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25 de fevereiro de 2020 | 03:27 pm

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

ANALFABETOS COM DIPLOMA E ANEL NO DEDO

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Vão pensar que brinco em serviço, se lhes repetir o que li: segundo o Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf), 65% dos brasileiros que concluíram o curso médio não são plenamente alfabetizados. Isto quer dizer: têm dificuldades para entender, interpretar, analisar, avaliar conteúdos, relacionar as partes do texto e distinguir fato de opinião. Se os gentis leitores e leitoras ficaram abalados, sentem-se, pois o pior está por vir: diz o Inaf que 38% das brasileiras e brasileiros de nível universitário encontram-se na mesma situação, ou seja, possuem nível insuficiente em leitura e escrita. Estes seriam os analfabetos de terno, gravata, diploma e anelão no dedo.

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Boçalidades exuberantes e barulhentas

E como fica a tese da classe média dita “formadora de opinião”, em defesa da leitura que liberta, transforma, constrói? É pregar no deserto, discursar para ouvidos moucos, mostrar imagem a cegos. Somos uma nação de analfabetos funcionais tácitos e hereditários, alguns desses (devido à sua alta titularidade sem conteúdo) autoconsiderados sumidades, quando não passam de boçalidades exuberantes e barulhentas. Recentemente, uma desembargadora do Rio, no texto de sua sentença, recomendou aos advogados da causa examinada “adquirir livros de português de modo a evitar expressões que podem ser consideradas como injuriosas ao vernáculo”.

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Atentado contra a língua portuguesa

E ela cita exemplos que atestam serem completamente ignorantes em ortografia os nobres causídicos que apresentaram as contrarrazões do processo: em fasse (no lugar de “em face”), aciste (“assiste”), cliteriosamente (“criteriosamente”), doutros julgadores (“doutos”), estranhesa (“estranheza”), discusão” (“discussão”), inedoneos (“inidôneos”). Fico sabendo de uma curiosidade: “o advogado que atenta contra o vernáculo comete infração disciplinar”, de acordo com a Lei nº 8.906/94 (Estatuto da Advocacia). Logo, este caso sugere a ideia de que os advogados dessa causa deveriam ser processados por tentativa de homicídio. A vítima? A idosa, inculta, porém bela língua portuguesa.

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AS GRANDES HISTÓRIAS DE ANTÔNIO JÚNIOR

Antônio Nahud Júnior, depois de publicar, pelo menos, oito títulos (em gêneros variados), está de livro novo na praça, ainda quente do prelo: Pequenas histórias do delírio peculiar humano. São contos da mais diversa feitura, alguns ditos minimalistas, outros extensos, uns na primeira pessoa, outros tendo o autor como narrador “distante” – mas, em conjunto, todos formando uma celebração da maturidade do artista. E mais não digo para evitar a ociosidade da chuva no molhado, pois Pequenas histórias… é apresentado por Jorge Araújo e Ruy Póvoas, ainda com luxuosas orelhas lavradas por uma especialista em Coelho Neto, a pesquisadora Danielle Crepaldi, da Unicamp.

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O lado penumbroso do ser humano

Para Jorge Araújo, Pequenas histórias…“é livro inquieto e inquietante, que convida ao debate e à inteligência não conformados ainda à inércia do pensar de calças curtas”. E destaca o conto “Sem notícias de Deus” como “soberbo, antológico e definitivo”. Danielle Crepaldi percebe a erudição do autor, salientando que Poe, Miller e Ibsen “ecoam nessas histórias”, também destacando “Sem notícias…”, em que “a crítica social singelamente brota da aridez da fome e do clima nordestino”. Ruy Póvoas afirma que Nahud Júnior tem personagens “em crise de delírio”, que mostram “o lado sombrio do ser humano, sua rede de trevas, que a maioria teima em negar ou ignorar”.

