de sobrevivência das pessoas, onde quase nulas as ofertas de trabalho e de acesso por meio de concursos públicos). Comuns os atritos ocasionais, os xingamentos, mas logo superados; as mesmas pessoas transitavam de um grupo para o outro conforme as possibilidades de êxito (ainda transitam).

Pessoalmente, acho que se deve brigar por política e religião. Falo da grande política, daquela que visa efetivamente transformar o mundo e a vida das pessoas. Não se pode aceitar o mascaramento segundo o qual todos são iguais (não são), tem que se desvelar o que não é normalmente visto, mostrar que existe luta de classes e que uns são beneficiados pela suposta normalidade das coisas. Na religião há que ter respeito à todas (o Estado é laico), mas não se pode aceitar o pensamento reacionário de interpretações preconceituosas, tem que se discutir, sim, demonstrar que aquele Jesus pregado não pode nunca ser o bíblico (é o Jesus do pastor malandro). Tem que ter o diálogo, mas não pode se aceitar a homofobia, o racismo, a misoginia, o preconceito contra religiões diversas; tem que brigar contra e muito.

Normalmente quem professa tal frase quer ficar no escondidinho dos seus preconceitos e/ou privilégios. Quer ficar no panteão da sua acomodação.
Já no futebol não tem por que brigar, tem que brincar, gozar o amigo torcedor do outro time. É desporto, brincadeira. Torcidas organizadas violentas são organizações políticas de natureza fascizantes (não fazem parte da naturalidade da coisa).

Já o Bolsonaro e os bolsonaristas, em regra, são fascistas. Não são políticos simplesmente conservadores interessados apenas em conservar o seu “status quo”. Bolsonaro não pode ser tratado como um político comum. É um criminoso que tem nas costas a reponsabilidade da morte de 300 mil brasileiros – em razão de um política sanitária genocida. Em diversas ocasiões defendeu tortura, ditadura, extermínio de índios, adversários e quilombolas (negro pesado em arroba). A mídia, todos os dias, mostra a corrupção das rachadinhas.

Desse modo, Bolsonaro e bolsonaristas são criminosos e assim devem ser tratados. Faço ressalvas para a massa de evangélicos, em verdade ignorantes e manipulados, que devem ser disputados religiosa e politicamente (o que não quer dizer que não são perigosos em face do fanatismo).

A rigor, com o julgamento da suspeição do Moro, o TSE deveria anular as eleições, e não só por isso, pois há as fraudes das Fake News. A eleição de Bolsonaro foi fruto de crimes e golpe.

Bolsonaro deve ser derrubado, julgado( com o devido processo legal,mas os seus crimes são gritantes) e condenado.

Carlos Pereira Neto Siuffo é professor de Direito da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).

O HAROLDO LIMA QUE EU CONHECI: DA ESTADUALIZAÇÃO DA FESPI À CRIAÇÃO DA UESC

Haroldo Lima, de camisa branca, compondo a mesa de ato em defesa da estadualização da Fespi, episódio histórico lembrado no artigo de Élvio Magalhães
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Foi na transição da Fespi para a Uesc que Haroldo Lima pôde despontar para minha geração como o que sempre foi: um orador brilhante, um dirigente afetuoso, um político estudioso, um defensor das causas da Bahia e do Brasil.

Élvio Magalhães || Para José Junseira e Adnaelson Amparo, “emarquianos uesquianos”

Numa madrugada de inverno de 1986, a pequena célula “emarquiana” do PCdoB iria fazer sua primeira ação eleitoral: colar nos alojamentos masculinos a propaganda de Haroldo Lima para deputado federal. Balde, soda cáustica, farinha de trigo, vassoura. Ainda guardo no rosto respingo da cola e a cicatriz da ferida e, no coração, os tempos idos de descoberta e rebeldia.

Na Emarc-Ur me fiz comunista, entre leituras amadianas e artigos de Haroldo, aquele deputado, líder do PCdoB, que emergia da clandestinidade como fênix, após vinte anos de arbítrio de uma ditadura militar feroz e implacável, que espancou, torturou, assassinou, prendeu e baniu.

