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24 de fevereiro de 2020 | 05:29 pm

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

ESSES CRIATIVOS CONSULTORES DE EMPRESAS

Ousarme Citoaian
O professor gaúcho Ricardo Mallet (foto, em ação) exerce uma atividade que está em moda há alguns anos no Brasil – consultor de empresas. Graduado em gestão empresarial, ele ganha a vida honestamente em andanças pela vastidão medida entre o Chuí e o Caburaí, fazendo palestras de incentivo às iniciativas de negócios. Não sei se participou de algum dos seminários de marketing que ocorrem há séculos em Itabuna, o que, aliás, não vem ao caso. Vem ao caso sua “descoberta” de que os grandes e principais vícios dos brasileiros (não digo “da humanidade” devido às diferentes línguas do planeta) começam com c.

COCAÍNA, CRACK E MACONHA COMEÇAM COM C

Diz o palestrante em seu blog que, durante uma viagem de ônibus, começou a pensar no assunto e chegou a conclusões que agora passo a quem aprecie inutilidades. “De drogas leves a pesadas, bebidas, comidas ou diversões, percebi que todo vício curiosamente começava com c”. E aí vai a lista: cigarro (“que causa mais dependência que muita droga pesada”) começa com c”, cocaína, crack e maconha, também. Maconha? Sim, pois “maconha é apenas o apelido da cannabis sativa”. Entre as bebidas, cachaça, cerveja e café. Este, “muitos gaúchos trocaram pelo chimarrão e não adiantou: também tem inicial c”.

“SEM TER NADA INTERESSANTE PARA FAZER”

O consultor diz que se envolveu em tais lucubrações num momento em que estava “sem nada interessante para fazer”, o que parece óbvio. Talvez por semelhante motivação, vou adiante nessa curiosidade. Citemos o chocolate e as comidinhas carregadas no sal ou no açúcar. E daí? Daí que sal é cloreto de sódio (olha o c aí!) e o açúcar vem da cana do mesmo nome. Para arrematar, o professor nos impõe uma conclusão um pouquinho forçada: “Coca-Cola vicia e Pepsi, não”. Por que? Fácil: a primeira tem dois cês; a segunda, nenhum! Faltou lembrar que consultor (em que algumas pessoas se viciam) também começa com c.

QUATRO PALAVRAS E LUGAR NA HISTÓRIA

Uma frase não deve ter, em benefício de sua clareza, muitas palavras. Esta tem 12. Getúlio Vargas, num palanque em Ilhéus, usou 15: “Façam-me a ponte para o Catete e eu vos farei a ponte para o Pontal”; com os dez termos de “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever” o almirante Barroso entrou para a história; Gagarin (quase um século depois) foi fazer companhia ao velho comandante, com apenas quatro: “A terra é azul”… Quantas palavras devemos usar numa frase? Não há regra. Mas Dad Squarisi (foto), musa desta coluna, dá uma dica valiosa: “Use sentenças de, no máximo, uma linha e meia”. Logo, modestamente concluo: ao contar vinte termos, cuidado (nenhuma das citações feitas acima chegou a tanto).

FRASE LONGA E UNIÃO DE FRASES CURTAS

Tal qual Freud, a musa explica: “a pessoa só consegue dominar determinado número de palavras, antes que os olhos peçam uma pausa. A frase muito longa dá trabalho, confunde”. Finalizando, diz a mestra que “uma frase longa nada mais é do que duas curtas”. E aí entro eu, de novo, com minha colher de pau: tenho visto sentenças tão longas que precisariam ser divididas não em duas, mas em três ou quatro. “Não quis Deus que os meus cinquenta anos de consagração ao direito viessem receber, no templo do seu ensino, em São Paulo, o selo de uma grande benção, associando-se hoje com a vossa admissão ao nosso sacerdócio, na solenidade imponente dos votos que o ides esposar” – é frase de Rui Barbosa (foto), com 46 palavras.

NOSSA MÍDIA GANHA ATÉ DE RUI BARBOSA

A sentença ruibarbosiana (Oração aos moços/1920) não é recorde de gigantismo – e, afinal, Rui é Rui. Vejam esta, de lavratura regional: “Assim, foi que, em 5 de junho de 1972, na primeira conferencia das Nações Unidas sobre o meio ambiente, nasceu a nível internacional as primeiras ações chamando atenção do mundo para temas como poluição e degradação ambiental, trazendo no item 6 da declaração, a necessidade de ´defender e melhorar o ambiente humano para as atuais e futuras gerações´, mas que sozinhas não seriam suficientes e por isso mesmo, foi objetivado ser alcançado com a paz, o desenvolvimento econômico e social”. Ufa! Um tijolaço de 80 palavras (transcrito da exata forma como saiu no blog).

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SOBRE RACISMO E DISCRIMINAÇÃO SOCIAL

O filme se passa em 1959. Um viúvo, compositor de jingles, branco, tem problemas com a filha de sete anos, por isso precisa urgentemente de uma babá. Entrevista várias candidatas, até encontrar uma recém-formada, que não consegue arrumar trabalho, por ser negra. A esta altura, a menina (Molly/Lina Majorino), de birra, parara até de falar. E ele (Manny/Ray Liotta) não parara de fumar, o que, segundo Molly “descobriu”, vai levá-lo à morte. Pior: a babá (Corina/Whoopi Goldberg) também é fumante. Falamos de Corina, uma babá perfeita/1994. Por trás da fórmula água com açúcar, Uma babá… trata de racismo e discriminação social, embora de forma sutil, por isso discordo de que se trata apenas uma história romântica xaroposa.

UM PAINEL DO JAZZ POUCAS VEZES VISTO

Corina é babá por necessidade, pois tem sólida formação em literatura e música, o que a leva a aportar comentários pertinentes sobre jazz e e publicidade. Aliás, Uma babá…  oferece um dos melhores painéis do jazz já visto no cinema (com Billie Holiday, Duke Ellington, Dinah Washington, Sarah Vaughan, Armstrong & Oscar Peterson, além de valiosas citações. Por exemplo, num bar noturno, Jevetta Steele canta os primeiros versos de Over the rainbow (aquela de O mágico de Oz), com o sax tenor de Rickey Woodard ao fundo (que eu não conhecia), me deixando com ganas de sair correndo e comprar o  CD, ou Dinah Washington, com What a diffrerence a day makes, standard que sempre ouço com satisfação. Mas o melhor só vem no final.

NO FIM, UM CLÁSSICO DA CANÇÃO GOSPEL

Para encerrar, a menina Molly tenta fazer a avó (Eva/Erika Yohn), dilacerada pela morte do marido, solfejar This little light of mine (um clássico da canção gospel), conseguindo arrancar-lhe um canto rouco e triste, em seguida coberto pelas vozes poderosas do grupo vocal The Steeles (Billy, Fred, JD, Jearlyn e Jevetta). Infelizmente, já não tenho o DVD (e também não o encontro em nenhuma loja da internet), o que dificultou a edição deste vídeo. Mas, modéstia à parte, o material aqui mostrado (com um pouco da última cena de Uma babá… e 48 segundos de Jevetta  Steele a cappella) é suficiente para ouriçar todos os pelos do corpo e ainda umedecer os olhos – desde que não haja nada errado com sua sensibilidade. Se duvida, clique.

O.C.

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UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

JÁ MUITO ALÉM DO CABO DA BOA ESPERANÇA

Ousarme Citoaian
Foi com Emílio de Menezes que aprendi a beber uísque com água de coco. “Como?” – gritariam horrorizados puristas, para os quais uísque não se mistura – e, no seu espanto, me levantariam a bola para um mau trocadilho: eu não como, bebo. Mais: se o poeta morreu em 1918, este humilde e hebdomático colunista, para gabar-se de com ele ter bebericado, precisaria carregar no costado, pelo menos, 100 anos – e ter começado a beber ainda usando fraldas. Convenhamos que já estou meio para a idade provecta, mais pra lá do que pra cá, dobrado o Cabo da Boa Esperança e ofensas semelhantes, mas não tanto que ultrapasse uma centena de verões ardentes.  Meu convívio com o poeta não se deu em boteco, mas em livro.

EMÍLIO, QUEM DIRIA, NÃO É MAIS AQUELE


Trata-se de Emílio de Menezes, o último boêmio, de Raimundo de Menezes, bebido (ops!) na adolescência, e que agora recuperei num sebo. Réu, confesso: precoce, lia, bebia uísque e fumava (de fumar, logo me cansei, pois odeio vícios pequenos). Pois saibam todos que o velho e bom Emílio (a voz poética mais destrutiva que já se ouviu neste País) está também num livro psicografado por Chico Xavier (Parnaso de além túmulo) e, crenças à parte, não gostei de vê-lo “recuperado”, como ali se mostra em dois sonetos. Num deles, confessa: “Sou o Emílio, distante da garrafa,/ mas que não se entristece nem se abafa,/ longe das anedotas indecentes”. Não é Emílio, é anti-Emílio. 

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OPINIÃO DE LINGUISTA “PESA” EM DECISÃO

A variedade de entendimentos é um dos muitos encantos do Direito e, por extensão, da democracia e da vida. Um juiz de Niterói (poderia ser qualquer outro cidadão) recorreu à Justiça, exigindo ser tratado por “senhor”, pois se sentira ofendido ao ser chamado de “vocêpelo síndico do edifício onde mora. Pleiteava que também suas visitas recebessem do mesmo síndico o tratamento de “senhor”, “senhora”, “doutor”, “doutora” e por aí vai – e ainda pedia que, em caso contrário, fosse o “infrator” levado a pagar multa não inferior a 100 salários mínimos, por danos morais. No tribunal, o julgador negou-lhe a pretensão, com base em parecer da linguista Eliana Pitombo Teixeira.

