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12 de maio de 2021 | 03:28 pm

ANTÔNIO LOPES LANÇA "LUZ SOBRE A MEMÓRIA" EM ITABUNA

Tempo de leitura: < 1 minuto

Antônio Lopes

Obra ganha nova edição, atualizada e com duas crônicas inéditas.

Obra ganha nova edição, atualizada e com duas crônicas inéditas.

O jornalista Antônio Lopes lançará na próxima quinta-feira (6), às 19h, na Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (Ficc), a nova edição do livro de crônicas Luz sobre a memória. O livro foi lançado em 2001.
O escritor apresenta novidades nesta edição. Às 34 crônicas da edição anterior, somam-se outras duas, inéditas.
Gustavo Felicíssimo, da Editora Mondrongo, informa que as crônicas foram feitas para o atual momento e as demais foram atualizadas em sua linguagem por Lopes.
A nova edição teve grande lançamento na Casa da Cultura Jonas & Pilar, em Buerarema, em dezembro.
A obra tem apresentação do saudoso Marcos Santarrita, que coloca o jornalista Antônio Lopes entre grandes nomes da crônica brasileira, dentre eles Machado de Assis e Fernando Sabino.

LANÇAMENTO ADIADO

Tempo de leitura: < 1 minuto

O lançamento da nova edição de Luz sobre a memória, do jornalista Antônio Lopes, foi adiado para a próxima segunda (23), na Casa da Cultura Jonas & Pilar, em Buerarema. O adiamento ocorreu porque a gráfica que imprimiu o material não teve condições de entregar a segunda edição da obra em tempo hábil.

– Pedimos desculpas, em nome da Editora e dos demais promotores do evento (Jornal Agora e Instituto Macuco Jequitibá), mas prometemos a todos que faremos a festa devida no momento oportuno – disse Gustavo Felicíssimo, diretor da Editora Mondrongo.

ANTÔNIO LOPES LANÇA NOVA EDIÇÃO DE “LUZ SOBRE A MEMÓRIA”

Tempo de leitura: < 1 minuto
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Lopes lança nova edição de “Luz sobre a memória” em Buerarema e Ilhéus.

Luzsobreamemória (1)
O livro de crônicas Luz sobre a memória,  do jornalista Antônio Lopes, chega às livrarias esta semana, em nova edição da Editora Mondrongo. Lançado em 2001, a coleção de 34 textos  está esgotada. “A edição atual tem duas crônicas inéditas, feitas especialmente para este momento, sendo que as outras crônicas tiveram a linguagem atualizada pelo autor”, explica Gustavo Felicíssimo, diretor da editora.

O livro será lançado na Casa da Cultura Jonas & Pilar, em Buerarema, na segunda-feira (23), às 19 horas.

O romancista Marcos Santarrita (1941-2011), que faz a apresentação do livro, lista Lopes entre os grandes cronistas brasileiros, ao lado de Machado de Assis e Fernando Sabino. – Lopes é um mestre da crônica, esse gênero ingrato e difícil, híbrido de jornalismo e literatura – diz Santarrita.

Já Felicíssimo afirma que “a crônica de Lopes é permanente, devido ao frescor de uma escrita que aproxima o simples e o profundo, aparentemente despreocupada, mas de olho no significado dos atos e sentimentos humanos”.

Atualizada às 15h33min

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 4 minutos

PESADELO: OS BÁRBAROS ESTÃO CHEGANDO?

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1La FontaineTive um sonho (melhor: pesadelo) em que os Estados Unidos se preparavam para invadir o Brasil. Um amigo, a quem consultei sobre a estranha premonição, analisou o quadro e me diagnosticou com uma só palavra, pronunciada entre dentes e com olhar de pena: “Paranoia”. Sem me dar por vencido, argumento que eles consideram os três últimos governos brasileiros (Lula-Lula-Dilma) como “anti-americanos”; digo que aqueles gringos se acham os xerifes do mundo, com direito a invadir qualquer espaço, em nome da “democracia” ou mesmo em nome de coisa nenhuma. Lembram da fábula “O lobo e o cordeiro”, de La Fontaine? O lobo buscava razões para comer o cordeiro…

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Sob as justificativas de fome e força

Não encontrou motivos, mas o borrego foi almoçado assim mesmo, sob as suficientes justificativas de fome e força. Os americanos queriam invadir o Iraque, criaram o manto (ou o mito) das armas químicas e lá foram. Não encontraram tais armas, mas quem estava interessado nisso? Meu amigo me aconselha a abandonar a ficção e cair na real: “Tá certo que os americanos não são flores que se cheire, mas eles têm maiores preocupações do que o Brasil, pois vão invadir o Irã”. Não desisto. Eles já invadiram Cuba (bem menos importante do que o Brasil) e aqui, em 1964, derrubaram um presidente eleito e treinaram torturadores para o regime militar. E depois do Irã?

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Ele queria dobrar Lula e não conseguiu

Noto que, com essas lembranças, ele se mostra de semblante ensombrado. Aproveito o ferro quente, e malho, com esta pergunta: Qual foi o primeiro país latino-americano que Obama visitou? E ele responde, orgulhosão: “Brasil!” Pois é, digo, à  moda de Ataulpho Alves. Ele queria dobrar Lula e não conseguiu; depois, quis dobrar Dilma (quem é ele, tão fraquinho, pra enfrentar Dilmona!), não conseguiu… Quis dar uma de araponga, se ferrou, pois a velha Dilma descobriu a safadeza e até cancelou a visita… “Nada disso tem peso diplomático…”, disse ele, pouco convicto. Aí, fui-lhe à garganta: E o petróleo do pré-sal? Ele pôs as mãos na cabeça: “Meu Deus!”

ENTRE PARÊNTESES, OU

4convite2Literatura regional em tempo de festa
A Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) promove de 21 a 24 deste mês a I Feira Universitária do Livro, uma espécie de festa da literatura regional. Nomes como Aleílton Fonseca, Ruy Póvoas, Cyro de Mattos e Antônio Lopes terão o lançamento coletivo de escritos seus publicados pela Editus.  Aleílton e Ruy, além de autografarem suas produções recentes, terão um “papo literário” com a plateia, quando discorrerão sobre o tema “Novas leituras, novos leitores” – isto tudo no dia 21, às 19 horas, no Auditório Paulo Souto.  No dia 23, teremos Daniela Galdino, Aquilino Paiva e Gustavo Felicíssimo discutindo a literatura grapiúna de hoje (sala de treinamento da CDRH às 9 horas).

“O MUNDO EVOLUIU. É UMA PENA DANADA”

5PattonO general Patton, saudosista incorrigível (interpretação magistral de George C. Scott), diz a Dick, seu ajudante de ordens, que gostaria de decidir, pessoalmente, a II Guerra: “Rommel no tanque dele, eu no meu. Pararíamos a uns 20 passos, apertaríamos as mãos, depois combateríamos, só nós dois. O combate decidiria a guerra”. Responde o subordinado: “É uma pena que os duelos tenham saído de moda. É como sua poesia, general, não faz parte do século XX”. E o general, com ar tristonho: “Tem razão, Dick. O mundo evoluiu. É uma pena danada”. As frases estão no magnífico Patton – rebelde ou herói?, de Frank J. Schaffner.
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Sem bom texto, não existe bom cinema

A publicitária carioca Mariza Gualano, fã de cinema, selecionou cerca de 840 frases de mais de 600 filmes, para o livro Ouvir estrelas. Aqui, aproveitando o tema, algumas frases sobre guerra: “Acusar um homem de assassinato por aqui é como multar alguém por excesso de velocidade na Formula Indy” (Martin Sheen, em Apocalipse); “Eu não sirvo para a guerra, pois dormi com a luz acesa até os 30 anos” (Wood Allen, em A última noite de Boris Grushenko); “Sobreviver é a única glória da guerra” (David Carradine, em Agonia e glória); “Eu gosto do cheiro de napalm de manhã. Cheiro de… vitória” (Robert Duvall, em Apocalipse).

