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9 de agosto de 2020 | 11:00 am

MORRE O BISPO DOS POBRES, PEDRO CASALDÁLIGA, MAS DEIXA ETERNIZADA SUA MENSAGEM PROFÉTICA

Tempo de leitura: 2 minutos

Pedro morreu. É mais uma grande perda em 2020, mas sua mensagem profética está eternizada: “Malditas sejam todas as cercas que nos impedem de viver e de amar”(…). E “na dúvida, fique do lado dos pobres”.

Aldineto Miranda || erosaldi@hotmail.com

Casaldáliga era catalão de origem, e escolhe a América Latina para ser seu “chão” em 1970, em plena ditadura militar. Torna-se bispo em São Félix do Araguaia (Mato Grosso) e lá intensifica sua caminhada apostólica de opção pelos pobres.

Um bispo diferente. Dispensa a mitra (utilizada pelos pontífices) e a troca por um simples chapéu de palha. No seu dedo a sua opção preferencial pelos pobres é simbolizada pela utilização do anel de tucum ao invés do tradicional anel de ouro. Em sua vida, lutou contra todas as formas de opressão defendendo em especial os direitos dos povos indígenas; denunciou também o trabalho escravo, a colonização, as várias formas de opressão, sempre mantendo vivo o lema: “nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar, e, sobretudo, nada matar”.

Pedro, como gostava de ser chamado, afirmava que ser cristão era dividir, e lutar por uma sociedade justa e igualitária. Quando em entrevista ao Roda viva o questionam se ele era contra os ricos, ele afirma que a mensagem de Cristo era clara: o Pai nosso deveria reverberar em pão nosso também. Não que fosse contra os ricos, mas era a favor de uma sociedade em que não existissem nem ricos nem pobres, mas que todos tivessem iguais oportunidades e recursos e que todos pudessem ter dignidade.

Numa época que presenciamos os direitos dos povos indígenas sendo vilipendiados, o desrespeito para com a mãe terra, a Pachamama, como a terra é chamada no Peru e em outras partes da América Latina, em que estamos diante de uma pandemia que já ceifou a vida de 100.000 no Brasil, pessoas principalmente pobres, num momento em que também são noticiados vários casos de racismo e de discursos autoritários e preconceituosos. Nesse panorama social, o Casaldáliga é uma luz para o Brasil e toda a América Latina, um exemplo de vida e de verdadeira humanidade, um exemplo daquele que buscou viver a mensagem de Cristo e de como deveria ser um verdadeiro cristão.

Em um momento em que a religião virou barganha, numa teologia da prosperidade egoísta e alienante, o Bispo dos Pobres nos mostra que o reino de Deus se manifesta no engajamento em prol da libertação do povo oprimido, daqueles que são marginalizados por àqueles que seja por sua posição econômica e/ou política se colocam como superiores.

Casaldáliga nos mostrou que Cristo está na mulher agredida, na prostituta desconsiderada, na criança abandonada, nos povos indígenas que são assassinados, no povo negro que sofre com o racismo e a violência cotidianamente, e no povo pobre que labuta dia-a-dia pela sua sobrevivência.

Pedro morreu. É mais uma grande perda em 2020, mas sua mensagem profética está eternizada: “Malditas sejam todas as cercas que nos impedem de viver e de amar”(…). E “na dúvida, fique do lado dos pobres”.

Aldineto Miranda é professor de Filosofia do Instituto Federal da Bahia (IFBA).

ANTÔNIO OLÍMPIO E A IMPRENSA INDEPENDENTE

Tempo de leitura: 3 minutos

Se eu agora pago essa mensagem os maledicentes, inimigos de Ariston, vão dizer que eu comprei a opinião dele. Isso será péssimo, pois as pessoas vão achar que o Diário da Tarde não é mais independente. E eu defendo, como ele sabe, a imprensa independente…

 

Antônio Lopes || abcdlopes@gmail.com

Antônio Olímpio fez em Ilhéus, de 1976 a 1981, o que se chamou Governo da Renovação: substituiu João Lyrio, um prefeito discreto, que, como se diz, chegou mudo e saiu calado. O que em João Lyrio parecia ausência de vocação para o cargo, encontrou em AO (aos 45 anos, advogado e professor) o oposto: vontade de mudar a cidade, transformar, sacudir a poeira do marasmo. Urbanizou ruas, construiu uma nova Central de Abastecimento, transferiu a grande feira de Ilhéus da Dois de Julho para o Malhado, atualizou a legislação sobre uso do solo, doou ao município o velho “Cine Theatro Ilheos”, então patrimônio da família Rhem.