No ano de 1986 haveria eleições para a Assembleia Constituinte, e os comunistas baianos do sul buscavam reeleger Haroldo Lima. Militante oriundo da Juventude Universitária Católica (JUC), um dos responsáveis pela incorporação da Ação Popular ao PCdoB, ele enfrentou a ditadura, resistiu à tortura, ao cárcere e à barbárie de cabeça erguida. E venceu!

A chegada na Fespi de parte daquela célula da Emarc foi uma alegria. Na entrada, Ramon Vane recitando o “Poema Sujo” de Ferreira Gullar e o megafone de Déa Jacobina, a carismática líder estudantil, nos davam boas-vindas. Foi na transição da Fespi para a Uesc que Haroldo Lima pôde despontar para minha geração como o que sempre foi: um orador brilhante, um dirigente afetuoso, um político estudioso, um defensor das causas da Bahia e do Brasil.

Em 1987, a crise no modelo híbrido (subfinanciamento pela Ceplac, complementado pelas mensalidades), que sustentou a Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna desde sua fundação, tinha chegado ao auge. No movimento estudantil, o PCdoB dirigia o DCE e organizava a luta contra aumentos de mensalidades e pela estatização. Neste ano o deputado Haroldo Lima consegue um recurso extra no Ministério da Educação do governo Sarney, que possibilita à FESPI pagar os salários dos professores e seguir sem onerar os estudantes, congelando as mensalidades.

Mas é no ano de 1988, com as palavras de ordem “parar pra acertar” e a campanha “Ô estadualiza ou pifa”, que foi possível o desencadeamento de uma greve com o qual o movimento estudantil e acadêmico arrancaram, após 7 meses de intensa mobilização política, a estadualização da Fespi e a gratuidade do ensino. Deste processo participaram intensamente a militância do PCdoB e o deputado federal Haroldo Lima. O governador Waldir Pires, antevendo o futuro, queria federalizar a Fespi, com o correto argumento de que era preciso investimento federal no ensino superior da Bahia, o que só viria acontecer 25 anos depois, com a criação, pela presidenta Dilma Rousseff, da Universidade Federal do Sul da Bahia.

No início dos anos 90, quando a transição da Fespi para universidade se alongou e o impasse institucional se deu em função do Patrimônio da Universidade e outras burocracias, foi de novo Haroldo Lima quem construiu a saída. Mesmo um tenaz opositor do então governador Antônio Carlos Magalhães, Haroldo utilizou de sua amizade com o deputado Luís Eduardo Magalhães, vizinho de apartamento funcional em Brasília, para relatar as dificuldades institucionais da Fespi e cavar uma audiência da comunidade universitária com o então governador ACM. Presente na reunião, vi quando ACM se dirigiu a Haroldo Lima e disse: “Haroldo, você não precisa de intermediários para falar comigo!”.

Desta reunião ficou decidido que a Fespi seria estadualizada e viraria a Universidade Estadual de Santa Cruz – Uesc, o que de fato ocorreu meses depois, numa solenidade no auditório do Pavilhão Jorge Amado, onde o então estudante Wenceslau Jr., recém-eleito presidente do DCE, foi intensamente aplaudido pelos presentes, como reconhecimento da condução vitoriosa do movimento estudantil para aquele desfecho. A maior conquista da minha geração.

Ultimamente, conversava com Haroldo sobre sua participação na vice-liderança da Comissão Permanente do Índio, presidida pelo deputado xavante Mário Juruna, que deu origem à atual Comissão dos Direitos Humanos e Minorias, os avanços conquistados na Constituição de 1988 e a luta dos povos indígenas pelos seus direitos. Não deu tempo de levá-lo à Marcha dos Tupinambás em Olivença, como combinado.

A nefasta política genocida do governo Bolsonaro, que boicotou vacinas e protocolos (e certamente colaborou para a morte prematura de Haroldo e de quase 300 mil vítimas da covid-19 no Brasil), só me faz ter a certeza da necessidade da construção de uma frente ampla, como defendia Haroldo, para que possamos derrotar o fascismo negacionista e descortinar o futuro de prosperidade para o povo brasileiro.

E, quando tudo isso passar, haveremos de fazer uma grande homenagem a este homem público imprescindível. Tomara que a Uesc esteja presente.

Haroldo Lima Vive!

