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27 de fevereiro de 2021 | 06:47 am

UNIVERSO PARALELO / ESPECIAL JORGE

Tempo de leitura: 5 minutos

JORGE AMADO E OS REQUINTES DA ESTUPIDEZ

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Jorge Amado folheia edição em dinamarquês de Tocaia Grande.

Nas muito justas louvações a Jorge Amado (cujo centenário de nascimento ocorre nesta sexta-feira, 10), detenho-me sobre um documento que se agiganta diante de toda a obra vasta do grande romancista. Trata-se de uma surpreendente “Ata de Incineração” produzida pela Sexta Região Militar em 19 de novembro de 1937 – e publicada pelo jornal Estado da Bahia em 17 de dezembro daquele ano. É de estarrecer, ou como gostaria de dizer a própria vítima, “de espantar”. A notícia da queima de 1.694 livros de Jorge Amado é narrada com detalhes (melhor seria chamá-los de requintes de estupidez), começando por nomear os “senhores membros da comissão de buscas e apreensões de livros” (três trogloditas do Exército, Marinha e Polícia do Estado).

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MONUMENTO À BESTIALIDADE

A ordem de incinerar “os livros apreendidos e julgados como simpatizantes do credo comunista” partiu do Cel. Antônio Fernandes Dantas, comandante da 6ª RM, e incluiu pequena quantidade de outras obras. O integralista José Lins do Rego teve queimados 82 volumes de seus romances Doidinho, Pureza, Banguê, Moleque Ricardo e Menino de Engenho – prova de que as ditaduras distribuem “democraticamente” suas patadas sem olhar a quem. Mas o grande perseguido era, de fato, Jorge Amado, visto pelo sistema como “perigoso agitador”: dos seus livros levados à fogueira, o de menor quantidade (Cacau, 89 exemplares) ultrapassa os cinco de Zé Lins. A bestialidade do Estado Novo seria, com ligeiras adaptações, reeditada pela ditadura militar de 1964.

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O CAVALEIRO DA ESPERANÇA

Jorge Amado não foi só o escritor picaresco, de humor tipicamente brasileiro (em oposição ao humour britânico de Machado de Assis) vulgarizado pela tevê. Foi, sim, um lutador pelo seu povo, defensor da miscigenação, antirracista. Denunciou o trabalho semi-escravo na região cacaueira, defendeu a liberdade de culto e todas as liberdades. Várias vezes preso no Brasil, exilado na Argentina, no Uruguai, em Paris e na Tchecoslováquia, ele manteve a militância também fora de sua terra: em 1950, foi expulso da França, devido à atividade política com Camus, Sartre, Picasso e outros. Em 1941, durante o exílio na Argentina escreveu O cavaleiro da esperança: a vida de Luís Carlos Prestes, pungente defesa do líder comunista preso desde 1936.

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LIVRO CONTRABANDEADO

É um livro notável, pelo conteúdo explosivo (a denúncia candente da tortura, da perseguição aos comunistas, da violação dos direitos humanos no Estado Novo) e pelas circunstâncias especiais que o cercaram: proibido no Brasil, O cavaleiro… (em espanhol) era vendido clandestinamente, às vezes por preços absurdos. Também apareciam cópias datilografadas e em fac-símile, que passavam de mão em mão, sem dono certo. O livro ganhou nomes carinhosos, como Vida de são Luís, Vida do rei Luís e Travessuras de Luisinho. No governo Perón, O cavaleiro… foi proibido também na Argentina e queimados os exemplares encontrados, valorizando ainda mais os que circulavam no Brasil. “Houve quem vivesse do aluguel de exemplares”, contou Jorge Amado.

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O SORRISO AMARELO DA SOCIEDADE

A pena de Jorge Amado nunca esteve a serviço da literatura dita “o sorriso da sociedade” (expressão cunhada por Afrânio Peixoto) e que Graciliano Ramos bem definiu como “uma literatura antipática e insincera que só usa expressões corretas, só se ocupa de coisas agradáveis, não se molha em dias de inverno e por isso ignora que há pessoas que não podem comprar capas de borracha”. É a literatura dos saraus, da poesia tatibitate e bem comportada, que não incomoda. “Foi ela que, em horas de amargura, receitou o sorriso como excelente remédio para a crise”, resume o mestre de Quebrangulo. Jorge Amado trouxe para o romance brasileiro os negros, os pobres, os trabalhadores do cacau, as prostitutas e, avant la lettre, os meninos de rua.

