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27 de fevereiro de 2020 | 12:52 pm

1968: O ANO QUE INSISTE EM NÃO TERMINAR

Tempo de leitura: 4 minutos

Cláudio Rodrigues
 
 

Durante a campanha eleitoral, o presidente eleito afirmou desejar um Brasil “semelhante ao que tínhamos há 40, 50 anos atrás”. Se voltarmos 50 anos, cairemos em 1968. Precisamos ter a esperança de que o futuro ministro da Justiça não faça como o colega e também ex-ministro Gama e Silva

 
 
1968 foi um ano conturbado, marcado por fatos que viraram de ponta cabeça o Brasil e o mundo. O jornalista e escritor Zuenir Ventura é um estudioso do referido ano. Em seu livro 1968: O Ano que não Terminou (Nova Fronteira – 1989), Zuenir cita importantes personagens, obras e músicas que fizeram parte do período.
Figuras emblemáticas como a atriz italiana e esquerdista Claudia Cardinale, o militante do MR-8 César Benjamin, “Cesinha”, que participou da luta armada, e Carlos Lamarca, “O Capitão da Guerrilha”, que militava na VPR e do MR-8 são personagens da obra de Zuenir. O livro faz referência a artistas que tiveram papel de suma importância nos anos que se passaram, a exemplo de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Geraldo Vandré, que agitavam os festivais com suas músicas. Já o teatro era a representação do momento peças como Roda Viva. Atraíam uma geração com muita fome e sede de cultura.
Na política, o Brasil vivia uma grande tensão, passados quatro anos do Golpe Militar. A censura, punições, cassações, tortura, exílio e repressão eram a marca do governo dos generais. Diante do Regime, os estudantes inspirados no movimento Maio de 68, que acontecia em Paris, sentiram a necessidade de criar um movimento estudantil articulado politicamente e crítico em relação à Ditadura Militar.
Ao movimento estudantil os militares responderam com mais e mais repressão, e em 13 de dezembro de 1968, no governo do general Artur da Costa e Silva, o seu ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva, foi o redator e locutor do Ato Institucional nº 5. O AI-5 foi o golpe dentro do golpe: fechava o Congresso Nacional, autorizava o presidente da República a cassar mandatos e a suspender direitos políticos, o habeas corpus deixava de existir, a censura estava oficializada e outras medidas repressivas foram adotadas.
Gama e Silva foi jurista, juiz do Tribunal de Contas, professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e reitor da mesma USP. Enquanto reitor da USP, elaborou a lista com nomes de professores universitários, colegas seus, que viriam a ser processados no Inquérito Policial Militar da USP, entre os quais Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. Pelo papel de dedo-duro de Gama e Silva foi agraciado com o cargo de Ministro da Justiça.
Outubro de 2018! O deputado e capitão reformado do Exercito Brasileiro Jair Messias Bolsonaro é eleito presidente do Brasil, na oitava eleição direta pós-Ditadura Militar. O presidente eleito escolhe para chefiar a futura super pasta da Justiça o juiz de direito Sérgio Fernando Moro. Moro tornou-se uma espécie de “herói nacional” depois de ser o juiz da Operação Lava-Jato, que desvendou um esquema de corrupção que envolvia políticos e seus partidos, empreiteiros e grandes empresários.
Juiz de primeira instância, Sérgio Moro usou e abusou da prisão preventiva, sem previsão, para obter delações premiadas. As delações tinham aceitação e valia rápida quando envolvia pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores. Dessa forma o “juiz herói”, mandou para a cadeia figuras de proa do PT, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista era líder nas pesquisas de intenções de voto e maior nome da esquerda na América Latina, em uma ação muito questionada por juristas do Brasil e do exterior, inclusive o Comitê de Direitos Humanos da ONU.
Mesmo preso e impedido pela justiça brasileira de disputar o pleito de outubro último, o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores lançaram seu candidato e a apenas a seis dias da disputa do primeiro turno das eleições o “juiz herói”, liberou parte da delação do ex-ministro dos governos petistas Antônio Palocci, delação rejeitada pelo Ministério Público Federal e aceita pela Policia Federal e o juiz Sérgio Moro. A divulgação da delação de Palocci fez a festa dos opositores do PT e por pouco o capitão reformado não levou a disputa já no primeiro turno.
Passado a eleição, o “juiz herói” é agraciado com o convite para assumir o Superministério da Justiça. Mais: o capitão reformado e presidente eleito diz, em entrevista à imprensa, que o trabalho do “juiz herói” o ajudou a crescer politicamente. Já o vice-presidente eleito, o general Hamilton Mourão, que não tem papas na língua, soltou que o convite ao juiz foi feito ainda durante a campanha, o que deixa uma imensa suspeita no ar em relação ao papel do “juiz herói” no processo eleitoral.