DOUTOR É TÍTULO, NÃO FORMA TRATAMENTO

Segundo a professora, “você” é tratamento formal – por ser variante (contração) da alocução respeitosa “Vossa Mercê”. Para o magistrado sentenciante, “´Doutor´ não é forma de tratamento, e sim título acadêmico utilizado apenas quando se apresenta tese a uma banca e esta a julga merecedora de um doutoramento”. Estou perfeitamente de acordo quanto à segunda justificativa. Da primeira, data vênia, discordo frontalmente: “você”, embora vindo de uma expressão formal, é, na linguagem de todos os quadrantes do Brasil (exceto, talvez, alguns locais da região Sul), tratamento íntimo. Nenhuma pessoa medianamente educada usa “você” com pessoa idosa, autoridade ou desconhecido.

COMO REGRA, “VOCÊ” É TRATAMENTO ÍNTIMO

Não opino se há direito ou apenas pose na “exigência” do cidadão em não querer ser tratado por “você”. Apenas digo que “você”, em não sendo, por si só, forma ofensiva de abordagem, não é formal, como diz a ilustre professora, opinando a distância do falar brasileiro. Mas ela tem seguidores, obviamente: o ótimo apresentador Jô Soares costuma tratar todos seus convidados por “você” – e há quem ache isto normal (ele, por exemplo, acha). Assustou-me ver, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso e D. Evaristo Arns (para citar apenas duas figuras que devem receber trato formal) serem chamados de “você”. No meu entender, cometeu-se, nestes dois casos, uma descortesia. Ou mais.

“JUSTIÇA, PARA SER BOA, COMEÇA EM CASA”

Não resisto a esticar o assunto e fazer um comentário em torno da palavra “doutor”, de sentido hoje já desvirtuado (para não dizer desmoralizado) entre nós. Aqui, a tese aprovada por banca especializada não está entre as formas mais comuns de chegar ao título: mais fácil é obter uma licenciatura qualquer ou, na falta desta, vestir-se de branco. Bem fez famoso bacharel em Direito, de Itabuna, que, tão logo recebeu o diploma, reuniu a família e fez seu primeiro grande discurso: “A justiça, para ser boa, começa em casa; portanto, a partir de hoje, quero ser chamado de doutor”. Assim foi feito e assim é até hoje, “doutor pra lá, doutor pra cá”, com (quase) todos felizes.

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NOEL, UMA IMENSA PRODUÇÃO EM OITO ANOS

Vinícius de Morais, que praticamente abandonou a carreira de poeta “sério” para se dedicar a um gênero então considerado menor, a MPB, foi letrista dos mais profícuos. Penso que, em termos de produtividade, ele só tem rival em Noel Rosa, que fez mais de 200 composições – sem contar muitas que vendeu e foram assinadas por outros compositores. Vinícius ultrapassou a marca de 300. Não faltará fã de Noel a fazer as contas e concluir que o Poeta da Vila, que viveu 27 anos (1910-1937) realizou toda sua carreira musical em curtíssimo período (de 1929 a 1937). Já Vinícius (1913-1980) produziu durante 22 anos, a partir de 1958.

VINÍCIUS FOI BARROCO, NOEL FOI CAIPIRA

Visto assim, Noel foi mais produtivo. Porém a ideia não é comparar os dois autores e levantar polêmica, mas mostrar alguns pontos curiosos. Além desse da alta produção, os dois começaram com gêneros que logo abandonaram: Noel estreou com a embolada Minha viola, cuja letra hoje parece fora do padrão noelino: “Minha viola tá chorando com razão,/com saudade da marvada que roubou meu coração”. Vinícius começou em tom barroco, com Serenata do adeus. Refere-se à mulher como “estrela a refulgir” e cria estes versos: “Crava as garras em peito em dor/ e esvai em sangue todo o amor,/ toda desilusão”. Cândido das Neves assinaria.

EM VINÍCIUS, ATÉ CÂNCER ERA INSPIRAÇÃO

Noel subiu o nível dos seus versos, assumindo-se como poeta urbano “culto”, Vinícius abandonou a escola antiga, integrou-se à Bossa Nova, popularizou-se, sem fazer concessões à vulgaridade. Como costuma acontecer, o espaço se finda, e tanto ainda resta a dizer. Há tempo para citar Chico Buarque (foto), para quem Vinícius fazia letra de música com “qualquer coisa”. Certa noite, numa clínica para se tratar do excesso de uísque, o Poetinha ouviu que no quarto vizinho um homem com câncer estava em estado terminal – e alguém, logicamente, chorava seu desenlace iminente: Vinícius fez e mandou pra Baden pôr a melodia em Pra que chorar (aqui, com Zeca Pagodinho).
 

 O.C.

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UNIVERSO PARALELO

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GRAMÁTICA NÃO É INSTRUMENTO DE JUSTIÇA

Ousarme Citoaian
Declarou-se no Brasil uma guerra injusta contra o adjetivo (dirão que as guerras são assim mesmo e que o espaço da justiça não é a gramática, mas o tribunal): uns o execram sem qualquer vezo de compaixão, reduzindo a zero sua presença no texto; outros o aspergem na página, atrelando-o a substantivos suspeitos. Talvez seja possível encontrar-lhe o meio termo, que é o uso quando necessário. Graciliano, o mais “descarnado” dos escritores brasileiros, pasmem os matadores de adjetivos, usava esse penduricalho em lugar certo e momento aprazado. Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes, diz ele, abrindo magistralmente Vidas secas (citado em coluna anterior). Na mesma frase, dois adjetivos necessários e certeiros.

ESTILO QUE DEIXA AS CARÊNCIAS À MOSTRA

Convém não confundir texto econômico com texto pobre. O econômico é rico sem ser perdulário, tem tudo de que precisa, sem nada lhe sobrar; o pobre deixa à vista carências básicas, até de grafia. Mesmo com risco de vida, digo que a internet é o túmulo da linguagem – cada vez mais descuidada, maltratada e “econômica”, transforma “que” em “q”, ”também” em “tb”, e por aí vai a carruagem. “Acabou-se o nosso carnaval” – o verso de Vinícius, numa canção com Carlos Lyra, serve como ícone do fim da alegria na construção do texto, o enterro do metafórico, o império do estereótipo da cultura pequeno-burguesa apressada e “pragmática”. Quase não mais se escreve com purpurina, lantejoulas, serpentinas, confetes, paetês, sangue, coração e alma.

A BOA LINGUAGEM EXIGE COR, RITMO E SOM

Ensinam os mestres da estilística esquecida que “escrever bem” inclui preocupações que ultrapassam o saber primário da gramática: pensar em ritmo, sonoridade, criatividade, não temer a palavra desusada, correr do pedantismo e do lugar comum. Le mot juste (o termo que não só define o pensamento como o emoldura com cores e sons) há de ser buscado, e essa busca às vezes é penosa. A tarefa de escrever, para quem o faz com responsabilidade, é estafante. O texto é areia movediça, terreno cheio de armadilhas, há o autor de locomover-se com cuidado, velho marinheiro conduzindo o barco em noite de temporal. Mas é trabalho compensador. Imagino até que o prazer, mais do que a obrigação de escrever, seja o dínamo do profissional dessa atividade.

EDITORIAL É TEXTO DE PALETO E GRAVATA

Só para quem é de outro ramo, que não jornalismo: o editorial é o espaço mais nobre do veículo. É texto analítico, opinativo, afirmativo, que representa o ponto de vista da empresa, em geral sobre notícia do momento. Faz-se editorial, por exemplo, a respeito do Porto Sul ou da ponte Ilhéus-Pontal, nunca sobre as capitanias hereditárias ou as pirâmides do Egito. Diz-se nas redações que o editorial (também chamado “artigo de fundo” e – quando muito pequeno – “suelto”) é o texto de paletó e gravata, grave, circunspecto e, obviamente, lavrado em linguagem formal. Não é à toa que os veículos escolhem para fazê-lo, via de regra, um jornalista de cabelos brancos.

NÃO SOU LINGUISTA, SOU APENAS LEITOR

Daí o espanto ao ler um jornal de Ilhéus e tropeçar, no seu espaço mais nobre, com uma linguagem absolutamente fora do lugar. O título, Informações vaciladas, é algo inesperado, exigindo esforço para saber o que o autor pretende dizer. Vacilar, todos sabem, é hesitar, cambalear, tremer, estar incerto, irresoluto etc. Logo, uma informação “vacilada” é uma invenção carente de sentido. Concedamos que “vacilante” seria bem aceita no texto – mas que “vacilada” é uma ousadia gramatical que só a corrente linguista excessivamente bem humorada acataria. Não sou linguista, mas leitor de jornais, e meu bom humor, graças ao bom Deus, está esgotado para esse tipo de coisa.

LEITURA PARA SABER COMO NÃO ESCREVER

Mesmo assim, por mera curiosidade, leio, em busca da solução do mistério. A primeira frase (“Palavra dita é palavra que não volta atrás”) introduz um pleonasmo “defensável” (ah, os linguistas!) que me deixa em expectativa nada positiva. A segunda “explica” a primeira: “Pelo menos é isso o que aprendemos desde pequeno”.  Como é mesmo? Aprendemos desde pequeno”? Ih!.. Em seguida, doutoral, o artigo cita que “um homem deve ter palavra” e que “isso é o que costuma nos afirmar nossos pais…”. Chega. Curioso, sim, masoquista, não, suspendi a leitura. Mas a recomendo a todos quantos quiserem saber como não escrever. Por certo, o editorial não é mais o mesmo.