A BOA MÚSICA BRASILEIRA “IMPORTADA”

7Leny AndradeA baiana Rosa Passos é um desses acontecimentos comuns à MPB: cantora que, a exemplo de Virgínia Rodrigues, Bebel Gilberto e Leny Andrade (foto), para citar apenas três) é mais conhecida no exterior do que no Brasil (observe-se que Leny Andrade é a cara da simpática professora itabunense Ritinha Dantas!). CDs dessas artistas são pouco encontrados nas lojas, dando a eles características de “importados”. Voltemos a Rosa, para dizer que ela é fã ardorosa de João Gilberto, segue-lhe os passos (ai!), toca violão ao estilo dele. Chegou a gravar um disco chamado Amorosa, que repete o Amoroso de JG, acrescido de umas poucas faixas. Mas Rosa Passos não pretende ser nenhum “João Gilberto de saias”.
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Presença de duas feras  internacionais

A expressão desrespeitosa foi empregada por um repórter, que ouviu o que não queria. Rosa Passos é Rosa Passos, cantora e compositora de recursos próprios – e diz do seu ídolo aquilo que muitos colegas seus sentem, mas nem sempre expressam claramente: “João Gilberto amigo/ eu só queria/ lhe agradecer pela lição”, canta a artista, em “Essa é pro João”, faixa nove do CD “importado” Amorosa. Prova do prestígio de Rosa Passos “lá fora” é a presença nesse disco de duas feras internacionais: o clarinetista cubano Paquito D´Rivera e um grande nome do jazz na França (falecido em 2008, aos 90 anos), Henri Salvador.

O.C.

ARAUTOS DA ESPERANÇA

Tempo de leitura: 2 minutos

campus jorge amado ufesbaEditorial do Jornal Agora

O prefeito de Itabuna, Vane do Renascer, não é dado às sentenças morais, ficando distante, em tempo e intenções, do Marquês de Maricá. Adiante-se, com desculpas a quem já o sabe, tratar-se de Mariano José Pereira da Fonseca (1773-1848), político e escritor da fase imperial do Brasil. Mesmo assim, o dirigente itabunense saiu-se bem ao apontar, no ritual de criação da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), a sexta-feira (20) como “data histórica”. A UFSB, disse o prefeito, é “uma das mais importantes conquistas de Itabuna e região”. É bom saber que ele conhece a exata dimensão desse projeto.

Observando-se o comportamento da chamada sociedade organizada, atinge-se o sentimento de que,até agora, certos setores, sempre atentos na pregação contra o governo federal,não se aperceberam do significado da nova academia. Nem se considere exagero admitir(isto é visível nas diversas mídias regionais) a existência de grande torcida contra o projeto. A não concretização da UFSB seria, nesta perspectiva negativa, motivo para festejo de mais um fracasso da atual administração, mais uma promessa não cumprida etc. E como 2014 é ano de eleição, a palavra de ordem do momento é “quanto pior, melhor”.

Na semana passada, uma equipe de educadores, liderada pelo reitor Naomar de Almeida Filho, esteve entre nós, durante três dias, para estabelecer planejamento de trabalho e, prioritariamente, redigir a Carta de Fundação da nova Escola. Tal grupo de mestres e doutores, em outro local e circunstâncias, seria recebido com tapete vermelho. Para tanto, precisaríamos entender que esses “desbravadores”,portadores de nova proposta de política educacional, estão para nós como o iluminismo esteve para as trevas do século XVIII. São agentes da mudança, semeadores de ideias, arautos da esperança dos jovens.

Ao reconhecer na instalação da Universidade uma marcante “data histórica”, o prefeito Vane do Renascer externou, consciente ou inconscientemente, o que vai no imaginário daqueles que colocam o desenvolvimento regional acima das questiúnculas ideológicas. A UFSB é o farol no fim do túnel.

UNIVERSO PARALELO

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PASSE LIVRE E A CONTRADIÇÃO ABERTA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br
1SimancaOs tipos mais conservadores, que querem tratar os movimentos sociais na pancada, uniram-se aos progressistas, em apoio ao Movimento Passe Livre (MPL), escancarando uma contradição. Coerente mesmo foram as PMs da Bahia e de São Paulo, fazendo o que é da sua tradição fazer: baixar o pau (v. charge de Simanca). Cientistas sociais e palpiteiros em geral estão incertos quanto ao que pretende a massa: vagamente, menos corrupção, mais educação (quase criei uma “palavra de ordem”), mais saúde pública, menos futebol, mais seriedade com o dinheiro público, menos safadeza…  No atacado, todos aprovamos esta pauta, mas falta a ela o varejo, o foco concreto e claro.

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Movimento (ainda) simpático à direita
Tem sido uma festa protestar contra tais coisas (e ainda a sogra chata, o vizinho ranzinza e o preço do tomate), mas não me divirto tanto. Entendo ser este um movimento de esquerda (se me permitem usar a velha classificação francesa, para mim ainda válida). E a direita não tarda a tratar essa turma como trata índios, sem-terra e semelhantes, todos incluídos na vasta lista de “baderneiros”. Por menos disso ela já derrubou um presidente e pôs o Brasil em “ordem unida” durante 21 anos, enquanto arrancava as unhas dos descontentes. Freado o aumento das tarifas, o MPL, ao voltar às ruas (espero que volte), deverá focar-se em um dos muitos problemas nacionais.
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“DOR DE AMOR DÓI MAIS DO QUE BURSITE”

3Dor de amorO verbo amar transitivo indireto (com a preposição “a”) foi, em tempo que longe vai, exclusivo jargão religioso. “Amar a Deus sobre todas as coisas”, está grafado na tábua. A gramática quer, em relação a coisas e pessoas, o verbo não preposicionado. Amar era também de uso menos extenso: homens amavam mulheres, mulheres amavam homens, homens e mulheres amavam suas mães, estas os amavam sem medidas… Os para-choques repetiam uma frase produzida por alguém de coração dilacerado (ou vítima de crônica subliteratura): “Amor só de mãe!” – ai que me embriago de tanta poesia! Compreende-se. Quem leu Rubem Braga sabe que “dor de amor dói mais do que bursite”.
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Velha calça desbotada ou coisa assim
Voltando ao amar transitivo direto, diga-se que ele foi “democratizado”. Amavam-se pessoas, hoje se ama praia, macarrão com queijo, sorvete de coco, carro novo, a velha calça desbotada e, de moto, ama-se o vento na cara. São modismos que o tempo nos traz: conheço uma jovem senhora que ama seu iPhone de recentíssima geração (será isto o chamado sexo virtual que nunca entendi?). A boa linguagem, pela qual poucos na mídia ainda se interessam, recomenda que se goste das coisas citadas acima, sendo vedado amá-las. Se, por acaso, alguém não sabe a diferença entre gostar e amar, que tente beijar uma máquina. Adianto-lhes que não funciona, a não ser que seja uma… “máquina”.
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5Batata fritaAdoração ao arroxa e à batata frita
Cartola, em licença poética escreveu: “Não quero mais amar a ninguém…”, e caiu em “erro”, por usar a forma “religiosa” (“Não quero mais amar ninguém”, diz a norma). E quase tudo que foi dito vale para o verbo adorar, que igualmente nos remete à igreja. Adorar só a Deus e signos sagrados, era assim que era. Depois, o povo, que não está nem aí para gramáticas e gramáticos, mudou a regra. Hoje, com todo respeito, adora-se batata frita, novela de tevê, show de arrocha e de dupla “caipira”. Pelo sentido “clássico” do termo, tem-se a ideia de que o maluco se ajoelha diante do pacote de fritas e também genuflectido assiste à novela das nove. Medonhos tempos, estes.