Durante a campanha eleitoral, o presidente eleito afirmou desejar um Brasil “semelhante ao que tínhamos há 40, 50 anos atrás”. Se voltarmos 50 anos, cairemos em 1968. Precisamos ter a esperança de que o futuro ministro da Justiça não faça como o colega e também ex-ministro Gama e Silva, uma vez que existem algumas semelhanças nos “méritos” que os levaram a chefiar a pasta. Zuenir Ventura acertou: 1968 é o ano que insiste em não terminar.

Cláudio Rodrigues é consultor e colaborador de Pimenta.

ANÕES DO ORÇAMENTO, LULA E RICARDO KOTSCHO

Tempo de leitura: 2 minutos

marivalguedesMarival Guedes | marivalguedes@gmail.com

Ao ser ouvido na CPI, disse que sua riqueza foi fruto de ter ganhado 200 vezes na loteria. Questionado sobre o exagero de tantos acertos, respondeu: Deus me ajudou.

A CPI do escândalo dos Anões do Orçamento foi instalada em 93, mas o esquema começou em plena ditadura militar, em 1972. Não havia denúncias naquele período por causa da censura ou por conveniência dos veículos de comunicação.

A transação era feita por um grupo de parlamentares que fraudava o Orçamento da União beneficiando políticos e empreiteiras. O termo anão não se referia à estatura física. Relacionava-se a pouca expressividade dos envolvidos, membros do chamado “baixo clero”.

Foi mais um escândalo de corrupção nestes 500 anos. Mas, neste caso, uma diferença entrou para o anedotário político quando o articulador do esquema, deputado João Alves, justificou como conseguiu ficar milionário.

Ao ser ouvido na CPI, disse que sua riqueza foi fruto de ter ganhado repetidamente na loteria, 200 vezes. Questionado sobre o exagero de tantos acertos, respondeu: Deus me ajudou.

Neste mesmo ano, 93, eu era editor do programa Cabrália Bom Dia, na TV Cabrália, em Itabuna, e marcamos uma entrevista com Lula, que acabara de perder para Collor. Participaram o jornalista Luiz Conceição e Gecie Campos.

Acompanhava Lula, o assessor de comunicação Ricardo Kotscho. Não tínhamos muita intimidade, mas éramos companheiros de congressos de jornalistas. Num intervalo, ele sugere uma pergunta sobre os anões. Lula interrompe:

– Ele não pode perguntar não, Ricardo, porque o patrão dele também está envolvido.

Marival Guedes é jornalista e escreve no Pimenta às sextas.

HOMENAGEM A MARIGHELLA

Tempo de leitura: < 1 minuto
Colégio no Stiep ganha nova fachada em homenagem a baiano (Foto Mateus Pereira).

Colégio no Stiep ganha nova fachada em homenagem a baiano (Foto Mateus Pereira).

Uma cerimônia realizada ontem (11) oficializou a troca de nome do Colégio Stiep Garrastazu Médici, que agora levará o nome do revolucionário baiano Carlos Marighella. A mudança foi decidida pelos alunos da escola de Salvador em votação ocorrida no final do ano passado (relembre aqui). O colégio ganhou nova fachada. A cerimônia reuniu o governador Jaques Wagner, o secretário estadual Oswaldo Barreto (Educação) e Carlos Augusto Marighella, filho do homenageado.
– Não estamos plantando ódio contra ninguém com essa mudança de nome. Estamos plantando o amor por Carlos Marighella, um homem que lutou pela democracia, que lutou pela liberdade do povo brasileiro – disse o governador Wagner. O mandatário baiano lembrou que uma lei estadual permite a qualquer escola da rede a alteração de nome, desde que aprovada pela comunidade escolar.
Garrastazu Médici foi presidente do Brasil nos “Anos de Chumbo”. O militar governou o país de 30 de outubro de 1969 a 15 de março de 1974. Menos de uma semana após Médici assumir o poder, Marighella foi morto a tiros numa emboscada na Alameda Casa Branca, em São Paulo. A ação contra Marighella foi comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops.