Esse dinamismo como prefeito lhe amealhou popularidade e reconhecimento bastantes para eleger-se deputado estadual, com mandato de 1983 a 1986. Na ALBA (em tempo anterior a esta mania das siglas), teve atuação notável: foi presidente da Comissão de Agricultura e Política Rural e titular das Comissões de Turismo, de Minas e Energia, de Ciência e Tecnologia, de Saúde e Saneamento e de Empreendimento Social, dentre outras.

AO teve seu tempo sabático, voltou à pescaria, à culinária e ao papo com os amigos, três passatempos que o identificam, retornando aos palanques só no começo dos anos noventa, quando se elegeu, outra vez, prefeito de Ilhéus para o período de 1993 a 1996, e logo levou seus admiradores a uma indagação machadiana: “Mudaria Antônio Olímpio ou mudamos nós?”

O fato é que o novo AO não tinha o mesmo ímpeto do primeiro mandato: mostrava-se desmotivado, sem “apetite” para o exercício da função. Aparecia (quando aparecia) nas solenidades oficiais com evidente tédio. Mal comparando: um João Lyrio intelectualizado, verve em dia, ironia à flor da pele, pronta pra ser sacada contra os críticos. Ia mal a administração, os problemas se acumulavam. Um deles, as muriçocas, que infernizavam, em zumbidos e picadas, a vida do ilheense.

Certa feita, o delegado regional Luís do Amaral Carneiro, com ares de autoridade, interpelou AO, de público: “Não é possível continuar desse jeito, com as muriçocas me chupando a noite inteira!” Foi mal. A resposta de AO, em alto e bom som, imprópria para ouvidos pudicos, bendizendo a sorte que o Dr. Luís tinha, naquela idade etc., fez do bravo delegado um inimigo, por muitos dias.

Tempos depois, descontraídos entre copos de cerveja, Carlos Farias, amigo de longa data, levantou a indagação famosa. “O que mudou entre um mandato e outro?”

– O dinheiro – responde AO, sem pestanejar. E explica que, na primeira gestão, o programa chamado Caritas “municiou” a Prefeitura de Ilhéus. Na segunda, os cofres estavam vazios o tempo inteiro. Elementar, meu caro Farias: Sem dinheiro, não há administrador que preste…

Pra terminar: na segunda gestão de Antônio Olímpio, o Diário da Tarde estava em mãos de Ariston Cardoso – advogado (primeira turma de Fespi), ex-prefeito (Arena) e crítico do prefeito – e num dia sim, no outro também, estampava títulos nada lisonjeiros ao chefe do executivo. AO, na dele, engolia tudo, adotando a filosofia de que “o bom cabrito não berra”. Num 28 de junho, Dia da Cidade, quando o jornal aproveitava pra faturar uma publicidade extra em forma de saudação oficial aos munícipes, vai um desavisado representante do DT procurar o prefeito, com a proposta de “uma mensagem de página inteira por apenas…” AO, com toda a educação de que é portador, fez entrar o sujeito incauto, deu-lhe cafezinho, saudou-o no “como vai, como passou”, “a quantas anda o preço do cacau”, elogiou a iniciativa das mensagens, descontraiu o homem e exarou a sentença, final e irrecorrível:

– Por favor, diga a Ariston que eu gosto muito dele e do Diário da Tarde, mas não posso autorizar esta despesa. Sinto muito por isso.

– !!!

– É que o jornal bateu em mim o tempo todo. Se eu agora pago essa mensagem os maledicentes, inimigos de Ariston, vão dizer que eu comprei a opinião dele. Isso será péssimo, pois as pessoas vão achar que o Diário da Tarde não é mais independente. E eu defendo, como ele sabe, a imprensa independente…

Antônio Lopes é jornalista e escritor.

EU PROMETO, EU GARANTO, TUDO FULEIRAGEM!

Tempo de leitura: 3 minutos

Como não terá mesmo o emprego a dar ao companheiro de lutas, o prefeito vai se levantando e se despede argumentando que a política é uma atividade onde grassam as traições, por isso entende a decepção do amigo, mas que vai fazer de tudo para conseguir uma colocação.

Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com

Os políticos possuem artimanhas que “até Deus duvida”, costumam dizer os analistas e pessoas experientes dos bastidores da área política. E todas esses artifícios são utilizados para sair de situações embaraçosas, como justificativas pelo não atendimento das promessas largamente cumpridas durante as sucessivas campanhas eleitorais.

Para conseguir o voto, além do trabalho dos cabos eleitorais, os candidatos e os dirigentes de partidos fazem de tudo, desde a simples promessa de promover o bem-estar da população com os serviços públicos até a garantia de empregos. Como uma parte do eleitorado não está trabalhando, a promessa é a tábua da salvação; para a outra parte, o que interessa mesmo é estar mamando nas tetas da viúva, e com todas as forças.

Mesmo sendo conhecedores das falsas promessas dos políticos irresponsáveis (a grande e consagradora maioria), o eleitor faz vistas grossas, pois também tem suas treitas artes e manhas para enganá-los. Uma delas é se comprometer com todos os candidatos, garantindo milhares de votos para cada um deles, embora tenha consciência de que nem mesmo o seu será consagrado nas urnas.

E eles – os políticos – são os que mais utilizam esse expediente para conseguir votos: Enquanto alguns prometem governar com o povo, de gabinete aberto para atender os eleitores de antes, hoje simples munícipes, outros juram – de pés juntos – que darão empregos para toda a população, além de um pacote infindável de benesses impossíveis de cumprir. E todos conseguem enganar a população. E a população a eles.

O que vale mesmo é o modus operandi utilizado por todos, beirando ao escárnio e à zombaria, para não dizer vulgar e ridículo, seguido à risca por toda a assessoria dos candidatos, treinados à exaustão. Melhor não fariam os consagrados atores para enganar os incautos (às vezes, nem tanto) eleitores que buscam os candidatos para solucionarem seus problemas, antes da eleição, é claro.

Já devidamente eleito e empossado, é chegada a hora de se ver com o eleitorado, pagar as promessas feitas durante a campanha, até mesmo para quem não reconhece mais, embora saiba que será procurado. Mas não importa, se usou de artimanhas antes do pleito, não será agora, vencida a eleição, que não saberá despachá-los com novas promessas para os velhos pedidos.

Assim que o eleitor consegue adentrar o gabinete do prefeito – guarnecido por guarda-costas que mais parecem guarda-roupas –, o que considerado um ato de sorte, após os cumprimentos e elogios de praxe, começa a relatar suas dificuldades de sobreviver sem emprego. Conversa vai, conversa vem, até que lembra a velha promessa de um emprego público assim que o sus excelência tomasse posse. E ele estava à disposição para começar logo.

Sem perder a calma, de forma dissimulada, o prefeito eleito reclama que envidou muitos esforços para tentar atender à promessa feita ao distinto correligionário, mas explica ter sido ele o culpado, pois teria prometido entrar no gabinete junto com os amigos, inclusive ele, que não deu as caras. Após mais algumas reclamações pelo abandono do eleitor, afirma que todos os cargos já estão lotados pelos eleitores que não o abandonaram.

Mas se o eleitor for da quota de outro partido coligado, ai a desculpa – mais esfarrapada, ainda – é outra:

– Olhe, companheiro, pensei muito em você, que lutou com muita garra em minha campanha, mas sabe como é, pelo acordo feito, quem indica os companheiros é o partido, que me manda uma lista com todos os nomes. Infelizmente, seu nome não consta dela, o que estranhei. Houve algum desentendimento com os dirigentes? – pergunta fingindo compaixão.

Como não terá mesmo o emprego a dar ao companheiro de lutas, o prefeito vai se levantando e se despede argumentando que a política é uma atividade onde grassam as traições, por isso entende a decepção do amigo, mas que vai fazer de tudo para conseguir uma colocação. Diz que precisa só de um pouco de tempo para arrumar a casa, pois herdou uma herança maldita, tudo desarrumado.

– Assim que tiver tudo nos trinques, mando lhe buscar em casa.

E assim, nosso experiente político consegue despachar mais um eleitor desiludido.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

PORTUGAL, “MAIO 68”, ACM E O AUTOEXÍLIO DE RAIMUNDO SODRÉ

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Acuado, o artista decidiu pelo autoexílio na França, voltando dez anos depois. Apesar do longo período, Raimundo Sodré não foi esquecido.