Élvio Magalhães presidiu o Diretório Central dos Estudantes Carlos Mariguella, da Uesc; é membro da direção estadual do PCdoB na Bahia e assessor do deputado estadual Fabrício Falcão (PCdoB).

O TEXTO É APAIXONADO, MAS EU TENHO LICENÇA POÉTICA PARA TAL

Foto José Martins
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Uma ação ousada, pioneira no país, que dá um fôlego de boas energias a todos os envolvidos. Avante, Itacaré!

Manuela Berbert || manuelaberbert@yahoo.com.br

Vou logo adiantando que esse texto pode parecer apaixonado demais para alguns, mas estamos no Mês das Mulheres e por isso tenho licença poética para tal, instituída de mim para mim mesma, afinal não é novidade para ninguém a personalidade forte igual a pimenta: só acompanha as opiniões quem aguenta! Rs!

Brincadeiras à parte, a verdade é que venho nutrindo uma paixão arrebatadora por Itacaré. A cidade, que eu mesma achava até alguns anos um lugar belíssimo, mas sem o apelo sofisticado que os centros turísticos tinham, só me surpreende. E escrevo não somente como apreciadora das praias, restaurantes e pubs inusitados, mas como empreendedora. Ousei abrir a primeira loja física da marca Cola Na Manu no centro turístico dela, na Pituba, mesmo sabendo das limitações da pandemia, e também por isso sigo acompanhando todas as News, inclusive da atual gestão.

Hoje, 21 de março de 2021, a prefeitura local lançou uma campanha inusitada, oferecendo descontos médios acima de 30% em itens que vão de hospedagem a alimentação, incluindo equipamentos de lazer e bem-estar, para os profissionais de saúde. Reconhecimento, gratidão e acolhimento a médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissões, movimentando o trade turístico e fazendo a máquina econômica girar.

Em outras palavras, os profissionais de saúde terão descontos, cortesias em hotéis, pousadas, bares e restaurantes. Até guias turísticos estão entrando na campanha para atender com preços reduzidos de até 50%. Apesar de Itacaré ter barreira sanitária e uma taxa de infecção baixa, a campanha não é para lotar a cidade no próximo final de semana, por exemplo. Pelo contrário. Os profissionais poderão adquirir seus pacotes, se programar e usá-los até novembro. Uma ação ousada, pioneira no país, que dá um fôlego de boas energias a todos os envolvidos.

Avante, Itacaré!

Manuela Berbert é publicitária.

A POLÍTICA SE JULGA POR ATOS CONCRETOS

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
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Lula, no imaginário popular, é uma figura muito maior do que o Lula de carne e osso. Lula não é só maior do que o PT, é maior do que ele próprio.

Carlos Pereira Neto Siuffo

1 – O discurso de Lula após as anulações dos processos por Fachin foi um grande acontecimento político.

2- Foi um discurso político com centro correto, priorizou a luta concreta e imediata, não colocou os carros na frente dos bois. Não se poderia ali exigir uma autocrítica dos erros passados (vi artigos cobrando isso).

3- Lula, no imaginário popular, é uma figura muito maior do que o Lula de carne e osso. Lula não é só maior do que o PT, é maior do que ele próprio.

4- Na força e no tamanho de Lula estão as virtudes e defeitos (os perigos). Ele pode ser o grande alinhavador da unidade das forças de esquerda, desde que use o seu tamanho para a construção de um programa mínimo de unidade e promova, junto com o conjunto, um calendário de lutas e de ações concretas para combater a pandemia e o a política neoliberal do desgoverno Bolsonaro. Mas, ele sofre uma grande pressão da direita petista e aí poderá vir a fazer alianças e concessões à direita, que serão mais problemas para as soluções dos infortúnios populares. Também o poder do chamado mercado pressiona para que se mantenha a atual política fiscal. Há também o risco do Lula de carne e osso, com as suas tendências conciliadoras (superadas, espero).

5- A esquerda ao lulismo não poderá ficar refém. Deverá tocar as suas lutas e participar das ações de unidade. A luta hoje é por vacina, auxílio emergencial de R$ 600 e para organizar no dia a dia as massas populares.

6- A força na luta política não se dá pela retórica. Ela é fruto da realidade concreta. Não se é temido pelo grito.