QUEM DERA QUE ESSA RUA FOSSE MINHA!…

As ruas nos falam de dados momentos, lembranças que ficaram. “Se essa rua fosse minha/ eu mandava ladrilhar/ com pedrinhas de brilhante/ só pra ver meu bem passar”, diz o antigo frevo Vassourinhas. Antônio Maria (“o bom Maria”, como o chamava Vinícius, seu colega de quarto), morando no Rio e, ferido de saudades da terrinha, abre seu Frevo nº 3 dizendo: “Sou do Recife, com orgulho e com saudade”, para depois introduzir “Rua antiga da Harmonia,/ da Saudade, da Amizade e da União…/ São lembranças noite e dia”. Em poucos versos, quatro ruas de nomes sonoros, que mexem com os sentimentos da gente: harmonia, saudade, amizade, união.
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7AlceuMachado de Assis fala das ruas do Rio

Meu endereço em Buerarema era Manuel Vitorino, 6 (esquina com Siqueira Campos) – mania que as pessoas têm por vultos estranhos à cidade. Isso mudou um pouco. Já temos na antiga Macuco as ruas Paulo Portela, Manuel Lins, Pastor Freitas – personagens locais e já mortos, comme il faut. Mas eu queria falar era do fascínio que os nomes de ruas exercem sobre mim e, pelo que vejo, em vários autores. Lembro aqui de três deles, tocando o tema: Machado de Assis, Antônio Maria e Alceu Valença. Nos contos de Machado é possível saber muito do velho Rio, pelas ruas que o mestre cita: Larga de S. Joaquim, da Alfândega, do Lavradio, da Quitanda e, naturalmente, do Ouvidor.

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Um amor que sumiu nas ruas do Recife

“Sob uma chuvinha miúda, triste e cortante, como no enterro de Brás Cubas, o menino passeia sua melancolia por estas ruas que, transeuntes apressados sequer suspeitam, lhe pertenceram um dia. E chora as mudanças: mudou a cidade, mudaram os tempos, mudou ele, que ficou depressivo e meio adulto, morreu de velha a caramboleira, silenciaram os sabiás e bem-te-vis da infância que se foi” (Antônio Lopes: Luz sobre a memória – Agora Editoria Gráfica/1999). Perdidão da Silva, Alceu Valença parece procurar seu amor sumido nas ruas do Sol, da Aurora, da Matriz, das Ninfas, da Boa Viagem, da Soledade – mas como sempre acontece em casos semelhantes, o esforço é vão.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

BILHETE A UM JOVEM REDATOR DE JORNAL

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Em resposta a certa indagação, faço uma espécie de “carta a um jovem redator”, um bilhete, talvez. Digo-lhe: fuja do lugar-comum com a rapidez com que o Capeta corre da água benta. E tente riscar do seu vocabulário certas expressões: se lhe vier à boca “perguntar não ofende”, puxe as próprias orelhas e, enquanto elas ardem, a vontade passa. É garantido. Este método tão singelo também serve se lhe ataca um frenesi de dizer “a pergunta que não quer calar”. Não diga essa bobagem, pois você corre o risco de dirigir-se a um entrevistado inteligente (às vezes, ele é burrinho, mas o público, não). Tenha um olho na entrevista e outro no leitor, bicho decididamente no fim do ciclo de vida.

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Acalente a esperança de mudar o mundo
2RilkeOutra: nunca, jamais, em tempo algum se deixe vencer pela tentação de afirmar que tal coisa, atitude ou pessoa “faz a diferença”. Esta expressão está mais surrada do que notícia da contratação de Adriano, dito Imperador. No mais, como jornalista, conserve acesa a chama da esperança de mudar o mundo – mas antes procure mudar seu texto, em processo de contínua melhoria. Rainer Maria Rilke (1875-1926), que me soprou esta tirada, jogou duro numa de suas Cartas a um jovem poeta, dureza que transponho. “Pergunte a si mesmo, na hora mais tranquila de sua noite: ´Sou mesmo forçado a escrever?´”. Se a resposta for não, contente-se em saber que nem todos vieram ao mundo para ser jornalistas.
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“A aprendizagem é uma longa clausura”
Chamado a redigir anúncios (isto há de ocorrer, cedo ou tarde) não deixe que o cliente enxerte no texto coisas do tipo “ligue agora, está esperando o quê?” ou, esta, também abominável: “a prestação cabe no seu bolso”. Se ele insistir, desista: vá-se o cliente, fique a qualidade. Lembre-se de que você não é casa de tolerância, onde quem paga tem todos os direitos. Voltemos ao velho Rilke: “Pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar, têm que aprendê-lo. Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar, mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura”. Troque amar por escrever e… boa sorte.
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DE HISTÓRIA, POESIA E AFRODESCENDÊNCIA

4O quibe no tabuleiro da baianaIntegrada ao seu tempo, a Editus, Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, acaba de entrar para o contemporâneo segmento dos livros digitais. Já estão disponíveis para leitura na maquininha três autores antes editados em papel: Ruy Póvoas (Versorreverso, Itan de boca a ouvido, A fala do santo e Itan dos mais velhos), Maria Luísa Silva Santos (O quibe no tabuleiro da baiana) e Antônio Lopes (Solo de tromboneditos & feitos de Alberto Hoisel). É só clicar e ler, sem mais desculpas, pois é de graça feito o ar que se respira. Sem trombetas ou megafones, confetes ou serpentinas, a Editus abre caminho para um excelente programa de leitura.
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“Meu sorriso, meu olhar, minhas mãos”
De Ruy Póvoas, escritor de méritos reconhecidos e ser humano sabidamente bom, nobre e justo, vai aqui o poema “Repetição”, pescado em Versorreverso: “Já te disse tudo. # Disse com meu sorriso,/ disse com meu olhar,/disse com minhas mãos,/ disse com meu cantar. # Disse com minhas crises,/ disse com os meus textos,/ disse com o meu corpo,/ disse com o coração. # Disse com minha glória,/ disse  com minha história,/ disse com o meu medo,/ disse com devoção.# Disse com minha alma,/ disse com minhas dores,/ disse com meus temores,/ disse com minha calma,/ disse com meu sofrer. # Agora, fico calado,/ mas até o meu silêncio/ é outra forma de dizer”.

(ENTRE PARÊNTESES)

6 MarcosTenho em mãos os originais do último livro de Marcos Santarrita (1941-2012), À sombra dos laranjais. Versado em romance histórico (fez, nesta linha, Mares do sul e Ilha dos trópicos – além de uma trilogia sobre a ditadura militar), o autor agora ambienta sua narrativa na Guerra do Paraguai. Tendo entre os personagens figuras como Caxias, Osório, D. Pedro II e Solano López, Santarrita desfia uma história de amor e guerra, sexo, espionagem e traição. Resultado de exaustiva pesquisa, o texto reconstitui usos e costumes da época, tendo até diálogos em guarani. À sombra… é o oitavo romance de Marcos Santarrita.