Marival Guedes || marivalguedes@yahoo.com.br

Jorge Portugal compôs a belíssima Maio 68 em parceria com Roberto Mendes. Simone, no auge da carreira artística, ouviu, gostou e pediu a Portugal pra gravar, mas não pode ser atendida. Havia o compromisso com o parceiro Raimundo Sodré que fazia sucesso com a Massa, autoria da dupla.

Maio 68, que retrata com maestria os movimentos políticos, sociais e culturais na França e no Brasil naquele período, criava expectativa de sucesso.

Mas tudo mudou repentinamente por causa da realização de um comício da campanha de Clériston Andrade em Aquidabã, Salvador, em 1981, com o apoio do padrinho governador Antônio Carlos Magalhães.

Raimundo Sodré foi contratado e cantou antes dos discursos que haveria. ACM, o candidato ao governo e seus seguidores, ficaram em cima do arco da ladeira Nazaré-Barbalho. O povo, embaixo, na Baixa dos Sapateiros.

Vale lembrar que naquele ano a cidade fervilhava com vários protestos e uma “explosão” ocorreu quando, num ato do Movimento Contra Carestia, sindicatos e partidos na Praça Municipal, o sistema elétrico do local foi interrompido. No quebra-quebra em vários pontos da cidade, 350 ônibus foram depredados e dez incendiados.

Raimundo Sodré havia chegado de viagem e não sabia o que estava acontecendo. Começou a cantar A Massa e no embalo entoou: “Quebra-quebra guabiroba/Quero ver quebrar”, como se fosse um estribilho.

Pareceu uma senha. Contagiada pelas ações anteriores, a multidão começou a apedrejar os políticos que, em pânico, na base do salve-se quem puder, saíram em disparada, obviamente dentro das possibilidades físicas de cada um.

O vingativo ACM pensou que foi intencional e começou uma implacável perseguição contra o artista. Mandou que o hotel onde Raimundo Sodré estava hospedado o expulsasse, ligou para a gravadora para que o novo disco não fosse divulgado e pressionou as emissoras para não executarem suas músicas.

Acuado, o artista decidiu pelo autoexílio na França, voltando dez anos depois. Apesar do longo período, Raimundo Sodré não foi esquecido. Desde o retorno faz shows no Recôncavo, em Salvador e outros lugares. Agora, só faltam divulgar Maio 68.

__________

O texto acima foi escrito em 2015. A última vez que estive com Jorge Portugal foi em 2018, num encontro casual na porta da Assembleia Legislativa, onde acompanhei a gravação da história da música A Massa para o Canal Danilo Ribeiro. Falei, mais uma vez, que a bela composição Maio 68 deveria ser divulgada. Ele respondeu: “ Vou lhe contar um segredo, em off, estou conversando com Simone e vamos gravar um disco incluindo esta composição”.

Maio 68, A Massa e várias outras composições deixarão Jorge vivo no coração do povo baiano.

Marival Guedes é jornalista.

ELEIÇÕES DIGITAIS: TRUMP, TIK TOK E FACEBOOK

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Toda essa mobilização política e econômica é a prova de que as redes sociais podem ser decisivas para os rumos políticos de um país.

Andreyver Lima || andreyver@gmail.com

O banimento do Tik Tok nos Estados Unidos representa interesses comerciais e eleitoreiros para o país. A rede social que conquistou o mundo durante a pandemia é chinesa e sua operação é alvo de intensos ataques da Casa Branca por suposta prática de espionagem aos americanos.

Essa ameaça de banimento aumenta a pressão para que a ByteDance, que é a dona do Tik Tok, vendas suas ações para a Microsoft, onde poderia operar livremente dentro dos Estados Unidos. Se a hipótese se confirmar, a Microsoft assumiria todas as operações e, claro, teria o controle sobre os dados dos usuários, problema alegado pelo Governo dos Estados Unidos.

Em junho, Trump tinha um compromisso na cidade de Tulsa e na internet pessoas reservaram lugares para participar, no que seria o maior ato da campanha do presidente. Quando chegou a hora do evento, as arquibancadas estavam vazias graças a uma ‘trolagem’ de usuários do Tik Tok.