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ALITA PRESTA HOMENAGEM A JORGE AMADO

A Academia de Letras de Itabuna (Alita), presta homenagem a Jorge Amado, com o projeto “A Alita vai à escola”, de 27 de agosto a 5 de setembro. Dia 27 – 19 horas: Cyro de Mattos, com o tema Jorge Amado em Itabuna (auditório da FTC); Dia 28 – 9 horas: Margarida Fahel, com Jorge Amado: um humanista nas terras do cacau (Colégio Militar); 29 – 9 horas: Antônio Lopes, com Jorge Amado: o pão e a liberdade (Campus 2 da Unime); 30 – 9 horas: Gustavo Veloso e Ceres Marylise, com exibição de documentário sobre Jorge Amado, seguido de atividades interativas (Escola Lourival Oliveira – Ferradas); Dia 5/9: Ruy Póvoas, com o tema Jorge Amado: ficcionista, ogã e obá.

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ENFIM, CORONEL RECEBE TÍTULO MERECIDO

A Justiça demorou mas reconheceu, agora em agosto, que o coronel da reserva do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra (sem foto, para a coluna não cheirar mal), chefe dos serviços de repressão a presos políticos em São Paulo (1970-1974), merece o título que com tanta determinação perseguiu: “Torturador”. Ele é tido como símbolo dos agentes da ditadura militar (1964-1985) que, em nome do Estado, sequestraram, torturaram, estupraram, mataram e ocultaram corpos de presos políticos e “inimigos” do regime. Estima-se que 17 pessoas foram assassinadas na “gestão” de Ustra (que usava o codinome de Doutor Tibiriçá e raramente sujava as mãos: apenas dava ordens e supervisionava o “serviço”).

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Dante aprendido no pau-de-arara

Não se sabe (nem interessa saber) se Ustra, um bandido vestido de verde-oliva, lia os clássicos. Mas seus presos tomaram conhecimento, pelo modo mais doloroso, do Inferno de Dante: a quem entrasse naquelas masmorras modernas a lógica perversa mandava, como noCanto III de A divina comédia, renunciar a qualquer esperança de rever o céu. Na minha tradução (de Fábio Alberti, para a Abril Cultural) está, à página 18, uma indagação apropriada ao caso: “Que dor tão cruel se apodera deles e os faz gritar, urrar tão fortemente?” O Doi-Codi de São Paulo, era um inferno; o coronel Ustra, o capeta-chefe.

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SEM TREJEITOS, CHICO CANTA A MULHER-MULHER

Sem aqueles trejeitos homossexuais (que transmitem ridícula caricatura da mulher) Chico Buarque tem um lado lucidamente feminino, isto é, político: não canta a mulher “gostosa”, objeto de desejo sexual, nem tão pouco a mulher-musa, deusa no alto do panteon. Seu discurso é o da dor, da discriminação, do “veneno” e da grandeza dessa costela tirada de um ser já também esfacelado chamado homem. Sua visão, prenhe de poesia e beleza, não é sobre a mulher, mas da mulher. São tantas as canções (Atrás da porta, Olhos nos olhos, O meu amor, Teresinha, Folhetim), mas me detenho numa que ele fez especialmente para Nara Leão: Com açúcar, com afeto.

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“Quando a noite, enfim, lhe cansa…”

O malandro sai de casa em busca de dinheiro para sustentar sua Amélia, mas ela sabe que até a oficina “há um bar em cada esquina” – e ele vai beber, cantar, discutir futebol e olhar as pernas das moças – “coisas de homem”. Isto tudo é dito com rimas magníficas, um ótimo trocadilho (“alegre, ma non tropo”) e um fecho de ouro: finda a farra, o cara (que saiu “com seu terno mais bonito”) retorna “maltrapilho e maltratado” feito um gato após orgia no telhado. Ela tenta zangar-se, mas qual! “Ainda vou esquentar seu prato/dou beijo em seu retrato/e abro os meus braços pra você” – que mulher! A cantora erra a letra (onde estava“há” ela canta “existe”, quebrando o verso), mas não reclamo. Nara Leão tem direito.