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PREMONIÇÃO SOBRE MENORES INFRATORES

Capitães da areia (808 exemplares queimados), uma premonição sobre os menores infratores de hoje, saiu do prélio em 1937 e logo foi para o fogo. Não valeu esse “sacrifício” do governo: quando veio a anistia, em 1945, Capitães… vendeu feito pão quente, sendo até hoje uma das obras mais lidas do autor. Os demais romances levados à fogueira são Jubiabá (267 exemplares), O país do carnaval (214), Suor (93) e Cacau (89). Jorge Amado retomaria as questões sociais, dentre outros títulos, em Terras do sem fim (1943), São Jorge dos Ilhéus (1944), Os subterrâneos da liberdade (1954) e, principalmente, em Seara vermelha (1946), que, por óbvios motivos, não viraram cinza. Faltou dizer que 223 exemplares de Mar morto também foram queimados.

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SÓFOCLES ESCAPOU DO PAU-DE-ARARA

Mar morto? – perguntaria a atônita leitora; Mar morto? – ecoaria o atônito leitor (desde que cultuem este objeto em extinção chamado livro), e concluiriam que este velho O. C. perdeu de vez o juízo ou bebeu em má fonte. Mar morto, sim, insisto, lembrando-lhes que nas ditaduras a burrice é uma segunda natureza. E afianço ainda que esse mal é contagioso e longevo: em1965, esbirros da ditadura militar (“herdeiros” da fogueira de 1937) invadiram um teatro no Rio de Janeiro, para prender o autor da peça em cartaz, um certo Sófocles, e submetê-lo ao pau-de-arara, choque elétrico nas partes baixas e outros mimos. Pois saibam todos que destas linhas tomarem conhecimento que Sófocles escapou – tinha-se dado ao luxo de morrer há 565 anos.

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JORGE AMADO É MELHOR DO QUE VICTOR HUGO

Faltou dizer que Mar morto, leitura de infância em Buerarema, a história de Lívia e Guma, é um dos mais belos textos de Jorge Amado. Para mim, foi o contato com o que se chamava de “poesia em prosa”: o cotidiano dos trabalhadores do mar em permanente risco, a vida árdua, mas narrada com surpreendente lirismo. Penso que só alguém doente da cabeça ou do pé (talvez dos dois) seria capaz de ver ali obra de ameaça ao regime, livro “simpatizante do credo comunista”. A quem não percebeu a citação, informo que “trabalhadores do mar” é o título de festejado livro de Victor Hugo (traduzido por Machado de Assis), que não chega aos pés de Mar morto.

O lirismo de Jorge Amado chegou também à MPB, numa parceria de Jorge Amado e Dorival Caymmi. 

O.C.

DIVULGADA PROGRAMAÇÃO COMPLETA DO FESTIVAL AMAR AMADO

Tempo de leitura: < 1 minuto

– FESTIVAL TERÁ CAETANO, MORAES MOREIRA E FAMÍLIA CAYMMI
—- LITERATURA, POESIA E MÚSICA NAS HOMENAGENS A JORGE, AMADO

Homenagens ao escritor Jorge Amado começam no próximo sábado, 4.

Finalmente saiu a programação completa do Festival Amar Amado, de homenagem ao centenário de nascimento do escritor itabunense Jorge Amado.

A programação será aberta no sábado, 4, com sarau, exposição fotográfica e workshop, além de show com o cantor Moraes Moreira, na praça Dom Eduardo (praça da Catedral), às 22h, em Ilhéus. Todos os eventos são gratuitos.

CONFIRA PROGRAMAÇÃO COMPLETA

No domingo, 5, será aberta a Feira Literária Amar Amado, no Centro de Convenções Luís Eduardo Magalhães, na avenida Soares Lopes, centro, às 10h. A feira terá participações de escritores e debatedores do Brasil e de outros países.

A feira vai até o dia 11, sempre das 10h às 22h. A programação da feira contará com visitas de estudantes, o terreiro de poesia – unindo poesia e música – e o cabaré literário.

O Festival Amar Amado, ao contrário do informado no domingo, também reunirá feras da música nacional. Além de Moraes Moreira, estão confirmados shows de Margareth Menezes (dia 9), Caetano Veloso (10) e família Caymmi (11), sempre no palco instalado na praça Dom Eduardo. A apresentação de Caetano ocorreu justamente no dia de aniversário de nascimento de Jorge.