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“PAU DE ARARA”: DA TRAGÉDIA À COMÉDIA

A vida dura de um retirante nordestino visto em Copacabana inspirou Vinícius de Morais a fazer (com Carlos Lyra) Pau de arara, na linha da música engagée, em moda naqueles anos sessenta. Mas a canção, na voz de Ary Toledo, ganhou vida própria, e o que tinha ares trágicos transformou-se em comédia: era de fazer chorar, arrancou risos da plateia. Não sei se a mensagem política – com crítica às desigualdades sociais, em particular no caso do Nordeste – perdeu força. O fato é que Pau de arara foi o momento que consolidou a carreira de Ary Toledo, um artista que ainda não havia encontrado o caminho a seguir.

RISADAS “ESTRIPITOSAS” DE ELIS REGINA

Na peça Pobre menina rica (texto de Vinícius e música de Carlinhos Lyra), Ary pediu aos dois que o deixassem cantar Pau de arara “ao seu estilo”, no que foi atendido, e não deu outra: o público caiu na risada. Lançada num compacto simples, a saga do “paraíba” não alcançou grande êxito, até que Ary fez uma gravação ao vivo no Teatro Record (programa “O Fino da bossa”), arrancando gargalhadas estrepitosas do público e da apresentadora, chamada Elis Regina. Era 1965. Vinícius e Elis aconselharam o jovem Ary Toledo (nascido em Martinópolis-SP/1937) a seguir a carreira de humorista, no que foram atendidos.

NÃO HÁ LUGAR MELHOR DO QUE NOSSA CASA

A canção desfia as desventuras do pobre homem, a comer em praça pública, mediante pagamento vil, lâminas de barbear e cacos de vidro. A canção do retirante, portanto, não era engraçada, mas trágica, denunciadora do modo de vida que se impõe ao povo, o acúmulo de riquezas tantas para uns poucos e da miséria para milhões. Após desfilar seu rosário de sofrimentos e humilhações, o personagem conclui ser mais sensato retornar à terrinha: “Vou-me embora pro meu Ceará/ porque lá tenho um nome/ e aqui não sou nada, sou só Zé Com Fome/ sou só pau de arara/ Não sei nem cantá”. Não existe lugar como nossa casa.

O.C.

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UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

VINÍCIUS E O MONOSSÍLABO IMPUBLICÁVEL

Ousarme Citoaian
Imaginei não levantar o assunto, por ser tão, mas não resisti – talvez por isso mesmo.  Falo de Tonga da mironga do cabuletê, de Vinícius-Toquinho, que tem uma “tradução” impublicável circulando na internet (e até integra um livro!): diz tratar-se de expressão em nagô, falando dos pelos que florescem no centro da região que Deus escolheu para ser a mais carnuda do corpo da mãe. Não entendeu? É um monossílabo que começa com c e termina com u (embora já haja até música gravada, usando tal palavra, recuso-me a grafá-la em blog de família. Pois dizem que Gessy Gesse (foto), paixão baiana do poetinha, lhe ensinara essa coisa em nagô, com que ele xingou os militares, sem que estes percebessem.

UMA “TRADUÇÃO” SEM NADA DE CIENTÍFICO

Vinícius dizia que o título não tinha sentido, mas apoiou a versão aqui referida, e até parece ter se divertido com isso: certa vez, afirmou sentir-se seguro, pois  “na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”. Pior é que Toquinho, o parceiro, também defende essa “tradução”, que nada tem de científico. O professor Cláudio Moreno, do site Sua língua (também na tevê), diz que “não significa nada” a tal expressão: “Era a época da ditadura, no entanto, e muitos preferiram acreditar que o poeta tinha escondido atrás dessas palavras africanas uma ofensa ao governo militar” – explica o mestre. Quis consultar o Novo dicionário banto do Brasil, de Nei Lopes, mas foi impossível.

EXPRESSÃO MISTURA QUICONGO E QUIMBUNDO

A obra está esgotada em todas as livrarias (e também na editora). Então, vali-me, outra vez, do professor Cláudio Moreno, que – mais precavido do que eu – reservou seu exemplar e hoje é um feliz possuidor do Novo dicionário…, obra recomendada por Antônio Houaiss. No maior repositório de africanismos da língua portuguesa, o professor gaúcho encontrou:  (1) tonga (do Quicongo) – “força, poder”; (2) mironga (do Quimbundo) –  “mistério, segredo” (Houaiss acrescenta “feitiço”) e (3) cabuletê (de origem incerta) –  “indivíduo desprezível, vagabundo” . Portanto, palavras de línguas diferentes, isoladas – que não xingam os milicos, são apenas um barulhinho simpático ao ouvido.

EM SARAMAGO, A RELAÇÃO PEIXE E LEITOR

“Abordamos aqui, há tempos (com referência a um personagem de Flávio Moreira da Costa, no romance “noir brasileiro” Modelo para morrer), a necessidade de “fisgar” o leitor. Alguns de vocês se lembram: é pegar o sujeito pelo colarinho, logo nas primeiras frases, e, assim manietado, levá-lo até o ponto final. Pois encontro, em análise primorosa da jornalista Débora Alcântara (Caderno 2 – A Tarde), a retomada desse tema, em torno do livro póstumo de José Saramago O silêncio da água, um exercício de literatura infantil. Registre-se que Saramago, único prêmio Nobel conquistado em língua portuguesa, morreu há um ano (18 de junho de 2010). E que a visão apresentada na matéria é, obviamente, muito melhor do que a minha.

ÀS MARGENS DO TEJO, UM MENINO PESCANDO

“A palavra não morre quando se impregna na memória, feito um anzol na guelra de um peixe”, sentencia a articulista. E emenda: “O leitor, como o peixe, ao abocanhar a isca, mesmo não sendo resgatado do silêncio profundo da água onde habita, é remetido ao choque de singularidades, de modos de ver e de sentir. É transformado para sempre, levando o gosto do anzol desferido”. Quisera eu, ao crescer, escrever assim… A autora explica a analogia entre anzol e linguagem, peixe e leitor, a partir de O silêncio da água. A história se passa nas margens de um rio (o Tejo, é óbvio!), onde um menino tenta pescar um grande peixe. Quase fisgado, o bichão escapa, como nas estórias de pescadores, e é neste momento que a lucidez toma o personagem.

“ESCREVER É JOGAR UMA GARRAFA NO MAR”

É curioso que tal clareza lhe venha de um encontro em que o bicho saiu vencedor. Mas ao menino restou uma certeza: “De uma maneira ou de outra, porém, com o meu anzol enganchado nas guelras, tinha [o peixe] a minha marca, era meu”. Aqui, a analogia, bem explicada pela poeta Myriam Fraga: “É essa marca transformadora que pode sanar em parte a frustração de não se conseguir fisgar o leitor por inteiro”. É ainda a autora de O risco na pele quem esclarece a relação autor-leitor: “O autor mostra o sentimento de quem escreve, que é como jogar uma garrafa no mar, sem saber quem vai achá-la e como vai concebê-la”. Penso que é isto que procuro transmitir a quem, menos experiente do que eu, escreve: cuidado, atenção e respeito a leitor. É o meu anzol.

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ENTRE O BOLERO DERRAMADO E A ANTOLOGIA

Os Tincoãs – nome de uma ave do cerrado – surgiu em 1960 (formado por Erivaldo, Heraldo e Dadinho, todos de Cachoeira), cantando boleros  ao estilo Trio Irakitan. O grupo era afinado, arrumadinho, mas não deu certo, e o disco Meu último bolero encalhou.  Após três anos de luta, com Erivaldo substituído por Mateus, os rapazes deixaram os boleros derramados e foram beber em fontes puras – sambas de roda do Recôncavo, temas de candomblé e cantos católicos. Os terreiros constituem a principal inspiração do trio. Em 1973 gravam um disco antológico (Os Tincoãs), produzido por Adelzon Alves (foto), com marcante presença da legítima música afro-baiana.

INCORPORAÇÃO DE NOSSA HERANÇA AFRICANA

Os arranjos de Os Tincoãs valorizam o canto coral do trio afinado, com destaque para o acompanhamento só  com violão, atabaque, agogô e cabaça. O disco foi recordista de vendas, não pelo ineditismo do repertório, pois a temática negra já tinha sido muitas vezes gravada, mas pela beleza das canções e a excelência dos vocalistas, incorporando, como nunca antes, o sentimento de nossa herança africana. Para o critico Luiz Américo Lisboa Jr., especialista em música baiana (com pelo menos dois livros publicados sobre o assunto) o LP Os Tincoãs “é a afirmação da identidade de uma cultura que nos engrandece e nos faz ver o quanto devemos aprender com ela”.

DISCO CHEGA AO MERCADO 20 ANOS DEPOIS

Em 1975, com Badu em lugar de Heraldo (que morrera naquele ano) sai mais um LP, em que se destaca a música “Cordeiro de Nanã”. A partir de 1983, Os Tincoãs, em Luanda, participa de  projetos da Secretaria da Cultura de Angola,  e grava o disco Afro Canto Coral Barroco, só lançado 20 anos depois, quando o grupo não mais existia. Resta dizer que este registro foi “pautado” pela leitora leidikeiti e baseou-se na única fonte escrita de que tenho conhecimento: um artigo do pesquisador Luiz Américo Lisboa Jr. O grupo se desfez em 2000 e, segundo Luiz Américo (foto), “deixou um legado dos mais primorosos para a música popular brasileira”. Clique e ouça Deixa a gira girar.