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Como se fosse uma conversa de botequim

E antes que vocês queiram ver/ouviresta injustamente pouco executada canção de Chico, um aviso a quem interessar possa: a partir da próxima terça-feira, pretendo responder aos comentários que necessitem de resposta. Nada de chat – ou coisa igualmente chata (ops!): só esclarecer pontos de vista e retribuir a gentileza dos que gastam tempo e tutano opinando sobre esta coluna (alguma coisa como uma inocente conversa de botequim, com permissão de Noel). E com vocês, Nara Leão!

O.C.

O RETRATO DO ANALFABETISMO NO SUL DA BAHIA

Tempo de leitura: < 1 minuto

Os dois maiores municípios sul-baianos têm, juntos, mais de 67 mil analfabetos, conforme pesquisa do IBGE divulgada na edição deste final de semana d´A Região. São 32.974 em Itabuna e quase 35 mil em Ilhéus, município que tem o maior número absoluto de analfabetos da região.
Proporcionalmente, Almadina é o município da região cacaueira com o maior número de pessoas que não sabem ler ou escrever: 3.018 dos 6.357 habitantes.
O IBGE apontou que, do universo daqueles que se declararam analfabetos em Itabuna, 17.413 têm entre 15 e 24 anos e 6.486 pessoas possuem mais de 60 anos. Em Ilhéus, 18.203 dos analfabetos são da faixa etária dos 15 a0s 24 anos e 6.664 têm entre 40 e 59 anos. A edição do semanário já está nas bancas.

CONTA QUE NÃO FECHA

Tempo de leitura: < 1 minuto

No início da semana, o governador Jaques Wagner disse que a Bahia fecharia o ano com 953 mil jovens e adultos alfabetizados.
Hoje, anúncio do governo baiano publicado em jornais de circulação estadual informa uma quantidade diferente: 751 mil alfabetizados pelo Topa.
Puxa daqui, puxa dali, a diferença entre uma conta e outra dá 201 mil por alfabetizar – ou, noutra leitura, alfabetizado. É muito.

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 7 minutos

ALFABETIZADO QUE NÃO LÊ, ANALFABETO É

Ousarme Citoaian
Há algum tempo, em Itabuna, uma professora de alfabetização infantil, na solenidade de “licenciatura” de seus alunos, recomendou aos mesmos que lessem. “A gente se alfabetiza para ler, pois, se não fosse assim, não valeria a pena o meu esforço, nem dos pais de vocês, nem de vocês”. O discurso me emocionou. Se não o aplaudi de pé, solitário, solidário e esperançoso, foi com receio de ser internado com urgência em nosocômio psiquiátrico credenciado pelo SUS. Está certíssima a professora: se não leio, para quê me alfabetizei? A alfabetização é irmã siamesa da leitura e prima carnal da escrita.

A MENOR DISTÂNCIA ENTRE DOIS PONTOS

Tenho dificuldade para explicar o assunto. Mas imagino que o alfabetizado que não lê é como aquele indivíduo que cursa a faculdade, licencia-se, por exemplo, em Direito e, depois, monta uma loja de calçados. Com todo respeito, para ter êxito com uma empresa comercial necessita-se de alguma técnica (que pode ser apreendida na prática da observação) e talento para os negócios. Então, ir à escola para ser comerciante é dissipar inteligência, perder tempo importante a estudar o que não interessa, usar a linha curva para ir de um ponto a outro, quando a reta é a menor distância.

CAMINHO PARA A TRANSFORMAÇÃO

A propósito de professores, aproveito para registrar dois textinhos, com sugestão de que pensemos a respeito deles: “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Falou e disse o educador brasileiro Paulo Freire (foto); “O professor medíocre conta; o bom professor explica; o professor superior demonstra; o grande professor inspira”, sentenciou Arthur Ward, administrador americano.