No contra-ataque, o Tik Tok acusa o Facebook de copiar funções de seu aplicativo e defende não ter agenda política, mantendo a plataforma dinâmica para que todos possam desfrutar da comunicação com usuários na plataforma.

Em 2018 Mark Zuckerberg, do Facebook, teve de se explicar ao Senado dos Estados Unidos, onde admitiu que sabia, que os dados estavam sendo coletados para direcionar conteúdos de maneira estratégica, durante a campanha eleitoral. Zuckerberg argumentou que sua empresa é “orgulhosamente americana que, diferentemente da rival chinesa, preza pelos valores ocidentais de liberdade e democracia”.

Toda essa mobilização política e econômica é a prova de que as redes sociais podem ser decisivas para os rumos políticos de um país.

Andreyver Lima é comentarista político no Jornal Interativa News 93,7 FM e editor do site sejailimitado.com.br.

GRANDES EXPERIÊNCIAS SÃO O NOVO NORMAL

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“Quantidade” saiu de cena, literalmente. No palco da vida, com toda a valorização que lhe é importante e que agora lhe foi permitido, entrou a “qualidade”.

Manuela Berbert || manuelaberbert@yahoo.com.br

Confesso que demorei um tempo para decidir acreditar no novo normal que tanto falavam. Por mais otimista que eu seja, no começo disso tudo lia muito sobre uma mudança de comportamento do ser humano que, aqui pra nós, não me parecia tão fácil. Quatro meses e meio depois do começo do isolamento social por aqui, ouso escrever que “grandes experiências são (e serão) o novo normal”.

Inúmeras transformações já vinham acontecendo para os donos de olhares mais atentos. Uma sequência de rompimentos pessoais como separação de casais aparentemente sólidos, rachaduras bruscas na imagem de personagens da vida real, troca de profissões etc. A corrida diária até nos permitia ver isso tudo se desenrolando, mas atravancava a reflexão sobre. A gente seguia o barco no fluxo do desenvolvimento e despejava nele a culpa (ou mea culpa). E pronto.

Aí veio a pandemia, o isolamento social e aos poucos estamos nos (re)encontrando com o mundo. Muitas empresas descobrindo que o home office funciona e que alguns colaboradores estão conseguindo até se cuidar melhor nesta fórmula; amizades de mesa de bar ficaram, literalmente, nas mesas de bares, e os reencontros permitirão o retorno das boas risadas, mas, talvez, não mais de tanta intimidade; relações mais sólidas foram descobertas, enquanto outras tiveram a clareza de realmente não comungarem dos mesmos planos e sonhos, e romperam para sempre.

“Quantidade” saiu de cena, literalmente. No palco da vida, com toda a valorização que lhe é importante e que agora lhe foi permitido, entrou a “qualidade”. Dos alimentos produzidos com carinho por aquela vizinha que a gente mal conhecia e que se descobriu confeiteira porque perdeu o emprego; das cestas de presente organizadas pelas vendedoras da nossa loja preferida, mas que já estavam sem a necessidade de nos cortejar; Inúmeros exemplos do dia a dia em um ciclo que estabelece o que ou quem é de verdade para cada um, e que de agora em diante será cada vez mais nítido, e fará cada vez mais sentido. Sigamos…

Manu Berbert é publicitária e especialista em marketing de conexões.

JORGE PORTUGAL, DA MASSA, DA BAHIA E DO MUNDO

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Jorginho soube viver e interpretar a sociedade e suas angústias em tempos sombrios e duvidosos. Fez parte de uma massa, aquele “massa dos homens normais”.  Teve sensibilidade e sofrer ao falar da massa, “a massa que falo é a que passa fome, mãe…”. Deixa uma obra imortal. Faz parte de uma daqueles baianos humanos imortais. Luto e saudade.

André Curvello

Alguém escreveu que o céu de Santo Amaro da Purificação tinha uma estrela a mais hoje. Recebi tantas mensagens, li tantos textos que peço desculpas pela preguiça de não procurar o autor. Mas, tenho que discordar em parte, pois não foi apenas o céu da terra de Caetano que ganhou mais uma estrela; foi o céu da Bahia e do Brasil.

A chegada de Jorge Portugal é certeza de festa entre as estrelas no céu brasileiro. A mim, só resta agradecer a Deus a oportunidade de ter conhecido e convivido com uma bela figura humana: gente na máxima expressão da palavra.