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O.C.

UNIVERSO PARALELO

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CRONISTA CHORA PELA MULHER QUE “PARTIU”

Ousarme Citoaian

Cada língua tem expressões que a enriquecem, figuras que a embelezam. Rubem Braga, em A borboleta amarela/1950), conta a aflição que passou num hotel de Paris, ao telefonar para uma amiga. Elle est partie (“Ela partiu”), disseram, do outro lado da linha. O cronista foi tomado de funda tristeza: imaginou a amiga morta, ou, no mínimo, vagando por cidades distantes, perdida no nevoeiro de um inverno rigoroso, talvez numa estação da Irlanda ou da Espanha… Meia hora depois o telefone da cabeceira tocou – e era a voz brasileira já dada como perdida. A moça explicou que “partira” para fazer umas compras, já estava de volta. Ressuscitara.

A VOZ MAIS AMADA DE TODAS AS AMADAS

Depõe o sabiá da crônica, como o apelidou Stanislaw Ponte Preta-Sérgio Porto (foto): “Não sei se ela estranhou o calor de minha alegria; talvez nem tenha notado a emoção de minha voz ao responder à sua. Era como se eu ouvisse a voz mais amada de todas as amadas, salva de um naufrágio que parecia sem remédio, em noite escura. Quando no dia seguinte nos encontramos para um almoço banal num bistrô, eu já estava refeito; era o mesmo conhecido de sempre, apenas cordial e de ar meio neutro, e ela era outra vez ela mesma, devolvida à sua realidade banal de pessoa presente, sem o prestígio misterioso da mulher que partira”.

POBRE MORA ONDE JUDAS PERDEU AS BOTAS

Os cursos de inglês (e há um deles em cada esquina) recomendam cuidado ao traduzir a expressão It’s raining cats and dogs, que, nessa língua de barbares, não quer dizer que as nuvens nos estão bombardeando com cães e bichanos, mas que está chovendo muito.  Em português, dir-se-ia que chove a cântaros; em “brasileiro”, que está caindo um toró. Temos, sim, grande cabedal nessa área. Aqui, procuram-se chifres em cabeça de cavalo, a corrupção dá no meio da canela, a mídia bota a boca no trombone, os pobres moram onde Judas perdeu as botas (mesmo lugar onde o vento faz a curva), pagam o pato e ficam a ver navios.

COM A GLOBALIZAÇÃO, A BOBAGEM CRESCE

A repórter da Rede Record, descrevendo as consequências de um acidente ecológico num rio, afirma: “O cheiro de óleo aqui é bastante forte”. Mas sua coleguinha da Globo, no Telecurso, conseguiu sair-se pior: “O Japão foi bastante arrasado na Segunda Guerra”. No começo, empregar bastante em lugar de muito era só um regionalismo. Hoje, com essa tal de globalização, a bobagem rompeu a fronteira paulista, espalhou-se feito chuchuzeiro de beira de cerca e atravessou mares nunca dantes navegados: os exemplos citados ocorreram em Cascavel/PR e Rio de Janeiro. E o segundo foi numa teleaula, o que lhe dá risco de crescer e multiplicar-se.

A PALMATÓRIA (AINDA BEM) FOI PROIBIDA

Muito e bastante não são sinônimos, salvo na linguagem das ruas (em São Paulo e adjacências). Seus significados principais são bem conhecidos: muito é em grande quantidade, em abundância, excessivo, demasiado; bastante (de sentido mais restrito) é o que basta, suficiente, necessário, na medida certa. A repórter, se não estivesse em moda o horror à simplicidade de estilo, diria: “O cheiro de óleo aqui é muito forte” – e guardaria o bastante para momento oportuno. Quanto a dizer (numa aula!) que o Japão foi bastante arrasado, não há perdão possível: é erro grosseiro que, aplicada a lei do professor Chalupp, seria punível com bolos de palmatória.

A REGRA: “COMPLICAR SE FOR POSSÍVEL”

O verbo arrasar é parecido com o verbo engravidar, se me entendem. Assim como as mulheres não ficam “bastante grávidas”, um país (o Japão, no caso) não tem como ficar “bastante arrasado”, a não ser na cabeça oca de certos profissionais. Nos dois casos, curiosamente, deve-se dar folga, igualmente, a muito e bastante: mulher “muito grávida” seria uma estupidez semelhante à mencionada. Resumindo, o Japão foi arrasado (assim, sem qualquer penduricalho), enquanto a mulher da nossa hipótese ficou grávida (embora possa também ficar arrasada com tal ocorrência). A regra nas redações parece ser “complicar, sempre que possível”.

UM PROFESSOR QUE DISPENSAVA PICILONES

Se o folclórico professor de Direito alguma vez maltratou seus alunos (sempre com um dichote na ponta da língua), a mídia regional o maltratou muito mais: chamou-o de Acioly, Aciolly, Accioly, Acciolly e, em menor grau, Acioli. Repórteres precisam, diante de nomes fora do comun, ter comportamento diferente dos maus policiais: antes de bater, perguntar. Certa vez, por imposição profissional, inquiri o citado professor sobre como grafar seu nome.  A resposta veio em jeito irritado-gozador-didático, marca Acioli da Cruz Moreira: “Meu nome não tem consoante dobrada nem picilone”. Picilone? Sim, picilone.

O PICILONE É ESNOBADO PELOS DICIONÁRIOS

O picilone é uma espécie de filho bastardo da língua portuguesa: existe, mas os filólogos lhe fecham os olhos, viram a cara e arrebitam o nariz. Está na rua e em registros de obras artísticas, mas os dicionários não o aceitam. É palavra de indisfarçável sabor brasileiro, contra o ípsilon, que tem gosto de coisa importada. O picilone não está no Aurélio, nem no Michaelis, não tem assento no Priberam (português), nem, suponho, no Houaiss. Zé Dantas, em ABC do Sertão/1953 (com Luiz Gonzaga), diz que “até o ípsilon,/lá é picilone” e, ao “ensinar” o alfabeto lista: “… tê, u,vê, xis, picilone e zê”.

NOEL EMPREGOU A LETRA COM DOIS SENTIDOS

Houve em 1931 um Acordo Ortográfico que “cassou” as letras K, W e Y (agora reintegradas). Noel Rosa se valeu da oportunidade e fez Picilone (para a menina Yvone, irmã de um amigo), quando empregou dois sentidos da palavra: como gíria e como letra do alfabeto. “Yvone, Yvone/eu ando roxo/pra te dizer um picilone”, canta o Poeta da Vila, e, em seguida, diz o picilone: “Já reparei outro dia/que o teu nome, ó Yvone,/na nova ortografia,/já perdeu o picilone”. O coco Sebastiana, de Rosil Cavalcanti/1953, fala de uma comadre Sebastiana que foi convidada para dançar e xaxar lá na Paraíba, e deu o que falar.

DESVAIRADA, SEBASTIANA GRITA: PICILONE!

Essa respeitável senhora “veio com uma dança diferente e pulava que só uma guariba” (espécie de macaco bugio, barbado e barulhento).  Pois saibam todos que essa surpreendente comadre Sebastiana, desvairada no meio do salão, gritava (por motivações incertas e não sabidas, mas com o testemunho insuspeito do grande Jackson do Pandeiro) “a, e, i, o, u… picilone!”. A comadre Sebastiana era, já se vê, atrevida, pois meteu um picilone entre as vogais, sem pedir licença aos linguistas. Rastreado em Ilhéus (1996), Pernambuco (1953), Rio (1931) e Paraíba (1953), por que o picilone não está nos dicionários?

A “ARITMÉTICA” DE JACKSON DO PANDEIRO

É clicar e ver o Rei do Ritmo, um cantor que divide as frases com maestria, uma espécie de professor da matéria: o paraibano Jackson do Pandeiro (1919-1982), mostrando o picilone da comadre Sebastiana (o picilone de Zé Dantas está num clipe especial desta coluna – reveja aqui).



(O.C)

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CAYMMI E A ESCOLHA DO VERBO ACONTECER

Ousarme Citoaian

Falamos aqui do verbo acontecer e seu bom uso, exemplificando com o clássico de Caymmi, Não tem solução (“Aconteceu um novo amor/ que não devia acontecer…”). Como conversa puxa conversa, chegamos hoje a outras acontescências (o termo foi inventado por Vilma Guimarães Rosa, que tem pedigree suficiente para tanto): o verbo está bem distribuído na MPB, pois só o mesmo Caymmi o empregou com certa prodigalidade em composições além da citada.  “Acontece que eu sou baiano,/ acontece que ela não é/ minha Nossa Senhora,/ meu Senhor São José”, diz ele em Acontece que eu sou baiano/1943.

EM CARTOLA, NINHO VAZIO, CORAÇÃO FRIO

Numa de suas melhores canções românticas, o cantor do mar da Bahia é didático sobre o sentido que defendemos para o verbo acontecer: “O amor acontece na vida/ estavas desprevenida/ e por acaso eu também” (Nem eu/1949). Perceba-se que o acontece é algo surpreendente, não está planejado, atinge os amantes distraídos. Cartola não deixa por menos: “Acontece que o meu coração ficou frio/porque nosso ninho de amor está vazio” – trazendo o mesmo sentido do não planejado: de repente (não mais que de repente), a ave bateu asas, ganhou o espaço, deixou vazio o primitivo ninho. Acontece.