HOJE É DIA DO PROFESSOR

Conservadora e preconceituosa (isto está comprovado em vários estudos), a sociedade brasileira tem ojeriza ao novo. Certos setores sofrem ataques agudos de urticária tão logo entram em contato com alguma coisa fora da mesmice. Isto é perceptível também quanto ao conhecimento. Todos nós já ouvimos a expressão calhorda “quem sabe faz; quem não sabe, ensina”. Uma grosseria contra o professor. Se é possível graduar as profissões, esta fica ao lado ou à frente do que há de mais importante. Vá o comentário por conta do Dia do Professor. É 15 de outubro? E daí? Façamos de conta que é hoje também.

COISAS DE MARSHAL MCLUHAN

Ligo a tevê e, num lance de má sorte, dou de cara com um ilustre especialista em nutrição, explicando as excelências da vitamina Ê. Assim mesmo: vitamina Ê. “A vitamina Ê faz, a vitamina Ê acontece”, e por aí segue. As vitaminas são identificadas por letras (A, B, C, D, E e K, com ligeiras variações) – e não existe em língua portuguesa a letra Ê. Interligada pela tecnologia – veja conceito de aldeia global de McLuhan (foto) –, a sociedade brasileira parece condenada a repetir bobagens linguísticas que, dicionarizadas mais tarde, adquirem status de consagração. Mas continuam sendo o que são: bobagens.

DIFERENÇA ENTRE LETRA E FONEMA

Dizem os conhecedores da língua (aqueles que não têm disposição para “consagrar” babaquices) que esse Ê não é letra, mas fonema. A quinta letra do nosso alfabeto (também segunda vogal) chama-se E (com som aberto). Não se trata de implicância nem de regionalismo nordestino, mas da pronúncia correta. Vale para qualquer canto do Brasil. Quem fala Ê é paulista mal informado ou quem repete a televisão, como se ela fosse, mal comparando, a Bíblia. Assim, vamos chamar IBGÊ e não IBGÉ, sendo que aquele famoso colégio de Ilhéus (o I.M.E., na foto de Mendonça), baianamente dito IMÊÉ, passa a se chamar IMÊÊ. Lá ele!

PRECONCEITO ATINGE NOMES DE  MULHER

Marcos de Castro, aqui várias vezes referido, nos chama a atenção para o imenso preconceito que a gramática alimenta contra as mulheres. E destaca a questão dos nomes próprios, que me passara despercebida: “Boa parte deles nasce de nomes masculinos e só se tornam nomes de mulher quando recebem desinência feminina”. O jornalista e filólogo aponta uma exceção, aliás nome muito bonito, de sonoridade cristalina e origem “nobilíssima”: Mariana. Trata-se da justaposição de Maria e Ana (Nossa Senhora e sua mãe). De Mariana nasceu Mariano, uma formação rara.

EM CASA DE JOÃO, MULHER ERA JOÃOZINHO

Entre os romanos, as mulheres eram tão sem importância (tanto em casa quanto na sociedade) que muitos dos seus nomes eram somente diminutivos dos nomes masculinos. Agripina (de Agripa) e Messalina (de Messala) são os exemplos citados por mestre João Ribeiro. É algo que soa hoje tão ridículo quanto se a um homem chamado João correspondesse uma mulher batizada como Joãozinho. Ao acaso, alguns nomes que nasceram do masculino: Manuela, Getúlia, Paula, Lúcia, Júlia, Maura, Antônia, Célia, Fernanda, Márcia e Patrícia.