São várias recordações recheadas de carinho e admiração que vão desde a um encontro fortuito em pleno centro antigo de Roma a várias reuniões na Secretaria de Comunicação do Estado muitos anos depois. Mas, permita-me, poeta, dizer que o mais fantástico momento foi nos bastidores do ensaio de Maria Bethânia, numa quinta-feira, véspera da inauguração da nova Concha Acústica. E você disse pra rainha: “Vai, agora é com você. Estamos realizando um sonho”. E Bethânia te respondeu: “A inauguração não é hoje. O sonho só será realizado amanhã”.

De tantas pessoas que vibraram, não me lembro de uma vibrar tanto com a nova Concha quanto Jorge Portugal. Um entusiasta da cultura, das aulas de Português, um amante de fazer amigos. Um poeta, um sonhador, um ser humano da democracia e da liberdade. Um daqueles caras especiais que sentem “a dor do menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar… é a dor de nem poder chorar”.

Jorginho soube viver e interpretar a sociedade e suas angústias em tempos sombrios e duvidosos. Fez parte de uma massa, aquele “massa dos homens normais”.  Teve sensibilidade e sofrer ao falar da massa, “a massa que falo é a que passa fome, mãe…”. Deixa uma obra imortal. Faz parte de uma daqueles baianos humanos imortais. Luto e saudade.

André Curvello é secretário estadual de Comunicação e amigo de Jorge da Massa, da Bahia e do Mundo.

CALMA, MARÃO. OLHA A LITURGIA DO CARGO

Tempo de leitura: 3 minutos

Marão copia políticos mais velhos nas artimanhas e comportamentos ao tratar com eleitores durante a campanha eleitoral, demonstrando bastante intimidade quando na cata ao voto.

Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com

Por causa do título não deveríamos levar a sério a recomendação, por ter sido uma recomendação especial dos ex-presidentes José Sarney e Michel Temer, pois seria o mesmo que dizer faça o que mando, mas não o que faço. Mas o recado precisa ser dito ao prefeito de Ilhéus, Mário Alexandre, o Marão, pelo seu comportamento durante a visita a um dos bairros da cidade, o Vila Nazaré, em busca de voto.

Basta uma olhada na imagem – um pequeno vídeo filmado por alguém do povo, acredito – nota-se que não se tratava de uma visita de trabalho, ou uma passagem a caminho de outra localidade. Não, a imagem é proposital e representa um escárnio ao povo de Ilhéus, aquele mesmo que o prefeito – há meses – mandou ficar em casa e pediu a ajuda ao governador para que a Polícia Militar prendesse que saísse às ruas.

Desta vez, quem está nas ruas – em plena pandemia – é o prefeito e seus assessores, fazendo tudo o que proibiu, como a aglomeração e o ajuntamento com cumprimentos de mão e abraços. No pequeno vídeo está implícito que ele deixa a rua, onde ensaiava passos de dança para ir dar um abraço num amigo e, quem sabe, possível eleitor nas eleições que se aproximam.

Essa talvez seja a única coisa que o prefeito Marão saiba, de fato, fazer: sair às ruas em busca de eleitores com tapinha nas costas, beijos e abraços, mesmo com o risco de contaminação pela Covid-19, se não dele que já positivou e curou, mas dos acompanhantes. Como médico, Marão que prometeu cuidar do povo, mostra que não tem a menor intenção de cumprir a promessa de campanha, pelo contrário, mostra comportamento inadequado diante do perigo da infecção.

Como prefeito de formação em medicina, se omitiu no início da pandemia em tomar as providências cabíveis e necessárias com a presteza e urgência requerida, o que, possivelmente, pode ter ampliado a ação do vírus em Ilhéus. Não acredito que tenha sido por má-fé, mas por absoluta falta de vontade de exercer a administração municipal, como vem largamente demonstrando.

O velho Marão, que na campanha se vendeu como novo, apesar de representar o que há de mais antigo na política, entregando as chaves da prefeitura a colaboradores, por simples falta de vontade, apatia de tocar a administração municipal. Voltando ao velho chavão que corre em Ilhéus, teria abdicado da caneta em benefício de um secretário e ainda entregou a obrigação de fazer ao governador do Estado da Bahia.