COLÉGIO PRESIDENTE MÉDICI AGORA É CARLOS MARIGHELLA

Tempo de leitura: < 1 minuto

Do Metro1

Alunos do Colégio Estadual Emílio Garrastazu Médici, no Stiep, Salvador, conseguiram, por meio de um movimento na comunidade, modificar o nome da escola para Colégio Estadual Carlos Marighella. A proposta foi aprovada pela Secretaria Estadual de Educação e confirmada por Sidney Nunes, professor e um dos coordenadores da campanha.

Uma exposição, organizada pelas turmas do 3º ano e pelos alunos do curso profissionalizante, foi batizada de “A vida em preto e branco: Carlos Marighella e a ditadura militar” e desencadeou uma profunda admiração dos envolvidos pela história do guerrilheiro. Por isso, a ideia de modificar o nome da instituição já que o anterior era de um dos principais militares da época da ditadura.

CARTA ABERTA A CAETANO, GIL E CHICO, SEM CENSURA!

Tempo de leitura: 2 minutos

Manu BerbertManuela Berbert | manuelaberbert@yahoo.com.br

 

A cada declaração concedida por vocês e a cada matéria que leio sobre o tema, a sensação é de frustração.

 

Eu poderia começar essa carta comentando o quanto admiro (embora de formas diferentes) o trabalho e história de cada um de vocês, ou relatando o quanto os três foram e são importantes para a cultura brasileira, mas prefiro ir diretamente ao assunto: acompanhando essa polêmica toda em que vocês se colocam contra as biografias não autorizadas de personalidades públicas, a primeira palavra que vem à mente é INACEITÁVEL.

Perdoe a intimidade, Gil, mas é como se aquela doce e paciente professora que me alfabetizou, ainda na infância, agora dissesse que eu não sei escrever.  A cada declaração concedida por vocês e a cada matéria que leio sobre o tema, a sensação é de frustração. Eu não posso aceitar que os meus guerreiros do Tropicalismo, que lutaram pela liberdade de expressão no final da década de 60, sob o massacre de uma ditadura militar, agora lutem contra o direito de acesso a suas fascinantes histórias. É inaceitável.

Não, eu não sou contra o direito à privacidade, Caetano, e concordo quando você diz que a lei deve servir para todos, mas é preciso ser coerente e admitir que um cidadão, ao optar por seguir uma carreira pública, deve estar preparado emocionalmente para os ônus e bônus que ela possa lhe proporcionar. Perdoe a minha audácia, mas eu não posso aceitar que vocês, que me fizeram acreditar que a liberdade de expressão deve ser ampla e irrestrita, agora estejam fomentando uma discussão sobre privacidade alegando direitos autorais.

Mas e aí se alguma dessas biografias lhes causarem constrangimento? Assim como qualquer cidadão brasileiro, recorram à justiça e lutem pela punição dos envolvidos. Cada um que arque com as responsabilidades dos próprios atos. Vocês esqueceram o que é democracia? Sugiro que recorram aos próprios acervos, leiam e assistam suas próprias entrevistas. Aqui para nós, ninguém jamais ousou falar em democracia melhor que vocês nestas últimas décadas. Impedir biografias, nobres ídolos, é como retroceder e pedir que o Brasil esqueça, inclusive, a trajetória que os faz importantes e famosos até hoje.

Manuela Berbert é publicitária e colunista do jornal Diário Bahia.

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

PASSE LIVRE E A CONTRADIÇÃO ABERTA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br
1SimancaOs tipos mais conservadores, que querem tratar os movimentos sociais na pancada, uniram-se aos progressistas, em apoio ao Movimento Passe Livre (MPL), escancarando uma contradição. Coerente mesmo foram as PMs da Bahia e de São Paulo, fazendo o que é da sua tradição fazer: baixar o pau (v. charge de Simanca). Cientistas sociais e palpiteiros em geral estão incertos quanto ao que pretende a massa: vagamente, menos corrupção, mais educação (quase criei uma “palavra de ordem”), mais saúde pública, menos futebol, mais seriedade com o dinheiro público, menos safadeza…  No atacado, todos aprovamos esta pauta, mas falta a ela o varejo, o foco concreto e claro.