“NEGRA, POBRE, PROSTITUÍDA E DROGADA”

7 Billie e PrezEsqueçam o que eu escrevi. Lembram-se desta frase de famoso presidente? Tomo-a emprestado, noutro contexto, para mudar explicação aqui dada a respeito do registro, em 1958, de Fine and mellow, por Billie Holiday com um grupo all stars. Descrição muitíssimo melhor do que a minha é a de Sylvia Fol, em Billie Holiday (Coleção Biografias L&PM Pocket, tradução de Williams Lago/2010). É a pungente história de uma mulher negra, pobre, prostituída, drogada, de voz lânguida e vigorosa, que influenciou centenas de vocalistas. Não só sinônimo de jazz, Billie é também um caminho para a liberdade. A seguir, o texto de Mrs. Fol, em tradução livre.
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Para “Prez”, um olhar inesquecível
“Billie escuta os solos dos três melhores saxofonistas tenores da era do swing com reações diferentes. Cheia de boa vontade para com Ben Webster, plena de admiração com Coleman Hawkins. Marcando o ritmo, um vago sorriso erra sobre seus lábios, seus olhos se entristecem… Depois, Lester Young, parecendo extenuado e doente, se levanta, volta o rosto inchado para Billie, os olhos são fendas sem vida. Toca, com ar distante, mas seu solo, expressivo e sensual, é de uma nostalgia perturbadora, como se seu último suspiro fosse inspirado por essa mulher tão amada… Billie cobre ´Prez´ com um olhar inesquecível, cheio de bondade, ternura e reconhecimento”. Eu que agradeço.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

ENTREVISTA QUE PARECE FRATURA EXPOSTA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1 ECAUm programa de tevê usou (é literal o termo) uma criança para entrevistar, comprometer e constranger o deputado José Genoíno – criando uma grande polêmica sobre se houve ou não arranhões ao direito da criança, definido em lei. Como este espaço fala de jornalismo, mesmo que ninguém haja pedido minha opinião, dou-a, ainda assim. Deixo a criança ao juizado competente e atenho-me à outra face, o “entrevistado”, para dizer que “arranhão” é muito pouco: o que percebi foi a ética gravemente traumatizada, algo comparável a uma fratura exposta. Genoíno, condenado pelo Supremo Tribunal, não é santo, mas não cabe à mídia fazer-se de carrasco e executar penas.

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Chegaremos à tortura de entrevistados?
Diria aos jovens repórteres que o recurso da câmera escondida, comum nas tevês, me cheira a jornalismo policialesco, um segmento que me ocorreu inventar agora, e que nada tem de bom: tapeia-se o entrevistado para lhe “arrancar” o que ele não quer dizer. Se todos os meios são válidos para obter declarações (até explorar a inocência de crianças), daqui a pouco teremos “repórteres” torturando entrevistados, só para saber o que estes têm a declarar. Se o entrevistado não quer falar, precisamos respeitar seu direito (lembrem-se de que os tribunais, que têm a força, respeitam essa prerrogativa). Se Genoíno não quer falar à imprensa, está no direito dele.
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A lição que toda mãe pode transmitir
3Código de éticaEncerrando, uma observação para os repórteres que ainda raciocinam fora dos padrões em voga: todo entrevistado tem o sagrado direito de, em frente à mídia, saber com quem está falando e a que veículo pertence quem o entrevista. Se esse contato não for feito às claras, estaremos empregando truques e artimanhas que não pertencem à profissão, e tampouco a engrandecem. No mais, se alguém achar que esta coluna defendeu o deputado não terá entendido nada. Aproveitando, uma “lição” sobre ética, que qualquer mãe é capaz de transmitir ao filho (e que serve não só para o jornalismo, mas para a vida): trate os outros da forma como gostaria de ser tratado.
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(ENTRE PARÊNTESES)

Com nada menos do que três e-mails (supostos) leitores desta coluna perguntam onde e como adquirir o livrinho Estória de facão e chuva, do qual a Editus/UESC fez recentemente a segunda edição. Creio que, em sendo a leitura artigo de quarta necessidade, toda uma trinca de leitores potencialmente interessados já ascende o autor ao seleto panteão dos best-sellers regionais, e para atender a tanto interesse esta nota foi feita: Estória… está à venda (além da loja de varejo da Editus, na UESC) na Livraria Nobel, no Shopping, Itabuna, e na Livraria Papirus, na Dois de Julho, Ilhéus.

AUTOR “BRITÂNICA” DIVULGA OBRA DE MARX

David HarveyLeio, com alguma surpresa, este título de primeira página (os inventores de desnecessidades agora chamam primeira página de… “capa”!) num dos principais jornais de Salvador (um que antigamente se gabava de só “dar” verdades): Britânica explica obra de Marx. “Britânica”?  – me interrogo, olhando a cara barbadíssima e nada feminina do geógrafo britânico David Harvey, especialista no pensador alemão que remexeu o mundo e até hoje provoca insônia e urticária na sociedade capitalista. E retornei à antiga dúvida: as razões que levam a mídia a erros tão grosseiros (no caso, uma expressão com cinco palavras, que passou pelas vistas de várias pessoas na redação).
“Poucos se arriscaram a chegar perto”
Mas deixemos de lado o que não tem conserto e, parece, nunca terá. Importante é que o estudioso, com o livro Para entender O Capital (que está à minha cabeceira) incita o público a (re) visitar um dos autores mais importantes da humanidade, um de quem, nas palavras de Harvey, “todos já ouviram falar, mas poucos se arriscaram a chegar perto”.  Aos que, movidos por mercantis filosofias, trombeteiam “o marxismo acabou!”, o analista “britânica”, com 40 anos falando do tema em universidades americanas, afirma que o pensamento daquele barbudo com cara de Jorge Araujo pode ser usado para entender o mundo de hoje – e aponta condições de trabalho (China, Tunísia e México) “similares ao que Marx previu”.

WILSON SIMONAL E O TEMPO DAS CINZAS

7Simonal-SarahUm jovem cantor negro brasileiro dialoga com uma das divas do jazz, tratam-se como iguais e ele até a leva a pronunciar, em português, bobagens como “vou deixar cair” (uma gíria da época). O cantor é Wilson Simonal, aos 30 anos; a diva é Sarah Vaughan, com 45; o ano, 1970. Em outro momento, no Maracanãzinho lotado, ele transformou o público num imenso coral e pôs todos a cantar Meu limão, meu limoeiro em duas vozes, afinados, no tempo certo. Era o “Coro dos 30 mil”, regido por Simonal, que estava com tudo e não estava prosa, até vendia “Para, Pedro!” na França (alguém se lembra?), rivalizava em popularidade com Roberto Carlos. Mas como não há bem que seja eterno, veio o tempo cinzento.
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A queda tão rápida quanto a ascensão
Simonal sumiu das paradas, deixou de fazer shows, ninguém queria gravá-lo mais. Seu crime? Divulgou-se que ele era dedo-duro do DOPS, a entidade que investigava, prendia, torturava e matava os inimigos da ditadura militar. A queda foi rápida como a subida: em 1975, na RCA Victor, a todo vapor, em 1980 grava na Copacabana e vende pouco, em seguida o mesmo resultado na Ariola, vai de déu em déu, até seu último registro, na Happy  Sound (?) em 1998. Em 2000, esquecido e execrado, morreu de cirrose, provocada pelo alcoolismo em que mergulhou. Calava-se uma das mais esmeradas vozes da MPB. A familiares, o cantor dissera, pouco antes: “Eu não existo na história da música brasileira”. No vídeo, Simonal antes da queda, durante show em Lisboa.