PATRÍCIA AMORIM É PRESIDENTA DO FLA

Patrícios eram os nobres romanos, a elite à qual se conferia alta dignidade, em determinado período. Mais tarde, o substantivo comum transformou-se em próprio, e de Patrício veio Patrícia (que nada tem a ver com as atuais patricinhas). Por falar nisso, Marcos de Castro sugere que a nadadora Patrícia Amorim reaja às tentativas de chamá-la de presidente, dizendo aos repórteres: “Por favor, sou mulher e mãe, e tenho o direito de ser tratada por uma forma feminina. Sou presidenta do Flamengo, não sou presidente”. Dá neles, Patrícia!

DA ARTE DE ESCREVER BEM

O pesquisador Jorge de Souza Araujo me espanta a cada página. Num dos seus livros mais recentes, Graciliano Ramos e o desgosto de ser criatura, vejo que Quebrangulo, onde nasceu o Velho Graça, significa “matador de porcos”, em quimbundo. Jorge aponta forte semelhança entre o autor de Vidas secas e o escritor e ativista italiano Antonio Gramsci (foto): os dois foram criticados pelos seus partidos comunistas (PCB e PCI) por “falta de vigor revolucionário”, estiveram presos, adoeceram na cadeia e voltaram à liberdade no mesmo ano (1937). Gramsci, vítima do fascismo de Mussolini; Graciliano, do de Getúlio. O brasileiro escreveu Memórias do cárcere; o italiano, Cartas do cárcere.

GRACILIANO RAMOS EPIGRAMISTA

Graciliano Ramos, o que surpreende quem lê sua prosa descarnada, fez incursões na poesia.  Ele disse que compunha sonetos “para adquirir ritmo”, sem nunca ter pretendido ser poeta. “Aprendi isso para chegar à prosa, que sempre achei muito difícil”, afirmou. E o estoque de inusitados nesse Graciliano Ramos de Jorge Araujo (ganhador do Concurso Nacional de Literatura da Academia Alagoana de Letras) ainda guardava um inesperado Velho Graça epigramista: “De sífilis terciária, um dia, enfim, morreu/Este de alcoice imundo ignóbil filho espúrio/E a terra que o comeu/Entrou logo a tomar injeções de mercúrio”, escreveu ele contra desafeto anônimo.

ROBERTO DAMATTA E AS BALAS PERDIDAS

Sou um raro brasileiro que nunca viu (nem pretende ver) Tropa de elite. Também não quero ler Elite da tropa. Fico com a opinião de Roberto DaMatta, quando diz que “o cinema brasileiro é uma deprimente, com as exceções de praxe: só mostra pobreza, miséria, sofrimento, prostituição e bandidagem”. Prefiro o faroeste, a violência lá longe, antiga e vingada. Para ver polícia e bandido trocando tiros, basta estar na rua de uma grande cidade. Bom pra quem gosta de emoções fortes. No faroeste há justiça; no dia-a-dia das balas perdidas, não (e quando digo faroeste, me refiro aos americanos). A ficção não supera a realidade.

ITALIANO EM TEMPO DE TELENOVELA

 Faroeste italiano é como acarajé feito por baiana branca, se vocês me entendem. Já se vê, sou seletivo: Sergio Leone, o grande nome do spaghetti western, não entra em minha lista. Seu Era uma vez no Oeste, por exemplo, não me agrada, porque tem timing de telenovela (e eu detesto telenovela). Se a crítica adora Era uma vez, azar da crítica. Vamos fazer uma lista de dez ou vinte? Eu dou a saída com Matar ou morrer (Fred Zinnemann), Onde começa o inferno (Howard Hawkins), Os Brutos também amam (George Stevens), O homem que matou o facínora (John Ford), El Dorado (refilmagem de Onde começa) e Paixão de fortes (Ford).
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

ESTRANHA FORMA DE DIZER “I LOVE YOU”