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Movimento (ainda) simpático à direita
Tem sido uma festa protestar contra tais coisas (e ainda a sogra chata, o vizinho ranzinza e o preço do tomate), mas não me divirto tanto. Entendo ser este um movimento de esquerda (se me permitem usar a velha classificação francesa, para mim ainda válida). E a direita não tarda a tratar essa turma como trata índios, sem-terra e semelhantes, todos incluídos na vasta lista de “baderneiros”. Por menos disso ela já derrubou um presidente e pôs o Brasil em “ordem unida” durante 21 anos, enquanto arrancava as unhas dos descontentes. Freado o aumento das tarifas, o MPL, ao voltar às ruas (espero que volte), deverá focar-se em um dos muitos problemas nacionais.
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“DOR DE AMOR DÓI MAIS DO QUE BURSITE”

3Dor de amorO verbo amar transitivo indireto (com a preposição “a”) foi, em tempo que longe vai, exclusivo jargão religioso. “Amar a Deus sobre todas as coisas”, está grafado na tábua. A gramática quer, em relação a coisas e pessoas, o verbo não preposicionado. Amar era também de uso menos extenso: homens amavam mulheres, mulheres amavam homens, homens e mulheres amavam suas mães, estas os amavam sem medidas… Os para-choques repetiam uma frase produzida por alguém de coração dilacerado (ou vítima de crônica subliteratura): “Amor só de mãe!” – ai que me embriago de tanta poesia! Compreende-se. Quem leu Rubem Braga sabe que “dor de amor dói mais do que bursite”.
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Velha calça desbotada ou coisa assim
Voltando ao amar transitivo direto, diga-se que ele foi “democratizado”. Amavam-se pessoas, hoje se ama praia, macarrão com queijo, sorvete de coco, carro novo, a velha calça desbotada e, de moto, ama-se o vento na cara. São modismos que o tempo nos traz: conheço uma jovem senhora que ama seu iPhone de recentíssima geração (será isto o chamado sexo virtual que nunca entendi?). A boa linguagem, pela qual poucos na mídia ainda se interessam, recomenda que se goste das coisas citadas acima, sendo vedado amá-las. Se, por acaso, alguém não sabe a diferença entre gostar e amar, que tente beijar uma máquina. Adianto-lhes que não funciona, a não ser que seja uma… “máquina”.
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5Batata fritaAdoração ao arroxa e à batata frita
Cartola, em licença poética escreveu: “Não quero mais amar a ninguém…”, e caiu em “erro”, por usar a forma “religiosa” (“Não quero mais amar ninguém”, diz a norma). E quase tudo que foi dito vale para o verbo adorar, que igualmente nos remete à igreja. Adorar só a Deus e signos sagrados, era assim que era. Depois, o povo, que não está nem aí para gramáticas e gramáticos, mudou a regra. Hoje, com todo respeito, adora-se batata frita, novela de tevê, show de arrocha e de dupla “caipira”. Pelo sentido “clássico” do termo, tem-se a ideia de que o maluco se ajoelha diante do pacote de fritas e também genuflectido assiste à novela das nove. Medonhos tempos, estes.

QUEM DERA QUE ESSA RUA FOSSE MINHA!…

As ruas nos falam de dados momentos, lembranças que ficaram. “Se essa rua fosse minha/ eu mandava ladrilhar/ com pedrinhas de brilhante/ só pra ver meu bem passar”, diz o antigo frevo Vassourinhas. Antônio Maria (“o bom Maria”, como o chamava Vinícius, seu colega de quarto), morando no Rio e, ferido de saudades da terrinha, abre seu Frevo nº 3 dizendo: “Sou do Recife, com orgulho e com saudade”, para depois introduzir “Rua antiga da Harmonia,/ da Saudade, da Amizade e da União…/ São lembranças noite e dia”. Em poucos versos, quatro ruas de nomes sonoros, que mexem com os sentimentos da gente: harmonia, saudade, amizade, união.
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7AlceuMachado de Assis fala das ruas do Rio

Meu endereço em Buerarema era Manuel Vitorino, 6 (esquina com Siqueira Campos) – mania que as pessoas têm por vultos estranhos à cidade. Isso mudou um pouco. Já temos na antiga Macuco as ruas Paulo Portela, Manuel Lins, Pastor Freitas – personagens locais e já mortos, comme il faut. Mas eu queria falar era do fascínio que os nomes de ruas exercem sobre mim e, pelo que vejo, em vários autores. Lembro aqui de três deles, tocando o tema: Machado de Assis, Antônio Maria e Alceu Valença. Nos contos de Machado é possível saber muito do velho Rio, pelas ruas que o mestre cita: Larga de S. Joaquim, da Alfândega, do Lavradio, da Quitanda e, naturalmente, do Ouvidor.