(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

A VANTAGEM EM COMPRAR DISTANTE DA LOJA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br
1VendedorNão sou bom com vendedores de livrarias e casas de discos. Muitos deles lá estão sem nenhum treinamento prévio, nada entendem de técnicas de vendas, não conhecem o produto com que trabalham. Em tempos imemoriais, eu resolvia este problema comprando pelo reembolso postal (os avós do amável leitor sabem do que estou falando). Depois veio a internet e me transformei num habitual comprador em lojas online.  Nunca tive problemas sérios (recentemente adquiri uma coleção de 25 CDs da Folha de S. Paulo e faltaram duas unidades: reclamei e foram repostas rapidamente). Pela internet não tenho de lidar com vendedores ignorantes e mal-humorados.

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O  jazz tratado como caso de polícia

“O livro de Billie Holiday (Lady sings the blues, da Brasiliense), lançado nos EUA em 1956, teve sua versão brasileira entre os mais vendidos de 1985, provando que o jazz é viável como negócio de livraria. Para os jazzófilos de qualquer idade, esta leitura é apaixonante e única. Afinal, a bibliografia por aqui é raríssima, discografia não existe e a ignorância dos que se dedicam ao negócio é, simplesmente, assombrosa: dia desses, mencionei a palavra jazz numa casa de discos de Itabuna, a mocinha ficou corada do dedão do pé à raiz dos cabelos e ameaçou chamar a polícia…” (Antônio Lopes – Buerarema falando para o mundo/1999).
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ENTRE PARÊNTESES

3Abel PereiraChova ou faça sol, haja frio enregelante ou calor de derreter o asfalto, qualquer tempo é tempo para se falar (bem) de Abel Pereira. Nesta lembrança, eu, que não sou poeta (“O que sou eu, afinal?” – a interrogação aflitiva ecoa dentro de mim), brinquei de fazer haicai. Nada sério, só saudade daquele bom e simples Abel Pereira que, já com mais de 90 anos quando o conheci, não me permitiu chamá-lo de “seu” Abel. Pedindo clemência à gentil leitora pela pieguice explícita, aqui vai o que parece ser uma eterna lida do homem:
 
Este amor tão puro
 
Tenta noite e dia abrir
Teu coração duro.

EM LITERATURA, É O LEITOR QUEM DECIDE

Em era que longe vai publicava o extinto Jornal do Brasil (bons tempos, aqueles!), semanalmente, uma seção chamada “O que você está lendo?”, com esta pergunta sempre dirigida a pessoas famosas, é claro. Por ali pesquei várias dicas de leitura, às vezes me dei bem, às vezes, não. É que opiniões sobre literatura (e acho que arte, em geral), por mais “técnico” ou “inteligente” seja quem opine, é sempre avaliação pessoal. O que um crítico conceituadíssimo como Wilson Martins, por exemplo, recomenda não vai, necessariamente, me agradar. Só acredito lendo. Voltando ao JB, foi naquela seção que “descobri” José Saramago. O ator José Lewgoy estava lendo A jangada de pedra – e eu fui na onda (ops!).
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5Harold BloomJosé Saramago, antes de ganhar o Nobel

Li A jangada… tão logo me foi possível, e fiquei zonzo: aqueles parágrafos imensos, às vezes tomando toda a página, me dificultaram o entendimento do que o autor queria dizer. Saliente-se que Saramago, naquele fim de 1986, não era o quase best-seller de hoje, Prêmio Nobel lido e aprovado até pelo festejado Harold Bloom: era pouco conhecido por aqui e digo que “estive a consultar” dois intelectuais itabunenses (de quem, compreensivelmente, omito os nomes) que de nada sabiam. No terceiro (aconteceu na fila do Banco Itaú), soube que José Saramago era “grande escritor português, um escritor verdadeiro”. Assim me falou, de passagem, Hélio Pólvora, mas este não conta, porque leu tudo (não de tudo!).
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Atenção ao som e ritmo das palavras
Mais tarde, já consagrado, Saramago ouviu de um escritor um problema idêntico ao meu, a crítica à narrativa de difícil compreensão. O autor de Caim não passou recibo, não se mostrou disposto a alterar o modelo de escritura, dizendo que seu texto devia ser lido uma segunda vez, com atenção ao som e ritmo das palavras, sugerindo até que se leia em voz alta (ou se imagine uma leitura em voz alta). Parece-me que, por aí, ele se equipara a Guimarães Rosa, cuja beleza da escrita costuma “esconder-se” ao primeiro contato, para desabrochar numa segunda (ou terceira!) visão. Fico “a imaginar” (estou hoje, reconheço, um tanto lusitano) se todo autor não merece esta homenagem da segunda leitura.
 

UM NAMORADO DE ROSTO “INFOTOGRAFÁVEL”

7BroadwayJá virou lugar-comum neste espaço coluna: as canções mostradas aqui tiveram gravação de “todo mundo”. Por não ser especialista, nem a coluna ser lugar de experimentações, trato apenas de temas consagrados do jazz (os ditos standards), que os leitores já conhecem. É o caso de My funny valentine, da dupla de midas Rodgers-Hart (o que eles tocam vira sucesso), que já teve mais de 1.200 gravações. No original (uma peça da Broadway, de 1937), Valentine é o rapaz – ridicularizado pela namorada. Ela fala da cara risível (laughable) dele, que é “infotografável” (unphotographable) etc. Mas ele a faz rir e, portanto, não precisa mudar nem um fio de cabelo (don’t change a hair for me). Letrinha boba.
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Chet Baker, aos 58 anos, parecia ter 80
Tóquio, 1987. No palco, um Chet Baker devastado pela heroína. Ao seu lado, músicos de alta qualidade, embora os críticos não lhes reconheçam a excelência que o trompetista merecera outrora: Harold Danko (piano), Hein van de Gein (baixo) e John Engels (bateria), no show que resultou num CD duplo, com 11 faixas. Destacamos a quinta do CD 1, My funny valentine. A voz pequena e frágil de Baker teria inspirado um certo João Gilberto a fazer uma revolução no Brasil. Para mim, simples ouvinte, este solo de Chet é um emocionante momento do jazz: definhando a olhos vistos, o trompetista encontra pulmões para uma surpreendente cascata de notas. Morreu no ano seguinte, aos 58 anos. Parecia ter 80.
(O.C.)

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DIANTE DA MÁQUINA, ABRA UMA VEIA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Sobre as dificuldades de escrever já foi dito tudo (resisto a de tudo, conforme a detestável moda). Autores afirmaram escrever para não morrer, este para não se sentir só, aquele para se sentir vivo. Outros fazem versos como quem chora, e há ainda os que parecem escrever apenas para abusar da nossa paciência de leitores. Alguém com pendores para a economia de linguagem resumiu escrever a “cortar palavras”, enquanto Fernando Sabino diz que escrever é muito fácil: “basta sentar-se diante da máquina e abrir uma veia”. Claro que esses falares (melhor, escreveres?) são dos grandes, os que escrevem obra duradoura. Eu, escrevinhador de planície, tenho outras dúvidas e problemas.