O AMOR NOS IMPÕE URGÊNCIA E SURPRESA

Depois de Caymmi e Cartola, chega a vez de Abel Silva (com João Bosco), em Quando o amor acontece/1976: “O amor quando acontece/ a gente logo esquece/que sofreu um dia”.Vinícius disse que a mulher amada não vem; surge. Então é isso. Mesmo se estamos à espera, o ser amado acontece, emerge, sempre nos pega desprevenidos, nos impõe urgência e surpresa, taquicardia e respiração entrecortada. Os meninos Kim, César e Júlio, do ex-gospel Catedral atestam (Quando o amor acontece): “Quando o amor acontece/ é difícil dizer não”. Tudo muito longe da pobreza do acontece das colunas sociais e dos convites mal redigidos.

JORGE AMADO E SUA “SINFONIA INACABADA”

Bóris, o Vermelho é talvez o livro não publicado que mais teve espaços na mídia. Jorge Amado não lhe pôs o ponto final (e determinou que seus trabalhos não concluídos jamais venham a público). Bóris, de nome russo, é um hippie de Itapuã, de cabeça oca, interessado somente em surfe e erva. O sobrenome Vermelho se impôs devido a seu cabelo sarará. É na ditadura militar e um cara chamado Bóris, o Vermelho não fica impune, segue o figurino: prisão, tortura e morte (talvez por ser “morredor”). Apesar da cobrança dos rodapés dos jornais, o livro cedeu espaço para Tocaia grande, O sumiço da santa e outras obras, permanecendo como uma espécie de sinfonia inacabada do filho de Ferradas.

LIVRO QUE ESTAVA “EM TODOS OS JORNAIS”

Certa vez, numa coletiva em Ilhéus, Jorge Amado (foto) foi “alugado” por uma repórter, que lhe fez várias perguntas mais ou menos ociosas, às quais o escritor respondia pacientemente. Mas tudo tem limite. Lá pras tantas, quando ela perguntou se ele estava trabalhando “em algum livro, atualmente”, o autor de Terras do sem fim quase saiu do sério. Respirou fundo, virou-se para o poeta Telmo Padilha, que o acompanhava naquela aventura, e soltou, entre dentes: “Telmo, assim eu não aguento”. Mas agüentou. Repregou o sorriso no rosto, chamou a repórter de “minha filha” e lhe explicou, com certo enfado, que tecia um romance (era Bóris, o Vermelho), que estava “em todos os jornais”.

GREEN, TRANQUILO: “LEIA MEUS LIVROS”

Mas nem todo mundo tem a bonomia de Jorge Amado. Em 1958, o escritor Graham Greene (foto) esteve no Brasil e, ainda no aeroporto Tom Jobim (então chamado Galeão), deu uma exclusiva ao irrequieto repórter Severino de Albuquerque, dos Diários Associados. Ou melhor, quase deu, pois só houve uma pergunta e uma resposta. Severino: Mr. Greene, quais são os livros que o senhor escreveu? Mr. Greene (com tranquilo ar britânico, mesmo sem cachimbo): Meu filho, volte para casa, leia meus livros e só depois venha me entrevistar. A historinha eu tirei do delicioso Nonadas – O livro das bobagens (Flávio Moreira da Costa – Francisco Alves/2000), ótima leitura para pessoas de bom ou de mau humor .

ANTIGA LIÇÃO QUE MUITOS NÃO APRENDERAM

Há quem ache que Greene (1904-1991), autor de clássicos lidos em todo o planeta (por exemplo, O poder e a glória, Nosso homem em Havana), foi muito duro com o repórter. Eu, não (até porque ele respondeu em tom educado). A mais primária das lições que um entrevistador aprende é que ele precisa conhecer o básico sobre o entrevistado. Repórter que pergunta a um escritor (músico, pintor, ator e outros) o que ele fez, conforme já vi em nossa mídia, revela-se, além de ignorante do assunto, despreparado profissional e grosseiro com a pessoa entrevistada. O autor de O americano tranquilo deixou uma lição que não deve ser desdenhada pelas novas gerações de comunicadores.

ATRAPALHAÇÃO AO REDOR DE POLICHINELO

Em edição recente, conhecido jornal diário de Itabuna, referindo-se a uma investigação conduzida pelo Ministério Público Estadual, afirma: “Ninguém toma conhecimento do que irá acontecer com os vereadores que tiveram participação na malandragem da Câmara”. E conclui, para minha mais absoluta palidez de espanto: “É um segredo polichinelo (sic), guardado a sete chaves”. Data vênia, creio que foi confundido o significado dessa expressão popular e antiga, velha de muitos séculos, quando ainda estava em moda a Commedia dell´Arte, talvez mãe e pai do teatro de rua.

AFINAL, O QUE É “SEGREDO DE POLICHINELO”?

Segredo de Polichinelo (assim, com preposição e P grande!) significa, ao contrário do publicado, alguma coisa que é considerada segredo, mas que todos já sabem, isto é, aquilo que alguém trata confidencialmente, mas que deixou de ser segredo, é algo de conhecimento público. A referência é ao personagem Polichinelo (na ilustração), da modalidade teatral européia (italiana, mormente) Commedia dell´Arte (com início lá pelo século XVI). Elementos mais conhecidos desse gênero são Colombina, Pierrô e Arlequim, um triângulo amoroso do Carnaval, na já longínqua era pré-trio elétrico.

PIERRÔ CHORA PELO AMOR DE COLOMBINA

Esses elementos ítalo-franceses estão incorporados à nossa cultura, via MPB: “Pierrô, Pierrô/ teu destino, tão lindo/ é sofrer, é chorar toda a vida…” (Pierrot, Joubert de Carvalho-Paschoal Carlos Magno/1932); “Um Pierrô apaixonado/ que vivia só cantando/ por causa de uma Colombina/ acabou chorando, acabou chorando” (Noel Rosa-Heitor dos Prazeres/1936); “Colombina eu amei/ mas você não quis/ eu fui para você/ um Pierrô feliz” (Colombina, Armando Sá-Miguel Brito/1956); “Arlequim está chorando/ pelo amor de Colombina/ no meio da multidão” (Máscara negra, Zé Kéti/1967).

POLICHINELO PARECE RIR DOS APAIXONADOS

Polichinelo é uma espécie de palhaço, que parece se divertir com a confusão de sentimentos que vê a seu redor: Pierrô ama Colombina (foto), que ama Arlequim, que ama todas as belas damas do salão. Na irônica canção de Noel e Heitor, o triângulo amoroso da Commedia dell´Arte aterrissa no Carnaval do Rio de Janeiro e, por extensão, na cultura brasileira. Clique e (re) veja a leitura da dupla, na voz de Betânia.
(O.C)

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A MOCINHA, AO ESBARRAR, FALA “DESCULPA”

Ousarme Citoaian

Em Lisboa, a mocinha brasileira esbarra numa senhora carregada de pacotes, criando natural constrangimento. Avoada, porém com relativa educação, ela balbucia um “desculpa”… e entorna de vez o caldo! A senhora lisboeta ficou mais irritada com o “desculpa” do que com o encontrão. É que em boa linguagem se diz “desculpe”, segundo o professor Cipro Neto, aquele da tevê. Eu falo “desculpe”, mas nunca fui às fuças de ninguém (menos ainda duma rapariga avoada) que tropeçasse em mim e dissesse “desculpa”. Também serve, ao esbarrar, dizer, com ar angelical: “Você (a senhora, o senhor) me desculpa?”

TUDO DEPENDE DO TOM DE VOZ E DA ATITUDE

“Desculpa” irrita os lusitanos porque tem um tom imperativo, mandatório, como se ordenasse à vítima que desculpasse a grosseria que lhe fizemos. Já “desculpe” parece mais humilde, o pedido de alguém que, de verdade, lamenta o que fez. É assim que eu penso, na companhia de alguns gramáticos. Mas não creio que haja unanimidade quanto a isso, além do que “desculpa” ou “desculpe” terão valores muito próximos, a depender do tom de voz e da expressão facial de quem as pronuncia. Sugere-se que, ao pisar no calo de alguém, mostre-se sentido com o ato – e a palavra será secundária.

AS DUAS FORMAS SÃO ENCONTRADAS NA MPB

Padre Zezinho escreveu em Desculpa, mãe: “Desculpa minha mãe/ por não saber te agradecer/ desculpa pelas faltas de respeito/ desculpa este teu filho que cresceu”. Enock Figueiredo, em sequência a Trem das onze, de Adoniran Barbosa, compôs Desculpe, mãe – quando optou pelo emprego do verbo na chamada norma culta: “Desculpe, mãe/ não é por isso que eu vou lhe esquecer/ perdi o trem das onze hora/ sei que irá compreender/ papai também amou a você”. Não preciso explicar que, das duas formas, peço desculpa a quem não concordar, mas prefiro desculpe.

O TOM IMPERATIVO É BOM… PRA CACHORRO

Um anúncio da Caixa Econômica Federal, atualmente na televisão, está em total desacordo com a regra: “Passa na lotérica e faz um X-Cap”, diz a garota, cujo sorriso aberto não reduz o tom ordenatório que me chega. Não é “passa e faz”, mas “passe e faça”. Em geral, “passa”, “entra”, ”sai”, ”deita” são formas recomendadas para usar com nosso cachorro. Mas nem tudo são espinhos: “Quero fazer deste Café um ponto de encontro entre mim e o povo brasileiro”, afirmou a presidenta Dilma, ao estrear o programa de rádio Café com a Presidenta. “Entre mim…” – nestes tempos bicudos, são flores gramaticais.