Filmes de caubói (como se dizia antigamente), às vezes, têm referências surpreendentes. Em Onde começa o inferno, Angie Dickson ameaça vestir uma roupa que deixa as pernas à mostra e ouve do desajeitado xerife John Wayne: “Se você usar isso em público, eu vou prendê-la”. E ela, chorando de felicidade: “Até que enfim! Pensei que você nunca ia dizer que me ama”. Ele, espantado: “Eu disse que ia prendê-la. Ela: “É a mesma coisa”. Em Paixão de fortes, Henri Fonda, caído por Cathy Downs, busca ajuda no velho Farrell Mac Donald: “Você já esteve apaixonado?”. Resposta: “Não. Sempre fui barman”. Filme americano com humor inglês…

O HOMEM, O RIFLE E O CAVALO

Outro recurso recorrente no cauboi é a música. High noon (Matar ou morrer), My Darling Clementine (Paixão de fortes) são bons exemplos. Em Onde começa o inferno, há um intervalo na tensão de quatro homens à espera de uma quadrilha inteira, quando Dean Martin e Rick Nelson cantam um tema country (My rifle, my pony and me), com a ajuda do “doidinho” Walter Brennan, tendo John Wayne como plateia. É a síntese do gênero: o vaqueiro, a arma, o cavalo e a mulher amada. Confira em vídeo:
 
 

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 7 minutos

QUEM NÃO SABE REZAR, XINGA DEUS

Ousarme Citoaian
Professora de língua portuguesa e latim da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), experiente em corrigir redações do Vestibular (e de quem não declino o nome por não estar autorizado a fazê-lo) explicou-me um dos problemas mais freqüentes em seu trabalho: “O candidato quer escrever uma coisa e escreve outra”. Ótimo resumo. Penso que o fenômeno também ocorre na linguagem oral: às vezes, queremos dizer uma coisa e o que chega ao interlocutor é diverso do nosso pensamento. Já falamos do assunto nesta coluna, e o explicamos com um dito do falar brasileiro muito saboroso: “quem não sabe rezar, xinga Deus”.

“VOU ACABAR COM OS ANALFABETOS”

Há tempos, um candidato a prefeito de Itabuna, famoso por traumatizar a gramática portuguesa e os cofres públicos, disse num programa de rádio que, se fosse eleito, iria “acabar com os analfabetos”. Mesmo que o ilustre representante do povo não tenha minha simpatia, nunca o imaginei dono de crueldade tamanha, capaz de, em tal sanha analfabeticida, matar tantos itabunenses – afinal, a Bahia é campeã nessa modalidade e Itabuna, por certo, dá grande contribuição à conquista. Quer dizer: eu entendi que ele queria, patrioticamente, “acabar com o analfabetismo”. Mas nem por isso, como querem certos lingüistas, a formulação dele há de ser aceita..

COMUNICAÇÃO POR SINAIS DE FUMAÇA

Uma reportagem da TV Record, em Salvador, colheu interessante depoimento de uma senhora, a propósito de ações do governo. “Diante da violência que nós veve…”, preambulou a soteropolitana – e, para o caso, não interessa o resto da fala. Achei ótimo, mesmo que isto espante os leitores desta coluna tida como ranheta em questões de língua portuguesa. Neste caso, pode. O que não pode é o Fórum de Itabuna, tocado por gente muito estudada, produzir e autorizar a divulgação de um anúncio como o da foto ao lado (O. C. clicou). Ao povão que não foi à escola é válido comunicar-se até por sinais de fumaça; das autoridades, com responsabilidade na formação do público, não. E a crase não humilha ninguém.

ALFABETIZADOS SEGUEM DONA NORMA

Ouvi dizer que sou “formal”. Surpresa. Por não ter estudos específicos, ignorava essa divisão entre linguistas e “formais”. Sei é que, mesmo sem consulta, me puseram na escola, onde  gastei esforço e dinheiros público e da  comunidade, via CNEC  (Google, urgente!). Queimei as pestanas para aprender a dizer “Nós vamos”, em vez de “Nóis vai”, como era minha natural inclinação – e agora me vêm dizer que “tudo está certo”. Não está. Quem não foi à escola do professor Chalub, que fale como puder, com nosso respeito. Mas os alfabetizados – e jornalistas, até prova em contrário, o são – têm que seguir a norma culta. Eu sigo, também, a vizinha do 6º andar, inculta mas bela.