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Dromedários são niilistas e fatigados

Luto profissionalmente com as palavras já faz pra lá de meio século, mais tempo do que tem de vida a gentil leitora (e o faço, tal qual o poeta, mal rompe a manhã). Por isso, tenho cá os meus truques, ditados pela prática, que não é pouca, não pela teoria, quase nenhuma. Sou, portanto, um dromedário, gíria antiga das redações, tão antiga que é difícil encontrar alguém na Fenaj que a conheça: dromedário é o antônimo de foca – o foca está sempre de nariz pra cima, farejando o grande “furo” de sua vida; o dromedário é niilista, fadigado, acha que já viu tudo (de tudo?) e pouco há no mundo que valha a pena. Dromedário é foca com desencanto; foca é dromedário com esperanças de mudar o mundo.

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A escrita entre o trabalho e o prazer

Telmo Padilha ensinava uma lição: discipline-se, escreva sempre, tente criar. Muitas vezes esse produto não valerá a pena, será descartado, mas o que importa é fazer. Outro truque aprendi com a vida: – texto é como massa de bolo, precisa “descansar”. Então, escreva e, se possível, engavete o trabalho por algum tempo, depois releia. Quase sempre as emendas saltarão aos olhos. Infelizmente, nós jornalistas trabalhamos sob pressão do tempo, sendo comum só vermos a bobagem que fizemos quando ela já está exposta nas bancas. Para Saramago, Nobel de Literatura, a escrita é só trabalho, sem prazer. Para mim, escriba municipal, é prazer, quase sem trabalho. Outra dica: se você escreve mais do que lê, desconfie.

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(ENTRE PARÊNTESES)

Dia desses mencionei Fernando Leite Mendes e seu livro de crônicas, cujo título presta homenagem à professora Alina, filha do advogado Afonso de Carvalho (nome que ela deu à escola famosa, já extinta). Conta-me Lino do Vale Coelho, coleguinha do lendário Instituto Municipal de Educação, que esse Afonso de Carvalho era homem fino, pra lá de elegante. Tanto assim que, certa vez, provocado por um desafeto, achou-se no dever de dirigir a este uns desaforos, mas o fez sem perder a linha. De paletó, gravata e colarinho duro de goma, foi ao Correio e de lá enviou ao mal educado um telegrama vazado nestes termos enigmáticos e ameaçadores: “PLANTEI BANANEIRA PT AGUARDE CACHOS SDS”. Xingar a mãe do atrevido nunca lhe passou pela cabeça.

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UMA FOLHA DE ALFACE PREGADA À LAPELA

“As lendas sobre Thelonious Monk (um gênio renovador da linguagem do piano de jazz) foram enriquecidas por determinadas atitudes bizarras assumidas pelo músico: conta-se que ele costumava passar dias e dias na cama, em completo mutismo, fingindo-se de morto, com um gorro vermelho à cabeça. Quando na rua, completava sua elegância indiscreta com uma folha de alface pregada à lapela e, além disso, repetia seu aforismo preferido, aparentemente lógico na sua insanidade: É sempre noite; se não fosse assim, não sentiríamos necessidade de luz (Antônio Lopes: Buerarema falando para o mundo – Letra Impressa/1999)”. O velho Monk nunca foi santo.

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“Desligado, insociável e taciturno”

Certa vez lhe perguntaram quem exercera maior influência sobre ele. A resposta: “Eu, naturalmente”. Depois de um começo difícil (sua música era tida como “incompreensível”), o sucesso lhe chegou a tal ponto que o levou à capa da Time, indiscutível atestado de êxito. É descrito como casmurro, difícil, insociável, taciturno, solitário, desligado. Conta-se que passou os dois últimos anos de sua vida quase sem falar, alheio a tudo que o cercava. Tem lugar no panteão do jazz, como um dos maiores pianistas do gênero. Entre seus temas mais conhecidos estão Misterioso, Crepescule with Nellie, Monks´dream, Something in blue e, o meu preferido, Round midnight.

Uma cantora de jazz muito “brasileira”

Carmem McRae (1920-1994) foi amiga de Billie Holiday, de quem sofreu influência, cantou com a orquestra de Count Basie e, no início dos anos 50, ganhou o prêmio de melhor cantora revelação da poderosa revista Down Beat. Tinha excelente formação musical (estudou piano) e era conhecida dos brasileiros (esteve aqui quatro vezes, a última delas em 1985). Gostava de caipirinha, feijoada e MPB – incluiu no repertório Flor de liz, de Djavan. Era exigente na escolha do que cantava, dos músicos que a acompanhavam e na produção de seus discos. Em 1988, fez o álbum Carmem sings Monk, em homenagem a Thelonious Monk – do qual tiramos este Round midnight.

Maysa e os “clássicos” americanos

As gravações de Round midnight mais divulgadas são instrumentais, mesmo que entre as versões cantadas estejam nomes como Sarah Vaughan e Ella Fiztegrald. No Brasil, Maysa, que cantou os grandes clássicos da música americana, gravou Round midnight (e também I love Paris, Mean to me, What’s new? Autumn leaves e outros standards). Aqui, por invenção da coluna, Carmen McRae canta sobre imagens do filme Por volta da meia-noite, de Bertrand Tavernier, que vocês já conhecem.

(O.C.)

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O MATUTO E A “BONDADE” DOS CANDIDATOS

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Apurados os votos e sabidos os eleitos (com perdão do trocadilho pouco explícito), posso brincar com o sistema, sem que a Justiça Eleitoral me meta grades adentro. E aproveito o momento para repetir um excerto de Festa de inleição, do poeta paraibano Pompílio Diniz (eu, até este momento, o dava como pernambucano). É a história de um matuto que se aproveitou da “bondade” dos candidatos, “cumeu até se arripuná” nas festas da campanha e depois foi às urnas. Trata-se de bela caricatura do nosso eleitor típico (o texto completo está em Buerarema falando para o mundo, de Antônio Lopes).

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Carne de bode, sarapatel e chouriço

O meu cumpade Vicente,/ Nessa úrtima inleição,/ Cumeu, de ficá duente,/ Carne de bode, pirão,/ Sarapaté e chouriço/ E dispois, com sacrifiço/ Foi votá na opusição.
Mas quando chegô a hora/ Do meu cumpade votá/ O pobre quis ir “lá fora”/ Pro mode se aliviá,/ Mas o tá do presidente/ Começa a berrar “Vicente!”/ E manda logo ele entrá…/ E disse pra ele: “assine/ seu nome nesses papé,/ Dispois entre na gabine/ vote lá em quem quisé,/ Mas não demore lá dento/Pois os outo também quer…” O meu cumpade assinô/ O que tinha de assiná,/ E se troceno de dô,/ Sem poder mais nem falá,/

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O cumpade faz “oportuno” uso da cabine

Mostra o tito, se aprivine,/ Fecha a porta da gabine,/ Começa logo a “votá”…/ Já fazia meia hora/ E o pessoá lá de fora/ Começaro a recramá:/ “Seu fiscá, ói a demora!”/ Outo diz “vamo simbora/ Que a urna é só de Vicente/ E o gota do presidente/Não bota o home pra fora!…”  Lá na mesa o presidente/Manda o povo se calá,/ Toca a esperar por Vicente,/ Toca Vicente a custar…/ E pra num havê revorta,/ Vai o tá do presidente/ Batê com força na porta/ Da gabine de Vicente…/ Depois dumas três batida/ Uma vóiz grossa, isprimida/ Responde de lá: “Tem geeeente!”