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Um amor que sumiu nas ruas do Recife

“Sob uma chuvinha miúda, triste e cortante, como no enterro de Brás Cubas, o menino passeia sua melancolia por estas ruas que, transeuntes apressados sequer suspeitam, lhe pertenceram um dia. E chora as mudanças: mudou a cidade, mudaram os tempos, mudou ele, que ficou depressivo e meio adulto, morreu de velha a caramboleira, silenciaram os sabiás e bem-te-vis da infância que se foi” (Antônio Lopes: Luz sobre a memória – Agora Editoria Gráfica/1999). Perdidão da Silva, Alceu Valença parece procurar seu amor sumido nas ruas do Sol, da Aurora, da Matriz, das Ninfas, da Boa Viagem, da Soledade – mas como sempre acontece em casos semelhantes, o esforço é vão.

(O.C.)

"VIDAS CRUZADAS" É ESTREIA DE WALDENY ANDRADE NA LITERATURA

Tempo de leitura: 2 minutos

literaturaO jornalista Waldeny Andrade prepara o lançamento do seu primeiro livro, Vidas Cruzadas, ambientado na Ilhéus dos anos 50 e 60 e passagens em Itabuna. A obra relata uma trama narrada na terceira pessoa com “dramas humanos e absolutamente verdadeiros”. A ficção é recurso utilizado, afirma, para apenas preservar a identificação de descendentes de algumas famílias.
Vidas Cruzadas também enfoca aspectos considerados positivos e negativos do Golpe de 1964, a exemplo do surgimento do Ensino Superior na região, construção da ponte Ilhéus-Pontal e reformas infraestruturais.
Do período, o autor também assinala “a criação de um clima de medo e de apreensão nos meios políticos e culturais da cidade”. A obra está em fase de revisão final e retrata período de turbulências na economia cacaueira e revela dramas humanos e narra uma época de truculência e romantismo.
Amores frustrados, suicídios, traições conjugais, estupros, sequestros e humor são os ingredientes da obra. O jornalista diz que tudo converge “para um final surpreendente”. Waldeny, que trabalhava na Rádio Jornal de Itabuna e no Diário de Itabuna, tinha entre 21 e 36 anos no período histórico ambientado em Vidas Cruzadas.
O personagem principal da obra, Altamirando Gouveia da Silva, é quem “traz” toda a história, narrada em terceira pessoa. Altamirando fica 64 dias internado em um hospital de Salvador devido a problemas cardíacos. No período, o protagonista de Vidas Cruzadas revive ou revela fatos verdadeiros em flashback. O jornalista diz que muitos destes fatos não foram registrados na memória da cidade.

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 5 minutos

EDUARDO, VIDA, MORTE, LÁGRIMAS INÚTEIS

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br
Eduardo Anunciação, Duda, Bacurau de Terraço, Gaguinho, subiu no telhado, e contra isso nossas lágrimas são inúteis. C´est la vie. Ou a morte. Meu amigo, sim, mas tivemos, em priscas eras, divergências, que sepultamos em nome do mútuo descobrir de nossas humanas fraquezas. Eu o dizia um colunista com estilo – contraponto à expressão consagrada por Millôr Fernandes (“Enfim, um escritor sem estilo”) e quando o chamava de “Meu Carlinhos Oliveira preferido” ele apenasmente sorria seu sorriso de homem modesto, operário raso do jornalismo. Manuela Berbert, em inteligente texto aqui no Pimenta, já chorou em meu nome. Ainda assim, reedito, descoberta a poder de óculos e binóculos, uma notinha, espécie de flores em vida, publicada neste UP. A seguir.