SPADE: CINISMO E FRIEZA CONTRA O CRIME

“Se for uma boa menina, sairá em 20 anos e eu estarei esperando. Mas se pegar a forca, sempre me lembrarei de você” (Humphrey Bogart para Mary Astor, em Relíquia Macabra/1941, de John Huston).  Bogart é Sam Spade (na foto, o primeiro à esquerda), o detetive mais cínico que a literatura já criou. Suas frases, a exemplo desta, são deliciosas. “Não acreditamos na sua história; acreditamos nos seus 200 dólares”, afirma à cliente. Quando Astor, derretida, diz que ele “caiu do céu”, a resposta é fria como gelo: “Não exagere”. Terno, ele “afaga” a secretária: “Você é um anjo… com coração de cascavel”. Durão, explica ao bandido pé de chinelo: “Se eu lhe der um tapa, vai ter de gostar”.

ENTRE SPADE-HAMMETT E MARLOWE-CHANDLER

O Falcão maltês, livro de Dashiell Hammett (1894-1961), que inspirou o filme, é um clássico noir dos mais cultuados. O detetive Sam Spade, que só aparece nesse romance (além de uns poucos contos que não li), é tido como um dos personagens responsáveis pela consolidação do gênero. Hammett e Spade têm muito a ver, segundo os críticos, com Raymond Chandler (1888-1959) e seu investigador particular Philip Marlowe. A propósito, recebi e (re) li, em fevereiro, uma caixa de cinco volumes de Chandler-Marlowe. Outra confidência: tive uma cadela chamada Asta, como a do ex-detetive Nick Charles, de A Ceia dos acusados (Hammett). Sou fã do romance negro, já se vê.

SÓ “25 DÓLARES POR DIA, MAIS DESPESAS”

Mero leitor, tenho cá os meus indicadores do romain noir, sujeito, é claro, a reprimendas dos exegetas do gênero: narração na primeira pessoa, um crime, a femme fatale (mulher capaz de levar um bom homem à ruína) e o conflito policial-detetive, além das marcas clássicas deste: frieza, cinismo e incorruptibilidade (nem a mulher fatal o tira do sério). Outro clichê muito presente: ele é solitário, tem complexo de culpa e drama de consciência, bebe feito uma raposa e cobra “25 dólares por dia, mais despesas”. Para Marlowe (Chandler), creio que em A dama do lago, esse dinheiro é, basicamente, para gasolina e uísque, não exatamente nesta ordem. Ele não quer enriquecer; quer apenas beber e consertar o mundo.

CONTEÚDO É PRECISO; NOME NÃO É PRECISO

A cantora Joyce (foto) atende também por Joyce Moreno, devido ao nome do marido, o baterista Tutty Moreno. Mas não costumo aderir a tais “novidades” (eles são casados há apenas 34 anos!): ainda chamo Jorge Benjor de Jorge Ben, Baby do Brasil de Baby Consuelo e Joyce Moreno de Joyce, pois não ligo muito pra nomes. Ulisses Guimarães chamava o PMDB de MDB, sendo fiel à sua saudade.  Conteúdo é preciso; nome não é preciso. Até pensei em mudar o meu para Formê vô  Bataion, mas fui desaconselhado: Mercúrio e Vênus estão em Áries e Plutão está em Capricórnio, tornando a mudança positivamente desastrosa. Mas voltemos a Joyce Moreno.

UMA MULHER E SUA COLEÇÃO DE ADJETIVOS

Conheci a artista, por imposição profissional, nos anos noventa. Causou-me impressão bem diferente de alguns falsos valores que pululam por aí, montados numa empáfia de fazer pena, talvez para disfarçar o vazio de que são possuídos. Na época, consegui que ela cantasse Clareana (feita para suas filhas Clara e Ana, mais de dez anos antes, em 1980). Adoro essa música, meio berceuse, meio canção de ninar, uma cantiga de mãe-coruja, se me permitem a invenção. Pois eis que há poucos dias, em seu artigo semanal em rede de jornais, Caetano disse estar ouvindo Clareana e pôs Joyce nas alturas.

CANTORA AFINADA E “MÚSICO” EXCEPCIONAL

Para o filho de Dona Canô, Joyce é uma violonista excepcional, da estatura de João Gilberto, Dori Caymmi, Gilberto Gil e João Bosco, “cantando com afinação precisa, compondo com imaginação harmônico-melódica original”. Comparando Joyce e Elis Regina, Caetano afirma que “Elis é a cantora mais músico que chegou ao estrelato no Brasil e Joyce é o maior músico entre as cantoras que vieram depois”. Não é pouco, vindo de quem vem. Gosto de ver assim atestada como verdadeira minha impressão de Joyce e partilhada a sensação que tenho ao ouvir Clareana – aqui num clipe do Fantástico/1980, mostrando a cantora, Clara e Ana.

(O.C)

 

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A LINGUAGEM E A TRIANGULAÇÃO AMOROSA

Ousarme Citoaian
Num jornal de Itabuna leio esta intrigante manchete: “Por dinheiro, se juntou ao amante para matar o outro” – e fico com a sensação de que o leitor não vai, de primeira, entender o que se lhe quiseram transmitir. E isto não é bom, pois manchetes precisam ir direto ao leitor, por linhas retas, contornando parábolas e elipses. Releio. E concluo que uma mulher se consorciou com um sujeito, para matar outro. É a velha (e, não raro, fatal) triangulação amorosa, que está em moda desde o dia em que Deus inventou homem e mulher e o capeta os misturou. Mas, no caso, houve uma segunda vítima: a boa linguagem.

QUEM NÃO EXISTE, NÃO PENSA E NÃO MORRE

Os artigos precisam ser respeitados pelos redatores: o amante é uma coisa; um amante é coisa diversa. Se escrevo “João é o amante de Maria”, quero dizer que Maria tem, digamos, um caso com João; se escrevo “João é um amante de Maria”, digo que Maria é danadinha, roda muito, anda com mais de um felizardo. E agora? Quanto à manchete referida estamos diante da impossibilidade absoluta: a boa moça “se juntou ao amante”, portanto, só tinha um; logo, “o outro” não existe – e se não existe não pensa (como explicou o filósofo) e, em compensação, não morre (como o sabem até os postes). Conclusão: não houve crime.

PREMISSA FALSA LEVA A CONCLUSÃO FALSA

Conclusão falsa, porque parte de premissa falsa. A gentil senhorita não se associou “ao amante”, mas “a um amante”. Dentre os dois (revelados!), ela se juntou a um, para assassinar o outro. Houve homicídio, sim, e – nos diz o jornal – com minúcias que interessariam aos estudantes de medicina legal e causariam frouxos de riso nos cultores do humor negro. Está no texto: “Para praticar o crime, o casal utilizou enxada, faca, porrete, cacos de garrafa e uma pedra”. Se o casal de assassinos não era competente, ou se a vítima estava mesmo decidida a permanecer neste vale de lágrimas, resta a dúvida.

ONDE TERIAM FICADO AS LETRAS E OS SONS?

Não nasceu ultimamente nenhum Machado de Assis, ninguém toca como Miles Davis ou canta rouco feito Armstrong (foto). Onde o verso de Bandeira e Drummond, o som do Zé-Pereira, a serenata de Orestes Barbosa, o violão de Baden, a crônica de Rubem Braga e Fernando Sabino? Cadê Antônio Maria e Noel, espargindo dor de amor nas estrofes?  Há quem afirme que os grandes livros já foram escritos, os filmes feitos e a música, gravada. Disso não sei. Mas sei bem da aridez dos tempos, tempos de descartáveis autores e obras natimortas. E sei também que o tempo, juiz exigente, me disse que a arte destituída do eterno sopro da juventude será espectro de arte, não arte.

POBRE VIDINHA DE GOLPES E ESPERTEZAS

A arte verdadeira tem um estoque infindável de emoção, alguma coisa que faz chorar – como diria Vinícius. A arte arrepia. Assim é Malagueta, Perus e Bacanaço, obra-prima do conto brasileiro, de João Antônio, que releio – o drama e a solidão de pequenos perdedores, anti-herois esmagados pela cidade grande. São três malandros, andarilhos, comparsas em suas vidinhas de golpes, espertezas e dissimulações, num tour noturno que começa na Lapa, passa pela Barra Funda e termina em Pinheiros, depois de passar por Água Branca e o centro. Exímios jogadores de sinuca, vão à cata dos mocorongos, trouxas, pixotes, enfim, otários para depenar. Piranhas famintas, boca aberta na noite. Perdidos.

TESES APROXIMAM JOÃO ANTÔNIO E JOYCE

Os malandros chegaram à tela em O jogo da vida/1977, de Maurice Capovilla (foto), com Lima Duarte (Malagueta), Gianfresco Guarnieri (Perus) e o gualberiano Maurício do Valle (Bacanaço) – além da participação de Carne Frita, o mestre maior da sinuca. As teses, estudos, análises e ensaios sobre esta obra de João Antônio encheriam uma livraria. Há até (pelo menos) um estudo de literatura comparada que aproxima Malagueta…/1963 de Dois Galantes/1914: João Antônio é James Joyce e São Paulo é Dublin, espaços de desgosto e sofrimento. O caminhar perene desses vagabundos (como se andassem à volta de si mesmos) parece nos dizer que, lá e cá, a grande cidade não costuma dar lugar aos deserdados sociais.

O AUTOR CONVERSA COM SEUS PERSONAGENS

O encontro de criador e criaturas: no sentido anti-horário, João Antônio (segurando uma bola de sinuca) e os malandros Malagueta/Lima Duarte, Perus/Gianfrancesco Guarnieri e Bacanaço/Maurício do Valle.