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SOLDADO É ELEITA VEREADORA EM ITABUNA

“O velho Ousarme perdeu o que lhe restava de bom senso e começou a escrever (mais) bobagens”, dirá o exigente leitor, com a anuência da gentil leitora. Calma pessoal! Apenas imaginei, com este título canhestro, despertar olhares para um tema que precisa ser discutido: a masculinização da mulher por meio da linguagem. “Soldado Valéria Morais foi eleita vereador em Itabuna pelo PSC”, anuncia um blog. Construção atabalhoada: primeiro, a mulher é tratada como soldado (palavra masculina, toda a turma da segunda série sabe); depois se lhe nega a condição de vereadora, chamando-a vereador. Então, nós temos soldado eleita e Valéria vereador. Talvez uma nova língua, mas não é a portuguesa, com certeza.

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“Soldada Valéria é eleita vereadora”

Os exemplos dessa violência, no caso da “soldada Valéria eleita vereadora”, são legião em todas os veículos: “A campeã das urnas foi a soldado Valéria Morais, com 2.054 votos”, trombeteia um jornal diário de Itabuna; “A soldado Valéria foi a mais votada”, assusta-se outro importante diário, “Soldado Valéria conseguiu os votos de 2.054 eleitores”, comenta um semanário itabunense – e por aí vai esse desvario gramatical. Mas, louve-se a diferença! “A vitória da soldada Valéria Morais despertou muitas consciências”, comenta-se num solitário espaço de jornal grapiúna, acrescentando-se, simpaticamente: “a soldada Valéria chega à Câmara com algum potencial de liderança”.

As mulheres deveriam reagir ao abuso

A boa norma diz que soldado é substantivo masculino, não comum de dois (o Michaelis até define soldado como “homem alistado ou inscrito nas fileiras…”),  sendo seu correspondente feminino soldada. Assemelha-se a delegada, deputada, vereadora, prefeita, reitora, doutora, generala, presidenta, promotora, coronela, marechala, confreira, paraninfa e outras. Assim, não se vê fundamento em chamar mulher de soldado, bacharel, general ou cônsul (consulesa é a escolha), pois tais termos são masculinos. É o velho preconceito (abrigado também pela Polícia Militar e o Tribunal Regional Eleitoral), repetido por uma mídia que se recusa a pensar, e aceito por mulheres que deveriam reagir a esse abuso.

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UMA CANÇÃO DE AMOR QUE GANHOU O MUNDO

Les feuilles mortes – que inaugurou esta coluna, em dezembro/2009 – é uma canção francesa de 1945 (letra de Jacques Prévert, melodia de Joseph Kosma), que Yves Montand lançou no filme As portas da noite, em 1946 (na foto, em cena com Nathalie Nattier). Um ano depois, Johnny Mercer fez a versão americana (Autumn leaves) e a música ganhou status de clássico do jazz. O tema foi gravado, além de Yves Montand, por Nat King Cole, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Stanley Jordan (com duas guitarras!), Natalie Cole, Edith Piaff (em inglês!), Keith Jarret, Eric Clapton, Bill Evans, Juliette Greco, Stan Getz, Doris Day, Miles Davis, Chet Baker e Sarah Vaughan (com Winton Marsalis).

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A letra que vale a pena é a francesa

Se a gentil leitora tiver vocação para a pesquisa, por certo aumentará consideravelmente esta relação, pois o fascínio que Autumn leaves/Les feuilles mortes exerce sobre cantores e instrumentistas de jazz parece não ter fim. Curiosamente, vejo agora que não incluí na lista acima Laura Fygi, uma alemã branca cantora de jazz que ainda pretendo mostrar aqui. A meu juízo, a letra que vale a pena é a francesa – a americana segue o padrão nacional daquela terra de maus letristas. Realizamos o delírio de botar Nat King Cole e Natalie (pai e filha) cantando juntos. A voz dele vem do filme Autumn leaves, de 1956 – quando ela conhecia, no máximo, alguma cantiga de roda. Tinha seis anos.

(O.C.)

ELE ESTÁ DE VOLTA

Tempo de leitura: < 1 minuto

As manhãs de domingo não eram mais as mesmas sem a habitual leitura desde o último 11 de dezembro. Ousarme Citoaian, após dois anos ininterruptos de publicação de coluna, anunciava que iria parar. Era uma paradinha, pois. Os pedidos dos leitores/fãs comoveram, sensibilizaram o crítico, preciso, surpreendente e doce Ousarme.

Quis o destino que o retorno ocorresse em um emblemático 10 de agosto de 2012, centenário de nascimento de Jorge Amado. Ousarme muniu-se de suas armas poderosas para nos brindar com uma abordagem diferente da obra do escritor grapiúna.

– É análise, pouco feita por aqui, da vida política dele, o PCB, as prisões, os livros queimados etc -, explica o colunista, que já revelou a sua (a dele, claro) verdadeira identidade, mas não perde o charme do pseudônimo.

Aos leitores, Ousarme e Jorge – amados.

LOPES FALA DE "UNIVERSO PARALELO", INTERNET E FORMAÇÃO DE LEITORES

Tempo de leitura: < 1 minuto

O jornalista e escritor Antônio Lopes será um dos palestrantes da jornada pedagógica da Escola Curumin, em Itabuna, no próximo dia 27. Com o pseudônimo Ousarme Citoaian, o jornalista assinou por exatos dois anos a coluna Universo Paralelo, aqui no PIMENTA.
Lopes abordará, na jornada “Curumim: Leitur@mada” o tema “Relato de experiência: Conectando leitores”. Falará justamente sobre a experiência de ter escrito a coluna aqui no blog e a contribuição da internet para a formação de novos leitores.
Na entrevista em que anunciou o fim da coluna, em dezembro, Lopes disse que foi surpreendido pelo retorno obtido com o Universo Paralelo.
– Eu não imaginava que as pessoas estivessem muito interessadas em saber, por exemplo, sobre uma modinha de Villa Lobos. E de repente você posta isso e surgem comentários. Ou que alguém esteja preocupado com essas filigranas sobre a melhor forma de dizer as coisas.
Confira a íntegra da entrevista clicando aqui.

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Tempo de leitura: 6 minutos

JORNALISMO NO TEMPO EM QUE SE SONHAVA

Ousarme Citoaian

Em outros tempos e costumes, o jornalismo era praticado como uma espécie de sacerdócio (o termo foi mais comumente usado para os professores e vai aqui empregado por falta de outro mais adequado). Habitadas por poetas e boêmios, as redações muito diferiam de hoje, pois tinham poucos “profissionais” e muitos sonhadores. Era a época do revisor (que escoimava o texto de eventuais solecismos) e do copidesque (garantia de que o texto saisse da oficina sem um defeito). Mas o meu preferido nessa fauna sempre foi o mancheteiro, o cara que fazia as manchetes.

RAPIDEZ, CRIATIVIDADE, PODER DE SÍNTESE

Fazer boas manchetes não é fácil: exige do redator poder de síntese, rapidez e criatividade, dizer o que precisa num espaço limitado (a quantidade de toques)  – e fazer isto tudo sob pressão do tempo, pois a gráfica está gritando que é hora de fechar. O jornalista Wilson Ibiapina reuniu algumas jóias de craques na complicada arte das manchetes. Uma de Felizardo Montalverne (chefe de redação do Correio do Ceará): “Todo fumante morre de câncer, se outra doença não o matar primeiro”. No Rio, O Dia teve um dos mais famosos mancheteiros de nossa imprensa: Santa Cruz. Vejamos alguns casos, a seguir.