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2Eduardo Anunciação“Ganharás o pão com o suor do texto

A região tem muitos (e bons) jornalistas não diplomados, e me arrisco a citar apenas um, na tentativa de síntese do que quero dizer. Refiro-me a Eduardo Anunciação, um “bicho de jornal”, com mais tempo de redação do que urubu de voo (às vezes penso que ele, por essa escrita em linhas tortas própria dos deuses, teria nascido num ambiente de jornal – e, para completar a quimera, bebeu tinta de impressão, em vez de leite materno. Nunca foi balconista de loja, não trabalhou em banco, não sabe botar meia-sola em sapato, não é pedreiro nem médico. É jornalista. Daqueles que lutam com as palavras todos os dias, mal rompe a manhã – e pagam o supermercado com o suor do seu texto”.
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O GENERAL, DANTE E OS PRESOS POLÍTICOS

No fim de 1964, o general Ernesto Geisel visitou o Quartel de Amaralina, em Salvador, em nome da Comissão Geral de Inquéritos, para verificar denúncias da imprensa sobre maus tratos a presos políticos.  Estes souberam da vista e fizeram um cartaz com a frase da Divina Comédia, à porta do inferno: “Deixem fora toda esperança os que aqui entrarem” – e colocaram o cartaz de forma que Geisel não pudesse deixar de vê-lo ao chegar à cela. Era a maneira que os presos incomunicáveis encontraram para expressar sua revolta. Geisel chegou, viu o cartaz e perguntou, com ar severo: “– Quem colocou isso aí?” “– Eu”, respondeu Othon Jambeiro. O general mostrou ter verniz literário: “– Isso não é de Dante Alighieri?”
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4Camilo de Jesus LimaO centenário que passou em branco
E emendou, nada amistoso: “– Vejo que há algum intelectual aqui”. Sereno e firme, um preso adiantou-se e disse: “– General, intelectuais somos todos os que aqui estamos presos. E intelectuais a serviço do povo, dedicados à libertação do Brasil e à liberdade de todos os brasileiros. Somos intelectuais, sim, lutando por uma causa justa”. Os fotógrafos que acompanhavam a comitiva, quando viram o preso se adiantar e começar o discurso, postaram-se para fotografá-lo, mas foram impedidos pelos militares. O preso era o poeta Camilo de Jesus Lima (cujo centenário passou praticamente em branco no ano passado) – e a informação está em Lembranças do mar cinzento, obra fundamental do político baiano Emiliano José.
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Um autor a clamar contra a injustiça
Camilo de Jesus Lima (1912-1975) é o que se chamava de engagé, autor com a pena a serviço de uma causa, sem esse negócio de arte pela arte: seus livros (As trevas da noite estão passando, Cantigas da tarde nevoenta, Novos poemas, A mão nevada e fria da saudade, Viola quebrada e outros) clamam contra a injustiça, denotando um escritor de acentuada influência marxista. Diz-se que ele era íntimo do núcleo duro do PCB de Prestes, mas há controvérsias. Quanto à simpatia pelo socialismo, não há dúvida. Morreu aos 63 anos, atropelado, por acidente. Ou “acidente”: diz-se que foi assassinado pela ditadura militar, na operação de “limpeza” que nos levou, na mesma época, Anísio Teixeira – mas prova disto não há, é claro.

(ENTRE PARÊNTESES)

6Sonny StittConta-se que o saxofonista Sonny Stitt, mostrado aqui na semana passada, bebia “bem”, por isso estava preocupado, tentando afastar-se da garrafa. Durante temporada em famoso clube de Londres, soube de um hipnotizador que curara vários músicos do vício da bebida e resolveu tentar a sorte. O grande terapeuta iniciou uma série de sessões com Stitt, para subtrair-lhe a compulsão de esvaziar copos, mas o músico desistiu do tratamento, após duas semanas. E explicou porque o esquema do hipnotizador não estava dando certo: “– Depois desse tempo, eu não parei de beber e, pior ainda, o homem passou a beber comigo….”  (a história foi ouvida do especialista em jazz José Domingos Raffaelli).