DA ARTE DE ESCREVER BEM

Antônio Naud Júnior (foto) é, sem questionamentos, o mais profícuo dos produtores literários da nova geração grapiúna. Leu, viveu, sofreu, acumulou experiências, escreveu e, sobretudo, andou. É um andarilho, inquieto, envolvido ao mesmo tempo com variadas atividades. Sua principal área de interesse, pode-se dizer, são todas: prosa, poesia, teatro, cinema, televisão e gente. Lê tudo, sem preconceitos. Discorre, com igual paixão, sobre o mais novo romance nas livrarias, a trama da novela das oito e um recém-lançado blog de poesia. O poeta Vicente Franz Cecim o chamou de “cigano incorrigível por vocação luminosa ou oculto fado”. Disse-o bem.

ACORRENTADO AO SILÊNCIO

Se um viajante numa Espanha de Lorca (um diário de viagem pela Europa, publicado em 2005) é seu trabalho mais pessoal, no sentido de mostrar-se em inteira sensibilidade de homem dilacerado. Porém é corajoso o bastante para adentrar os esconderijos, truques e subterfúgios deste mundo, traduzindo-os, poeticamente, para nós sedentários. Quem se propõe a tarefa de ler o mundo há de, primeiro, ler-se a si próprio. Mas qual de nós se lê com clareza? “Sou tantos. Há um Antônio poético e aventureiro errante, um Antônio porra-louca e pessimista, um Antônio disposto a saltar no vazio sem paraquedas, outro obcecado pelo amor. Há ainda um Antônio espiritualizado e acorrentado ao silêncio…”. As contradições de todos nós.

UM CÉU DE MUITO POUCO AZUL

Antônio Júnior, na Europa, descreve a solidão angustiante que nos esmaga nas grandes metrópoles: “Estar em Madrid (foto) é como estar em Londres, o peso do cinzento, do vazio interior, o ar asfixiante e pegajoso, o céu que só muito raramente mostra a cor azul, as estrelas que mais parecem imitação de péssima qualidade (…). Como não conheço ninguém e ninguém me conhece, é quase como não existir. Sou um estranho numa grande cidade, flechado por uma sensação assustadora de saber que posso cair duro no meio da rua e nem uma só alma local notará minha ausência” – obra citada.

INCITATUS, O SENADOR BIÔNICO

Sem propósito ou objetivo eis-me posto a lembrar de cavalos famosos, saídos de antigas leituras. Rocinante, esquelético feito o dono, era o cavalo de Dom Quixote (foto); Heroi, do Fantasma (que tinha também um cachorro, Capeto); Silver era o lépido cavalo do Zorro; John Wayne, em O último pistoleiro, montou Dólar; Incitatus, cavalo de Calígula, foi o primeiro senador biônico de que se tem notícia. Com a ditadura militar, ressuscitou-se o modelo no Brasil (mas aqui nomearam, além de cavalos, burros); Dr. Robledo montava um sonolento pangaré, que em algumas histórias teve esse nome: Pangaré. Justiceiro, no bom sentido do termo, o pacato médico virava o Cavaleiro Negro, enquanto Pangaré se transformava no fogoso Satã.

NAPOLEÃO E SEU CAVALO BRANCO

Muito famoso é o cavalo de Napoleão, embora ele tivesse vários. “Qual a cor do cavalo branco de Napoleão?” – diz a velha “pegadinha” (se você acertar, ganha o CD O melhor do arrocha, incluindo uma faixa-bônus com Caetano Veloso cantando Rebolation). O nome do principal cavalo de Napoleão era Vizir, um árabe, presente do sultão do Egito. Reza a lenda que Vizir (na gravura) levou o velho Bonaparte de Paris a Moscou em 1812 e, na grande retirada, com 60 graus abaixo de zero, trouxe seu dono de volta, são e salvo. Depois de morto, foi empalhado e, nessa condição, encontra-se no Museu do Exército, em Paris. São cavalos muito importantes, mas nenhum deles ganhou o Oscar da Academia.