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UM ELIXIR TOMBANTE, URGENTE!

Tempo de leitura: 2 minutos

É, meu amigo, quanta falta você vai fazer! Agora, só tomando aquele “elixir tombante” pra aguentar a saudade.

Ricardo Ribeiro

Solon Cerqueira era uma figura que não passava despercebida. Espirituoso, inteligente, inquieto, era o centro da roda, o contador de causos, provocador de boas risadas. Foi diretor de rádio, fez campanha política, montou uma fábrica de cosméticos, o cara inventava mil e umas.

Trabalhamos juntos lá pelos idos de 2005 e ele logo ganhou naquela época, por motivos óbvios, o apelido de Monteiro Lobato. Tinha histórias incríveis, como a de quando foi convidado para montar um receptivo na reserva ambiental de Una para ninguém menos que o Duque de Edimburgo, durante visita do membro da família real britânica ao Brasil.

A forma como contava essa e outras histórias, reais e imaginárias, era única e a risada era inevitável, daquelas de doer a barriga.

As missões que a vida nos apresenta afastaram-nos, mas sempre conversávamos por telefone. No ano passado, encontrei-o junto com o também amigo Robson Hamil. Almoçamos e relembramos os velhos tempos. Não sei por que, mas na ocasião o achei mais sério e preocupado que de costume.

Ele iria fazer um trabalho político na cidade onde moro atualmente, mas veio a pandemia e os planos mudaram. Depois disso, voltamos a nos falar algumas vezes por telefone, inclusive no mês de julho, quando eu e minha esposa contraímos Covid e ele ligava todos os dias para ter notícias.

Esse era Solon. Amigo, solidário, muito sincero e o mais engraçado da turma. Quando o nosso querido amigo Antônio Lopes, jornalista e escritor, assumiu uma cadeira na Academia de Letras de Ilhéus, Solon não teve dúvidas e passou a tratá-lo cerimoniosamente como “imorrível”.

Em fevereiro, soube que Solon estava com Covid e havia sido internado. Nem tive tempo de ligar, como ele fez tantas vezes quando eu estava com esse vírus maldito. Tinha muita fé que nosso Monteiro Lobato sairia dessa e cheguei a imaginar o dia em que sentaríamos diante de uma mesa para ouvi-lo contar sua batalha pela vida.

É, meu amigo, quanta falta você vai fazer! Agora, só tomando aquele “elixir tombante” pra aguentar a saudade. Aí no plano superior, bate aquele papo com o Pai e apela em favor dos seres inferiores que permanecem aqui na Terra. A coisa tá feia, meu parceiro!

Ricardo Ribeiro é delegado de polícia.

APRENDIZADO NA VIDA!

Peixoto: abastecimento normalizado
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Nunca esqueça, a maior riqueza do homem é a família, os amigos, os colaboradores. Ninguém é feliz sozinho.

 

José de Carvalho Peixoto

Na minha vida aprendi a valorizar o trabalho, valorizar as pessoas.

Aprendi a ser simples, a não ser arrogante.

Aprendi a ficar no lugar do outro em caso de reclamação.

Aprendi a pensar antes de agir.

Meu querido pai sempre me dizia: “Pedra que muito se muda, não cria limo”.

Resolvi enraizar na minha querida Itabuna, povo simples e acolhedor.

A vida é passageira, a gente vem do pó e ao pó voltaremos.

Sabe porque muita gente quebra a cara na vida?

Porque acredita no errado.

Duvida do certo.

Acredita na impunidade.

Abandona o verdadeiro.

Valoriza o falso.

Esquece que existe a Lei do Retorno.

Não acredita em Deus.

Assim, nada dá certo.

Pense positivo, acredite em Deus, Nosso Ser Supremo.

Acredite em você!

Não existe nada pior que não possa piorar, mas também não existe nada melhor que não possa melhorar.

“Lembre-se: um sonho sem ação é simplesmente um sonho, mas um sonho com ação pode transformar a sua vida”!

A vida é uma dádiva de Deus!

Nunca esqueça, a maior riqueza do homem é a família, os amigos, os colaboradores.

Ninguém é feliz sozinho.

José de Carvalho Peixoto é empresário.

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