NO MEIO DA FICÇÃO SURGE UM ÍDOLO REAL

João Antônio faz sua sinuca de ficção encontrar na madrugada paulista um ídolo do jogo jogado, “moço, baixinho, com olhos de menino”, sobre quem derrama seu afeto: “Ninguém daria nada àquele, parado à esquina da Santa Ifigênia, dando um gesto de mão a Malagueta, Perus e Bacanaço. Fossem ver… Sua história abobalhava, seu jogo desnorteou todos os mestres”. E aconselha: “Botassem respeito, sentido e distância, com silêncio e consideração”. É a homenagem do autor a Carne Frita, lenda viva da sinuca (na foto, à direita, junto a Noel; à esquerda, o itabunense Rui Chapéu). Este texto é minha homenagem a Vadu Baié e Vivi Guimarães, piranhas do pano verde, e ao professor Adylson Machado, que conhece como poucos a sociologia do joguinho.

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CONTRIBUIÇÃO DE ZÉLIA À OBRA DE JORGE

A escritora Zélia Gattai (1916-2008), segunda mulher de Jorge Amado, era uma senhora muito bem humorada e consciente de que vivia com uma celebridade. Modesta, não procurou abrir caminho à sombra do marido famoso e tampouco extrapolou seu papel. Numa entrevista (já nem me lembro quando e em que veículo), perguntaram-lhe sobre a contribuição que ela teria dado à obra de Jorge – uma pergunta tentadora para quem pretende mostrar-se mais importante do que é na verdade. A autora de Chão de meninos contou a história que reproduzimos aqui, sujeita a pequenas falhas de memória .

O ESTRANHO PEDIDO PARA SOLTAR A VOZ

Certa vez, batucando em sua velha Remington, Jorge a chamou e lhe pediu que cantasse Só louco, de Caymmi, então em voga. “Agora?”, perguntou Zélia, vendo em risco a sanidade do marido. “Agora”, confirmou ele, aflito. “Pedido mais estranho”, pensou a boa Zélia, mas não se fez de rogada e soltou a voz: “Só louco amou como eu amei/ só louco quis o bem que eu quis/ Oh, insensato coração…” “Chega”, disse Jorge (foto). E explicou à mulher atônita que se esquecera de uma palavra, mas sabia que ela estava na letra de Caymmi. “Minha contribuição à obra de Jorge é a palavra insensato”, brincou Zélia.

MARISA MONTE, GAL, BETH CARVALHO, JOÃO

Quando vi na tevê uma chamada de Insensato coração, imaginei que Só louco/1956 estaria na trilha. Fui ao Google e… na mosca! Também soube que essa música embala o folhetim das nove pela segunda vez. A primeira foi em O casarão/1976. E sabem o que mais? Gostei. A Globo volta e meia dá folga a Roberto Carlos, Zezé de Camargo, Xitãozinho e outros chororões e se permite nos oferecer surpresas: Marisa Monte (O Salvador da Pátria/1989), Beth Carvalho (Duas Vidas/1977) e o luxuoso grupo (aqui comentado há dias): João-Astrud Gilberto-Tom Jobim-Stan Getz  (Laços de família/2000). Nem tudo são ruídos. No vídeo, Gal e Caymmi, com o tema famoso.

(O.C.)

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CAETANO VELOSO TEM OUVIDO PRIVILEGIADO

Ousarme Citoaian
Que João Gilberto “fala muito bonito” é avaliação de Caetano Veloso, feita há algum tempo.  “E João Gilberto fala?” – perguntei a meus botões, de forma retórica. Eles nada responderam (que querem?), nem precisava, pois João não fala, apenas exala da vitrola “aquele seu jeito encantado de cantar (…), com sua inconfundível divisão”, assim falou Rosa Passos. Talvez o mano Cae seja um desses privilegiados que têm ouvidos de ouvir a voz falada do cantor juazeirense. Ou não. Para mim, quem “fala bonito” de me deixar extasiado é outro baiano: Gilberto Gil.  Encontrei-o na revista Muito (grupo A Tarde), discorrendo sobre a velhice e outras doenças (ele tem 68 anos).

A SUBSTITUIÇÃO DA CRENÇA PELA DESCRENÇA

Ouçamo-lo: “Você passa a ter que responder a si próprio de maneira diferente, a dizer sim de maneira diferente, a dizer não mais severo, com mais intensidade, mais frequência. Passa a aceitar o sentimento da renúncia com mais resignação (…). A velhice é uma nova infância, no mesmo sentido dos cuidados específicos.” Invertendo os polos: “A juventude para mim, agora, é outra história, ela tem que se dá no sentido espiritual, da disposição para o encontro permanente com as instâncias de bem-estar, com a resignação, a capacidade de renúncia”. Interrogado sobre sua “transformação em agnóstico” disse que substituiu “a crença pela descrença”. Isto é falar bonito.

A VELHICE VISTA COM BELEZA E SABEDORIA

Ainda a propósito da questão religiosa, ele diz: “Hoje eu não creio nem descreio, não sinto necessidade da eleição dos objetos da crença, o Deus, os entes externos que habitam este mundo da transcendência. Nem preciso deles nem preciso do ateísmo. E não preciso achar, como eu achava antes, que quem acredita é melhor do que o incréu. Ou achar hoje que o incrédulo é melhor. Quem escolhe uma polaridade tende a achar que o outro não está certo, que ele é menor. É isso que autoriza o processo catequético, e eu não quero ter essa necessidade, me tornar missionário, discriminatório, juiz de nada”. Dizer que “a velhice é uma nova infância” – me soa pra lá de bonito: profundo.

OSCAR DECIDIDO ENTRE O VELHO E O NOVO

O Oscar de 2011, polêmica premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, já com mais de 80 anos, mostra neste domingo a velha dicotomia.  Os filmes favoritos – O discurso do rei e A rede social, na opinião do crítico Rubens Ewald Filho (foto) – são antagônicos em sua feitura e propostas. “O discurso… é um antiquado e muito bem feito filme inglês, com tudo direitinho, no lugar certo e com grandes interpretações; A rede social é um filme moderno, de um assunto pertinente, e tem a originalidade de o herói ser um filho da mãe, ou seja, um sacana que ganha US$ 4 bilhões. Não deixa de ser um retrato do nosso tempo” – resume o crítico.

FAROESTE PODE TER OUTRO OSCAR DE ATOR

Fã do faroeste (o gênero é a essência do cinema americano), aposto em Bravura indômita. É a saga de uma menina de 14 anos em busca de justiça, com a ajuda de um pistoleiro caolho, beberrão e mau humorado. A história é de 1969, filmada por Henry Hathaway, tendo John Wayne (Oscar de melhor ator daquele ano) e Kim Darby nos papéis principais. Agora, a direção é dos irmãos Joel e Ethan Coen, o pistoleiro é Jeff Bridges e a mocinha é a estreante Hailee Steinfeld (foto). Bravura… recebeu dez indicações, entre elas de filme, direção, ator e atriz coadjuvante (Steinfeld). Rubens Ewald Filho não gostou, é claro – disse que é “deprimente”.

BROKEBACK… OFENDEU O PALADAR CLÁSSICO

Se Bravura indômita ganhar algum Oscar (as dez indicações nada lhe garantem), junta-se à pequena relação de faroestes para os quais a Academia já se dignou de olhar. Sem pretensão de esgotar a lista, lembro: No tempo das diligências/1939 (dois), Matar ou morrer/1952 (quatro, com melhor ator para Gary Cooper), Os brutos também amam/1953 (um), Dívida de sangue/1965 (ator para Lee Marvin), Dança com lobos/1991 (o campeão, com sete prêmios) e Os imperdoáveis/1992 (filme, diretor, ator e atriz coadjuvantes). O único premiado antes dos anos noventa foi o pouco conhecido Cimarron/1931. Em 2006, Brokeback mountain, que os fãs do bangue-bangue consideram uma ofensa ao gênero, levou três estatuetas (incluindo diretor). O discurso… e A rede… são os cavalos de Rubens Ewald; Bravura…, minha zebra.

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O HOMEM QUE CONVERSOU COM A ÁRVORE

Ou o caso é de prosopopeia (também dita personificação) ou a figura tem nome que não alcanço. A mim me importa, mais do que nomenclatura, conteúdo: o sujeito conversa com uma árvore, a ela conta suas mágoas sentimentais (“Juazeiro, juazeiro,/ me arresponda por favor/ Juazeiro, velho amigo,/ onde anda meu amor?”) e ainda lembra ao pé de juá que ele tem responsabilidade no caso (“Juazeiro, meu destino/ tá ligado junto ao teu/ no teu tronco tem dois nomes/ ela mesmo é que escreveu”). E assim vai a confissão de amor ferido, num crescendo de emoção. Talvez por ser mais sensibilidade do que razão, se me eriça a pele cada vez que escuto Juazeiro (Humberto Teixeira-Luiz Gonzaga/1948).

A ESPERANÇA AMOROSA CEDE AO SOFRIMENTO

Há ali a humana dúvida (“Juazeiro, seja franco/ ela tem um novo amor?), a desconfiança (“Se não tem por que tu choras/ solidário à minha dor?”) e, com a cruel descoberta, a queda, a vitória do sofrimento sobre a esperança (“Ai, Juazeiro/eu não guento mais roer/ ai, juazeiro/ eu prefiro inté morrer”). Obra-prima de MPB romântica. Para quem se interessa por essas filigranas do falar brasileiro, digo que roer significa, em “pernambucanês”, sofrer por amor, curtir dor-de-cotovelo. Humberto Teixeira repetiria o regionalismo em Qui nem jiló/1949: “Saudade assim faz roer/ amarga qui nem jiló”. A matéria-prima do verbo roer é a ausência do ser amado, o amor não correspondido e cardiopatias semelhantes.