PANGARÉ “GANHA” METADE DO OSCAR

O cavalo mais vitorioso do cinema não recebeu a divulgação merecida. Foi um anônimo montado por Lee Marvin, em Dívida de sangue, de Elliot Silverstein. Marvin faz um pistoleiro pé-de-cana (Kid Sheleen), montando um cavalo igualmente bêbado (foto). Ao ganhar o Oscar como melhor ator de 1965, Lee Marvin, chegado a um copo, fez um discurso inusitado: disse que passara a vida toda “treinando” para ser um beberrão nas telas; e que metade do prêmio deveria ser dado ao cavalo do filme. É um dos meus (muitos) faroestes preferidos. Engraçado e diferente, tem Jane, a rebelde filha de Henry Fonda na plena forma dos seus 28 aninhos – além da criativa trilha sonora (“ao vivo”) de Nat King Cole e Stubby Kaye (A balada de Cat Ballou).

O MAIOR DOS NOSSOS COMPOSITORES

“Ora – direis – Tom Jobim é muito citado nesta coluna”. E eu vos direi no entanto que, a meu juízo, ele aparece até pouco. Tenho dúvidas sobre se nosso país de tão parco reconhecimento a seus valores intelectuais tem consciência da importância de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim para a MPB. E embora não seja neste espaço que se corrigirá tal injustiça, algo precisa ser dito: para começar, que Tom Jobim é o maior dos nossos compositores modernos, com uma produção imensa em que (não pude conhecê-la toda, é verdade) nunca encontrei nada que não fosse de alto nível. A produção de Tom Jobim é horizontal, no melhor sentido que possa ter a palavra.

NENHUM MÚSICO TEVE TANTO PRESTÍGIO

Foi ele, não Carmen Miranda, conforme se apregoa por aí, quem abriu as portas do mercado mundial (a partir dos Estados Unidos, é claro) para o canto brasileiro. Tom Jobim “invadiu” o jazz, ensinou Frank Sinatra a cantar música brasileira, mostrou a Gerry Mulligan como emitir  no sax uns acordes de Samba de uma nota só (isto tudo circula na internet). Foi gravado, além de Sinatra e Mulligan, por Ella Fitzgerald, Stan Getz, Sarah Vaughan e todo mundo que interessa. Imagino que Billie Holiday não o gravou porque não conseguiu sair do túmulo. Mas tentou. Anita O´day (que esteve no Brasil nos anos oitenta) abre e fecha suas apresentações com  Wave. Nunca na história deste país alguém teve tanto prestígio internacional. Tom era o cara.

A TERNURA ANTIGA DE JOE HENDERSON

Joe Henderson (1937-2001), saxofonista dos  mais respeitados do mundo, também fez um cancioneiro de Tom Jobim (Double raimbow, que enriquece minha humilde coleção). Sonoridade límpida, suave, “flutuante”, com certa nostalgia das baladas de  Coleman Hawkins (foto). Mas JH é discípulo confesso de Stan Getz e Charlie Parker, capaz de alternar a simplicidade do primeiro com a sofisticação do segundo. Mesmo nas notas agudas, não chega à agressão auditiva, mantém-se lírico, como se tocasse um acalanto. Como diria o velho Che (para quem balada se fazia com rifle, não com sax), Joe Henderson não perde a ternura, jamais.  No vídeo (com Desafinado), os “coadjuvantes” são Pat Matheny (guitarra) e Tom Jobim (ao piano). Em meio a esse luxo, brilha o sax de Henderson.
(O.C.)
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