Comparações à parte, Marão copia políticos mais velhos nas artimanhas e comportamentos ao tratar com eleitores durante a campanha eleitoral, demonstrando bastante intimidade quando na cata ao voto. Promessas e mais promessas durante a campanha, esquecimento após a eleição, quando já não mais depende dos que o elegeram, mas pouco importa o distanciamento após se aboletar na cadeira de prefeito.

Na contabilidade do prefeito Marão, em quatro anos estará de volta, abraçando e beijando os eleitores de memória fraca e já acostumados a perder para os políticos experientes, gente de boa lábia e fácil persuasão. Se não deu para fazer, põe a culpa em outras instâncias, garante que passou todos esses anos com o projeto aprovado, faltando apenas a vinda dos recursos, presos na burocracia governamental. Deixa a pandemia passar…

Mas as redes sociais não estão permitindo esse tipo de comportamento dúbio dos políticos, haja vista o que demostra esse pequeno vídeo, que não permite contestação, dada a sua objetividade. Hoje tudo está às claras, nas lentes das máquinas fotográficas e filmadoras dos aparelhos celulares. Em menos de um minuto cruza o mundo pelas redes sociais, e continua perfeito, mesmo que apagado pela fonte emissora.

É chegada a hora do eleitor avaliar bem o seu candidato, escolhendo o que se apresenta como ético e moral, comprometido com as necessidades da população, estas postergadas a cada quatro anos de sucessivos mandatos. Basta não acreditar em projetos mirabolantes e nas vãs promessas, feitas sem nenhuma garantia factível da serem executadas e nem o pudor quando apresentadas.

Já não era sem tempo o eleitor dar um simples basta nessa prática execrável, useira e vezeira a cada campanha eleitoreira. Que saiba dizer um não aos candidatos com prazo de validade vencido e que passaram o tempo inteiro com propostas enganadoras, beijos e abraços na campanha eleitoral, pois lembrem-se de que só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

O GOGÓ DE OURO E A COLETIVA DO GOVERNADOR

Tempo de leitura: 3 minutos

Pois Saldanha não se fez de rogado e abriu a coletiva com sua pergunta saudação por cerca de três minutos. De bom humor, após os elogios fáceis e adjetivos escolhidos a dedo, o governador Jaques Wagner respondeu à pergunta e em seguida acenou para Isaac encerrar a coletiva.

Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com

As entrevistas coletivas concedidas por autoridades e políticos eram consideradas algo relevante, um encontro onde seriam revelados planos, projetos, programas, notícias dignas de bomba. De uma só vez o digníssimo venderia seu peixe e se colocava à disposição dos comunicadores para as devidas explicações de praxe, tirando todas as dúvidas e mal entendidos que por ventura ainda existissem.

Nem sempre as coletivas saem conforme o planejado, com perguntas consideradas inconvenientes ou fora do contexto, causando um mal-estar ao entrevistado e sua trupe – assessores e comunicadores amigos. Presenciei coletivas que acabaram em gargalhadas e outras de final lastimável, após a providencial, necessária e conveniente intervenção da turma do deixa disso.

Nessas ocasiões, o objeto da coletiva cai por terra e a notícia é salva por um sucinto release enviado pela assessoria de comunicação aos veículos de comunicação, prejudicando a informação. E no meio do tiroteio virtual fica a sociedade que não conhecerá dos detalhes da notícia, com a visão diferenciada dos diversos comunicadores presentes.

Mas existem, ainda, as coletivas que contam com a participação de penetras – a favor e do contra o político presente –, que querem mostrar serviço, puxar o saco, dizer que está presente para defendê-lo, quem sabe, até a morte. Exageros à parte, cortam a pergunta do comunicador, ajudam na resposta do entrevistado, fazem discurso tecendo loas, conseguem desagradar mineiros e baianos.

O radialista Elival Saldanha, conhecido como o “Gogó de Ouro” de Ilhéus, se notabilizou pela sua voz, é claro, mas sempre enriquece o seu currículo com outras nuances. Promotor de eventos artísticos no passado, em tempos mais recentes assumiu a realização de festas etílico-gastronômicas em Ilhéus, a exemplo da Feijoada e da Peixada do Jornal Foco Bahia, além do camarote Dubai é Aqui, no Carnaval ilheense.