CULTURA NORDESTINA INTOCADA PELO JAZZ

Juazeiro é um tema adaptado por Luiz Gonzaga, a exemplo de Asa Branca. A melodia, de tristeza intensa, se aproxima do blues (não foi por acaso que a cantora Peggy Lee a gravou – com outra letra e sem os nomes dos autores). Em 2001, Dominguinhos reuniu mais de vinte artistas e com eles gravou dois CDs em homenagem ao Rei do Baião. O guitarrista Heraldo do Monte (foto) fez um arranjo primoroso para Juazeiro, retomando aquele “nhã-nhã-nhã” típico dos violeiros de feira que Gonzaga adaptou em Asa Branca. Autor e executante extraordinário, além de profundo conhecedor da cultura musical de sua terra (que não foi afetada pelo tempo em que tocou jazz nos Estados Unidos) HM nos dá, com seu arranjo, um Juazeiro novo .

A DILACERANTE TRISTEZA DE JANE DUBOC

A leitura de Dominguinhos para o texto de Humberto Teixeira mostra um homem de coração despedaçado; Jane Duboc (foto), na segunda parte, é de uma tristeza comovente – e quando diz “eu prefiro inté morrer”, eu sinto a garganta apertada (o clipe é especial para esta coluna).

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 6 minutos

O TREM DE ASCENSO FALA E SE FAZ OUVIR

Ousarme Citoaian
“Ascenso, me mande um cartão!”, diz Antônio Maria em homenagem (Frevo nº 3 do Recife, aqui apresentado), ao primeiro poeta de quem me lembro ter lido na infância: Ascenso Ferreira (foto). Gosto muito de Trem de Alagoas: “O sino bate,/ o condutor apita o apito,/ solta o trem de ferro um grito,/ põe-se logo a caminhar”. Penso que é poema para ser analisado em sala de aula, tal a opulência estilística que oferece. O trem, por exemplo, é humanizado, “fala” e, no seu discurso, se faz ouvir (personificação) “- Vou danado pra Catende,/ vou danado pra Catende,/ vou danado pra Catende,/ com vontade de chegar”.

DE MANGABAS MADURAS E MAMÕES AMARELOS

Ao descrever o velho trem de ferro rasgando a zona da mata pernambucana, o poeta produz poderosas aliterações, de início com “Mergulham mocambos/ nos mangues molhados,/ moleques, mulatos/ vêm vê-lo passar” e, logo em seguida, “Mangabas maduras,/ mamões amarelos,/ mamões amarelos,/ que amostram molengos/ as mamas macias/ pra a gente mamar”. Em alta velocidade (“Vou danado pra Catende, /vou danado pra Catende…”), o trem avança para o interior e o poeta se lamenta dos deixados no litoral: “Adeus morena/ do cabelo cacheado” é verso que não requer rima, pungente no seu toque de saudade e perda amorosa.

NA HORA DE TRABALHAR PERNAS PARA O AR

A poesia de Ascenso Ferreira (1895-1965) é simples e límpida como água da fonte, pura e receptiva como uma canção de ninar. Expressa-se na língua do povo, fala de coisas e vivências do homem comum. Distanciado do hermetismo do seu conterrâneo João Cabral de Melo Neto, ele bebeu (e aqui há um trocadilho pouco sutil) nas ruas do Recife, ouviu sua gente e com ela aprendeu a ser poeta. Como no poemeto Filosofia (uma celebração do dolce far niente que o Brasil inteiro recita): “Hora de comer – comer! Hora de dormir – dormir! Hora de vadiar – vadiar! Hora de trabalhar? – Pernas pro ar, que ninguém é de ferro.”

AO REITOR, O TRATAMENTO MAIS CHARMOSO

Não creio que haja palavra com maior carga de cerimônia do que reitor – tanto assim que ela é precedida de “Magnífico”, para não me deixar mentir. Vão dizer que o Papa é chamado de Sua Santidade, o que não é mentira nem pouca coisa, porém considero Magnífico bem mais litúrgico. Mas quem foi Magnífico nem sempre o será, assim se entende num dos maiores jornais diários de Itabuna, tendo preferido atropelar esse cerimonial arcaico e dizer que “Naomar Monteiro vai palestrar em Buerarema”. Rápido e, sobretudo, rasteiro. Pareceu-me condenável intimidade com o ex-Magnífico Reitor da Ufba. Porém, isto não é grave. Grave mesmo é afirmar que ele vai… “palestrar”.

PALESTRAR NÃO É DIFERENTE DE TAGARELAR

Perlustro os dicionários (penitência que a mídia, cristamente, me impõe) e nada encontro sobre tal novidade. O que lá vejo, humildemente confesso, já sei desde tempos imemoriais: palestrar é bater papo, tagarelar,  jogar conversa fora, cavaquear, prosear – o informal, enfim. Quando essa atividade se reveste de ar solene (como no caso referido), fazendo-a irmã da conferência, diz-se em língua portuguesa “fazer palestra”.  Há alguns anos a Folha de S. Paulo, especialista na criação de bobagens, popularizou a expressão “dar palestra” (logo adotada pelos macaqueadores). Dispensável, porém menos ociosa do que “palestrar”.

FAZER PALESTRA É PRECISO; PALESTRAR, NÃO

O ex-Magnífico Reitor Naomar Monteiro de Almeida Filho é de Buerarema, vindo a ser irmão do prefeito de lá. Então, é natural que ele palestre com os conterrâneos orgulhosos de sua carreira profissional e, claro, com senhoras que o viram nascer. Por certo, alguém tagarelará, com justiça, a propósito da vida honrada e exemplar que teve seu pai, Naomar Monteiro de Almeida (político e também professor), em Buerarema e Itabuna.  Mas ele só palestrará a intervalos, caso lhe sobrem momentos bastantes para isso. Sua prioridade será fazer palestra sobre os compromissos da educação. Palestrar mesmo, só se o tempo lhe for generoso.

COMENTANDO OS COMENTÁRIOS DO “UNIVERSO”

Desde o começo, optei por participar dos comentários dos leitores, que, na imensa maioria das ocasiões têm sido muito generosos comigo. Desdenhar postagens tão elegantes seria (além de cabotinismo elevado ao cubo) fraqueza maior do que confessar que elas me fazem grande bem à alma (que querem? Mesmo que às vezes sugira o contrário, pertenço, sim, à raça humana, logo, não sou refratário a elogios que pareçam sinceros). Estes quase prolegômenos são para anunciar minha presença nos comments rotineiramente, todas as terças-feiras, a partir desta semana. Os comentários postados até a tarde daquele dia (e que requeiram alguma observação minha) serão respondidos à noite. Muito obrigado.

TEMPO EM QUE DA TELA NÃO JORRAVA SANGUE

O cinema já foi mudo, quem diria, e da tela não jorrava sangue. Em 1960, em plena febre do Tecnicolor, Psicose foi feito em P&B, para evitar que o público se chocasse com a cena do chuveiro (Hitchcock, um monsieur, recusou-se a promover um banho de sangue no seu filme – e me legou a possibilidade deste trocadilho). Depois, vieram os açougueiros, as serras elétricas, as espingardas e o sexo desabrido. Dia desses, incauto, assisti a uma chamada de telenovela que me deixou perplexo, e perplexo ainda estou: o sujeito, sem alerta prévio para tirarmos as crianças da sala, pespegou na mocinha um beijo tão bem pespegado que quase arranca, sem anestesia, as amídalas da pobre coitada.  Bons tempos, estes.

ROMANCE, COMÉDIA, MÚSICA, CANTO E DANÇA

Cantando na chuva (Stanley Donen-Gene Kelly/1952) nada tem a ver com a mistura sangue-sexo que inunda (ops!) nossas telas. É repleto de tons, do romance à comédia, com primorosas cenas de música, canto e dança, retratando a dificuldade de adaptação do cinema à linguagem falada (dos artistas passou-se a exigir, além de talento para representar, boa voz). Talvez seu único rival seja Sinfonia de Paris (1951), com aquele balé de 17 minutos como grand finale e uma penca de seis Oscar. Mas foi justo: Gene Kelly em plena forma, música de Gershwin, direção de Vincent Minelli e, como moldura, o melhor lugar do mundo, Paris, França. Eu prefiro Cantando…, só por subjetividades que um cavalheiro não explicaria, nem sob tortura.

COM O CINEMA FALADO, HOLLYWOOD FERVEU

Em 1927, Hollywood ferve. O cinema, que até então tinha em sua essência a representação muda, apenas com legendas e pianistas ao fundo (no Brasil, ficaria famoso Ernesto Nazareth e seu Odeon/1912), teve que se adequar à nova exigência do mercado. Não foi fácil, com muitos profissionais reagindo à mudança, perda de emprego, boicotes e até suicídios. Charles Chaplin esteve entre os que não gostaram da novidade. Cantando…, citado entre os melhores filmes de todos os tempos, tem sua ação nesse ambiente ensandecido. Além de Kelly, destacam-se Donald O’ Connor e Debbie Reynolds (na foto, ao lado de Gene Kelly), com apenas 19 anos (e em seu melhor papel, segundo a crítica), além de Jean Hagen, impagável como a loura burra e de péssima voz. No vídeo, Gene Kelly faz um apaixonado, numa cena inesquecível.
(O.C.)
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