MENINAS CHEIAS DE TALENTO E FORMOSURA

Não me espanta se a gentil leitora e o exigente leitor não conhecerem Dedé do Cantinho, sanfoneiro pé-de-bode que teve seus dias de glória em Itaporanga, no vale do Piancó paraibano. Relevante é saber que esse pé-de-bodista é a raiz de um grupo musical que me deixou extasiado, encantado, emocionado, embevecido, enlevado, seduzido, ébrio, preso, arrebatado – e se mais não digo é por desgostar de repetir sinônimos, o que significa jogar água em terreno já encharcado. O grupo chama-se Clã Brasil e é integrado por parentes do velho forrozeiro, entre as quais umas bisnetas jovenzinhas, competentes e bonitas de fazer chorar. Permito-me o luxo de um arcaísmo, ao afirmar que elas são cheinhas de talento e formosura.
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Grupo tem o apoio luxuoso de Sivuca”>
Clã Brasil, com oito anos de estrada (já se apresentou em Portugal e na Itália, além de ganhar a Comenda Ariano Suassuna, “por serviços prestados à Paraíba”), é formado por Lucyane (sanfona e líder), Laryssa (violino e zabumba), Lizete (flauta e pífano), Fabiane (cavaquinho e violão de 12 cordas), Badu (violão de 7), Maria José (triângulo) e Francisco Filho (percussão). Grandes nomes da música nordestina aprovaram o grupo: Dominguinhos, Marinês, Elba Ramalho, Pinto do Acordeon, Oswaldinho e Sivuca. Aqui, uma mostra do Clã, com o apoio luxuoso de Sivuca, o músico que levou a sanfona às salas de concerto: Feira de Mangaio, com o bônus de um improviso do grande sanfoneiro de Itabaiana
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(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 4 minutos

LUIZ GONZAGA FAZIA ACORDES, NÃO VERSOS

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br
1Asa BrancaFindo 2012, quando foi comemorado o centenário de Luiz Gonzaga, saltou-me aos olhos certo equívoco, perpetrado pela mídia. No afã de prestigiar o Rei, salientaram-lhe qualidades que ele nunca teve. Numa muito criativa matéria de tevê (creio que na Globo) esmiuçou-se a asa branca (uma espécie de pomba, em extinção) e que deu título à música famosa. Lá pras tantas, a repórter danou-se a louvar a “literatura” de Luiz Gonzaga, os “poderosos versos” sobre o sertão, o nordestino, o vaqueiro, a seca e por aí vai, esbanjando um desconhecimento que não se permite a nenhum profissional do gênero: para ser grande (e por ser grande), o Rei nunca se apropriou da qualidade de seus letristas. Ele não fazia “literatura”, fazia acordes.

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Os grandes letristas quase esquecidos

“Era excelente musicista”, atesta o respeitável especialista em Direito Municipal (e ex-roqueiro de igual respeito) Adylson Machado. As comemorações deixaram Humberto Teixeira em quase completo esquecimento, o que me pareceu grande injustiça com quem escreveu um monte de “clássicos” cantados pelo Rei. Cito de memória (além de Asa branca) várias outras, algumas delas obras-primas do gênero, no meu modesto entender: Juazeiro, Qui nem jiló, Estrada de Canindé, Paraíba, Assum preto, Respeita Januário, Mangaratiba, No meu pé de serra, Lorota boa… De Zé Dantas falei em outras colunas: Vozes da seca, A volta da asa branca, Letra i, Riacho do Navio, Cintura fina, Paulo Afonso. A ignorância vigente na mídia é de espantar.
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SEM MISÉRIA, NÃO HÁ JAZZ “DE VERDADE”

3Doris DayPromessa é dívida. Voltamos aos best-sellers do jazz, em que seus integrantes, tal qual os escritores, são acusados de vender muito e… ganhar dinheiro. As listas que todos conhecem são integradas por meia dúzia de grandes artistas negros, mas não incluem Nat King Cole, Frank Sinatra, Doris Day, Fred Astaire. Óbvio: além de serem quase todos brancos, esses venderam muito e, consequentemente, fizeram “concessões”, ficando marcados como “comerciais”.  O senso comum diz que lhes falta desgraça e miséria suficientes para sentir o blues na própria pele – sem o que não se canta o jazz autêntico. Quem é jazzman (ou jazzwoman) de verdade morre com o estômago pregado às costas, mas concessões ao mercado, jamais.