Mas isso não era tudo para o velho Saldanha, que adorava participar de uma entrevista coletiva. E mais, era sempre o primeiro a perguntar, ou melhor, fazer uma pergunta através de um lauto elogio, a pleno pulmões com a voz que Deus lhe deu. E não abria mão dessa primazia, que proporcionava uma “boa” dor de cabeça nos assessores da autoridade a ser entrevistada.

E não adiantava a lista dos comunicadores inscritos pela ordem na mão do coordenador da coletiva, já que não possuía os pulmões e cordas vocais com força suficiente para abafar a sonora voz do Gogó de Ouro. E como todos já o conheciam e eram amigos, permitiam a primazia da pergunta inaugural, seja quem fosse o entrevistado, não conseguia escapar do questionamento de Saldanha.

E assim aconteceu durante a coletiva concedida pelo governador Jaques Wagner numa abertura do Festival do Chocolate, no Centro de Convenções de Ilhéus. Como estavam presentes 15 profissionais de imprensa, a luta era traçar uma estratégia para dissuadir Saldanha de fazer a primeira pergunta, o que não funcionou, para o desespero dos jornalistas Daniel Thame, Maurício Maron e Isaac Jorge, coordenadores do evento.

Pois Saldanha não se fez de rogado e abriu a coletiva com sua pergunta saudação por cerca de três minutos. De bom humor, após os elogios fáceis e adjetivos escolhidos a dedo, o governador Jaques Wagner respondeu à pergunta e em seguida acenou para Isaac encerrar a coletiva, com apenas oito minutos de duração, para desespero de quem não tinha conseguido fazer uma só pergunta.

E quem disse que Saldanha se sentiu ofendido com o fim da coletiva? Pelo contrário, o Gogó de Ouro se jactava que teria sido o único comunicador a ter a deferência do governador do Estado, e ainda aproveitou a oportunidade para convidar Jaques Wagner a participar do camarote Dubai é Aqui, do Sheik Saldanha. Os jornalistas preteridos não se deram ao trabalho de repreender Saldanha pelo costumeiro comportamento.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

A VIDA NÃO É O QUE NOS ACONTECE. É O QUE FAZEMOS DAQUILO QUE NOS ACONTECE

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O fogo que destruiu o seu “ganha-pão” foi o mesmo que acabou lhe expondo a outra vida, outras pessoas e outra forma de “apresentar” a vida aos filhos!

Manuela Berbert || manuelaberbert@yahoo.com.br

Eu certamente não vou me lembrar da história exata, porque escutei há alguns anos, mas vou tentar resumir. Recém-formada, trabalhando em uma agência de marketing promocional em Salvador, viajava bastante para eventos institucionais. Sempre conversadeira, ia acumulando pessoas e causos.

Era convenção de uma grande empresa na Costa do Sauípe, e lá passei praticamente uma semana, entre montagem e desmontagem de stand do cliente, e acompanhamento do evento. Circulando, conheci um senhorzinho que me resumiu o seguinte: ele tinha uma padaria relativamente pequena e dali sustentava sua família e o status de empresário. (Vale lembrar que Empreendedor é um termo mais atual!) Um dia, ele teria sido surpreendido com a pequena padaria em chamas. O fogo teria destruído tudo! Tudo mesmo! Recomeçar seria uma opção, se ele pudesse, mas nem dinheiro para isso tinha!

Arranjar um emprego seria o mais prudente naquele momento, mas com a idade um pouco avançada, ele teria conseguido apenas uma vaga para vender um determinado produto, de porta em porta. E assim o fez. Alguns anos depois, estava ali, sentado naquele stand, tomando sorvete (todo dia eu ia lá filar um sorvetinho), enquanto me falava dos filhos, que eram, naquele momento, grandes empresários e estavam ali como tal.

A mudança e reconstrução não me impressionaram, até porque amo biografias e já li milhares assim! O que nunca esqueci foi ele me dizer que se o fogo não tivesse destruído sua pequena padaria, talvez ele não tivesse a oportunidade de se orgulhar dos seus. O fogo que destruiu o seu “ganha-pão” foi o mesmo que acabou lhe expondo a outra vida, outras pessoas e outra forma de “apresentar” a vida aos filhos!

Obs: O stand era de uma marca de móveis nacionalmente conhecida, o sorvete era apenas um receptivo e meu companheirinho estava em Sauípe praticamente a passeio! Feliz de mim que pude conhecê-lo!

Manuela Berbert é publicitária e especialista em Marketing de Conexões.

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