CENTENÁRIO DE JORGE AMADO TERÁ HOMENAGENS NO BRASIL E NA EUROPA

Tempo de leitura: 2 minutos

Centenário de nascimento de Jorge terá homenagens Brasil afora.

O centenário de nascimento de Jorge Amado está sendo alvo de muitas homenagens no Brasil e na Europa. Neste domingo, 29, reportagens e textos no caderno 2 d´O Globo tratam da vida e obra do escritor itabunense, traduzido em 55 países e cujo legado é destacado pelas adaptações para TV, cinema e teatro. Se vivo estivesse, Jorge completaria 100 anos no próximo dia 10 de agosto.

Jorge Amado faleceu há 11 anos, vítima de parada cardiorrespiratória, aos 88 anos de idade.  “Sua popularidade é tamanha que, apenas desde 2008, quando a Companhia das Letras começou a relançar seus livros, Capitães da areia vendeu 556 mil exemplares — fora as 142 mil da edição de bolso. Sua obra já foi traduzida para 49 idiomas, em 55 países. Ele era o melhor exemplo de como ser universal falando de sua própria aldeia”, publicou o jornal carioca.

“AMAR AMADO”

Nesta semana, Ilhéus também vai homenagear o escritor Jorge Amado, promovendo o Festival Amar Amado. O evento do município, em parceria com a Maná Produções, consta de mostra de cinema, feiras de gastronomia e de arte, exposições, apresentações teatrais, musicais, de dança e fotográfica.

Os locais escolhidos são o Teatro Municipal, o Centro de Convenções Luís Eduardo Magalhães, que abrigará a feira literária, e a Praça Dom Eduardo, situada no centro histórico de Ilhéus.  O Festival Amar Amado será aberto no dia 4, a partir das 19 horas, no Teatro Municipal, com a apresentação da Orquestra Afro Sinfônica da Bahia.

Já os shows musicais, serão apresentados em um palco ao lado da catedral de São Sebastião. Embora anunciadas atrações como Caetano Veloso, as atrações musicais serão apenas do sul da Bahia.

Na Avenida Soares Lopes, 24 barracas funcionarão como praça de alimentação. O festival gastronômico acontecerá em oito restaurantes. A área externa do Centro de Convenções abrigará a feira literária. O encerramento dos eventos será sempre à meia-noite.

NÃO APRENDEU A LIÇÃO

Tempo de leitura: 3 minutos

Adylson Machado

Pelo que vimos segunda-feira, em Ferradas, o poeta e contista Cyro de Mattos não aprendeu a lição ministrada pelo mestre Jorge Amado.

Uma intervenção lamentável. Não pode ser outra a adjetivação para a desastrosa manifestação do Presidente da FICC, Cyro de Mattos, depois de encerrada a programação de lançamento, em Ferradas (segunda-feira, 9), de um projeto da comunidade voltado para a comemoração do centenário de nascimento do escritor Jorge Amado, a ocorrer em 10 de agosto de 2012 (confira aqui).
Desastrosa (outra adjetivação que se impõe) porque efetivou a lamentável interferência quebrando o protocolo, que fizera inserir falas curtas dos que compunham a Mesa e dos que apresentaram o Projeto “JORGE 100 anos AMADO”, imediatamente à fala do Prefeito Municipal, José Nilton Azevedo, a quem cabia o encerramento do evento.
Não fora isso, enveredou por gongóricas considerações – em 90% publicizando sua atividade de escritor – descambando por considerações outras, como se falasse para um público que não entenderia o que dissesse, como quando confundiu o lançamento de CACAU (1931) como obra amadiana que inseriu a geografia grapiúna na literatura do ilustre ferradense, o que somente ocorreria com TERRAS DO SEM FIM, em 1943.
Desconheceu no texto, de forte componente idealístico (de um radical de esquerda, daí porque seria obra menor, disse-o o próprio Cyro de Mattos), que Jorge Amado utilizou-o para denunciar mazelas da cultura/economia cacaueira como expressão da exploração capitalista, o que implica observá-la sobre qualquer espaço onde existisse o fruto de ouro, fosse Itabuna, Ilhéus, Canavieiras, Itororó, Ibicaraí, Camacã, Itajuípe etc., o que afasta a observação autoral (posta sob olhar econômico), da evidente temática abordada em TERRAS DO SEM FIM, configuradora de uma geografia física determinada, envolvendo os conflitos pela conquista das terras do Sequeiro, envidados pelos personagens Horácio e Sinhô Badaró.

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