JÂNIO EM CAMPANHA: DA FARSA À COMÉDIA

Sobre a mulher traída que castrou o marido: “Cortou o mal pela raiz”; ao padre prefeito que autorizou o aumento do preço da carne: “Padre não resiste à tentação da carne”. É comum que suicidas se joguem da ponte Rio-Niterói, mas o delegado Almir Pereira preferiu dar um tiro na cabeça, e A Notícia viu assim o tresloucado gesto: “Atirou em vez de se atirar”. Jânio (foto) volta do exterior em 1962 e desfila num bonde de Vila Maria, em São Paulo, com boné de motorneiro. A manchete da Última Hora foi “Jânio Quadros: da farsa da renúncia à comédia da volta”. É a minha preferida.

MORRO DESMORONA SOBRE CANDIDATA DO PT

Os grandes jornais, perdida a antiga verve, se nivelam em falta de graça. Os regionais tratam o leitor como se criatividade fosse artigo proibido nas redações. Duas manchetes ilustram bem os dois casos: o JB (recentemente falecido), em 10/2/2010, ao anunciar a vitória da Beija-Flor, exaltou a segunda colocada: “Tijuca, inovadora intrusa no reino da Beija-Flor”; o Agora (de Itabuna), em 27/10/2010: “Serra esmaga Dilma em debate da Record”. Da primeira, nada se entende. A segunda nos faz pensar que uma serra (ou um morro) deslizou sobre o estúdio da tevê, levando a presidenta desta para melhor.

TROCADILHO: UMA “FEBRE” RECIDIVANTE

No começo do século XX, o trocadilho (do francês jeu de mots = jogo de palavras) era quase uma febre. Depois, como toda moda, perdeu o encanto e passou até a ser considerado coisa de mau gosto, subliteratura. Pois eu o acho estimulante, desde que feito com inteligência e oportunidade. A política, bom campo para esse exercício, me traz à memória três casos: 1) Getúlio Vargas, dito “Pai dos pobres”, foi chamado por um opositor de “Mãe dos ricos”; 2) à divisa integralista “Deus, Pátria e Família”, o Barão de Itararé (foto) respondeu no seu A Manha com “Adeus, Pátria e Família”; 3) em final de campanha, Dilma surpreendeu, ao dizer: “a oposição está de serra abaixo”.

ANTÔNIO VIEIRA (O PADRE) ERA DO RAMO

Trocadilhos, versos mordazes, críticas candentes aos costumes da época (sobretudo aos políticos) fizeram a fama do mais perverso dos trocadilhistas brasileiros, Emílio de Menezes. Tal gênero também foi cultivado, pasmem, pelo circunspecto padre Antônio Vieira. É de sua lavra a frase “Com tais premissas ele sem dúvida leva-nos às primícias”. De Emílio (que atirou seu veneno sobre Ruy Barbosa, a Academia Brasileira de Letras e quem mais estivesse próximo) todos sabem pelo menos um dito espirituoso, pois eles existem à mancheia no livro clássico Emílio de Menezes, o último boêmio (Raimundo de Menezes/1949, Coleção Saraiva, só disponível nos melhores sebos).

ALBERTO HOISEL, O SATÍRICO DA REGIÃO

Deixando de lado os nacionalmente famosos, não resisto a citar alguns calembures da lavra do satírico ilheense Alberto Hoisel, do livro Solo de Trombone (Antônio Lopes/2001, disponível na Editus/Uesc). Sobre o advogado Tandick Rezende, baixinho (pouco mais de 1,50 m), parceiro de cerveja, Hoisel deu a sentença: “Ele bebe para ficar alto”; quando o ascensorista o avisou de que o elevador do Banco Econômico estava “quebrado”, ele se deu por feliz: “Ainda bem que não foi o banco”; o atraso no noticiário do Diário da Tarde ele analisou assim: “Com vocação vitalícia/ Para a imprensa sem alarde/ Até a própria notícia/ Nosso diário dá…tarde!”.

TROCADILHISTA QUE NÃO TROCA DE LISTA

A quadrinha satírica tem no trocadilho uma ajuda decisiva para sua força, graça e maldade, como mostra o satírico ilheense. Certo Nacib definiu Alberto como “um dos maiores trocadilhistas do país” e ele fez sua profissão de fé integralista ao responder ao elogio: “Se a exceção foge à regra,/ Nacib que tenha em vista:/ Este é um que a lista integra/ E nunca troca de lista”. Ou, escrita num guardanapo na boate Night and Day (Rio de Janeiro), homenagem ao jornalista Fernando Leite Mendes (na foto, ao microfone), seu companheiro de mesa: “Lei! Tu sempre foste errada,/Por isso ninguém te entende…/E sem que faça piada/Eu te digo: ´Lei, te emendes!´”.

ELIS SE ACHAVA A PRÓPRIA LIZA MINELLI

Procuro no Google e não encontro (prova de que nada é perfeito) este causo envolvendo Elis Regina e o (dentre outras coisas) produtor musical Luiz Carlos Miéle. Então, vamos à memória: a cantora, recém-chegada de Porto Alegre, novinha em folha, discutia com o produtor o cachê para um show no Beco das Garrafas, reduto da Bossa-Nova nos anos sessenta, no Rio de Janeiro. Quando disse o preço, Miéle estrilou: “Você acha que é alguma Liza Minelli?” – e a desconhecida e ousada Elis Regina respondeu, na tampa: “Acho”.  Elis era assim: corajosa, atrevida, competitiva, sabendo onde ficava o próprio nariz (um pouco arrebitado, é verdade).

A IMPRESSIONANTE MUDANÇA DAS COISAS

Miéle (foto), hoje com mais de 70 anos, está envolvido em muitas dessas histórias engraçadas, algumas como personagem central. Como esta, que o mostra um tanto desligado do mundo. Ele conta que, há alguns anos, entrou numa loja de música e pediu para ver uns discos de Frank Sinatra. O vendedor fez cara de compaixão, como se achasse que o cliente estava esclerosado. Ofendido com o aparente desdém do cara, Miéle reclamou: “Vai me dizer que nesta loja não existe disco de Frank Sinatra?”, ao que o vendedor, como se falasse a uma criança, explicou: “Não, Miéle, é que não existe mais disco”. O produtor saiu, dizendo-se “triste, com a impressionante mudança das coisas”.

NO BRASIL SÓ DUAS CANTORAS: “GAL E EU”

Voltemos a Elis Regina. Muitos anos e declarações polêmicas mais tarde, ela – falando de cantoras brasileiras – disse: “No Brasil, só há duas que cantam, Gal e eu”. Se aceitássemos como verdadeira esta apaixonada avaliação, só nos restaria uma grande cantora (Elis morreu em 1982, aos 37 anos). Sem critérios técnicos, mas apenas por preferência, acho que as duas são nossas maiores intérpretes. Prefiro Elis, pois vejo certa frieza técnica em Gal, mesmo assim “a cantora” baiana. Minha lista tem Alcione, sem esquecer que Ângela Maria é referência nacional, até para Elis Regina. E ela estava em dia de modéstia: disse “Gal e eu”, não “Eu e Gal”.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UMA CANÇÃO QUE “TODO MUNDO” GRAVOU

Wave, um dos temas mais famosos de Tom Jobim, teve a versão cantada lançada por João Gilberto, no disco Amoroso, de 1977. Depois, ganhou o vasto mundo nas gravações de artistas diversos, dentre os quais Gal Costa, o próprio Tom, Ella Fitzgerald, Rosa Passos, Elis Regina, Sarah Vaughan, Leny Andrade (foto), Stan Getz, Joe Henderson, Wilson Simonal, Frank Sinatra e Anita O´Day (que abria e encerrava seus shows com esta música). No vídeo, Gal, impecável como sempre.

(O.C)

(O.C.)

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