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“Num quarto sujo, cheio de percevejos”

Este raciocínio, segundo Ruy Castro (no livro Tempestade de ritmos), foi montado pelos franceses, lá pelos anos trinta/quarenta, e de forma eficiente, “porque até hoje há quem acredite nele”. A teoria tenta preservar o músico de jazz como o tipo “bom selvagem” de Rousseau: negro, pobre, injustiçado, escravo do jazz, do álcool e da heroína, mas firme e incorruptível. Diante das “concessões” que levam à boa vida, escolhe vegetar num quarto sujo, cheio de percevejos (vide os filmes ´Round midnight e Bird, já referidos nesta coluna). “Duke Ellington, a caminho do seu alfaiate, tremia de medo dessa teoria”, ironiza Ruy Castro. Confesso que esse tipo me fascina – creio que fui formado nessa escola romântica.
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5Cole EspanholNo fim, boleros derramados, em espanhol

Para ficar apenas num nome (que o espaço é tão pequeno para tanto amor), citemos o velho Nathaniel Adams Coles (1919-1965): pianista, tornou clássica a formação piano-guitarra-baixo, era cultuado pelo seu trio de jazz “autêntico”. Foi assim até resolver cantar canções “comerciais”, quando passou a ser execrado pela crítica. Esta jamais o perdoou por gravar e vender Mona Lisa, Unforgettable, Blue Gardenia e (aí nem eu aguentei!) uma enxurrada de boleros derramados, em espanhol. De ternos bem cortados, e dono de muitos dólares, Nat King Cole era discriminado no bairro rico onde residia. A gorda conta bancária não foi bastante para ofuscar o racismo, contra o qual ele era combatente.
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(ENTRE PARÊNTESES)

Quase destruída física e moralmente, Itabuna aguarda ansiosa as ações do seu novo Messias. Nunca se viu um prefeito com tantas sugestões de nomes. Seu sobrenome é Renascer, mas ele poderia, sem desdouro, chamar-se Reconstruir, Reformar, Refazer, Remontar, Recuperar, tais são as expectativas criadas. É aceitável também, Salvador da Pátria, Fada Madrinha, Salvação da Lavoura, Houdini, Magoo e, se queremos algo mais abrangente, Panaceia. Mas que não seja o Mágico de Oz, pois de impostores já andamos cheios. A frase batida (do filme O fabuloso destino de Amélie Poulain) cabe aqui: “São tempos difíceis para os sonhadores”.
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EU VOLTAREI TÃO LOGO A NOITE ACABE

“Meu amor, eu não esqueço,/ não se esqueça, por favor,/ que eu voltarei depressa,/ tão logo a noite acabe,/ tão logo esse tempo passe,/para beijar você” – são versos de Para um amor no Recife, de Paulinho da Viola. A música foi feita para Dedé (Maria José Aureliano), uma professora pernambucana que hospedou Paulinho no Recife em 1971, quando ele foi lá apresentar-se durante três dias e ficou (graças à acolhida calorosa) quase um mês. No fim, Dedé chamava o cantor de filho (para isso, pedira e obtivera “autorização” da verdadeira mãe dele, no Rio). Mas Para um amor…, um grito contra a ditadura militar, esconde outra história menos “família”, menos lírica, menos divulgada.
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Feridas abertas e sangue derramado

Em A vida quer é coragem (do jornalista Ricardo Amaral), biografia da presidenta Dilma, surge a uruguaia Maria Cristina no capítulo intitulado “Tão logo a noite acabe”. Amaral conta que Cristina ligou-se à guerrilha no Brasil, devido à paixão que tinha pelo militante Tarzan de Castro, do PCdoB, preso em 1969, e amigo do ex-marido de Dilma, Carlos Araújo. As duas dividiram a mesma cela, em São Paulo, por oito meses. Quando a uruguaia, levada para as sessões de tortura, retornava, Dilma tratava das dores e lhe chamava a atenção para a letra de Paulinho, como uma espécie de bálsamo, ao cantar “Fechar a ferida e estancar o sangue”. Sentiam-se menos sós e desamparadas: lá fora, uma voz lírica dizia que a iniquidade não era eterna.

(O.C.)

PARA COLUNISTA, AS CICATRIZES DEIXADAS PELA DITADURA JAMAIS SERÃO REMOVIDAS

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No “diálogo” com seus leitores, o que faz às terças-feiras, Ousarme Citoaian (que assina a coluna UNIVERSO PARALELO aqui no  Pimenta) falou de tortura e torturadores, assunto remanescente da ditadura militar – e o fez sem papas na língua. Ele disse que “as manchas da tortura jamais serão lavadas”, mas que é indispensável apontar ao mundo “os que arrancaram unhas e aplicaram o pau-de-arara, além de outros mimos aos opositores do regime”. Ele defende a tese de que “não se trata de revanche, mas de justiça,pois o crime de tortura é de lesa humanidade, é imprescritível, tem de ser punido”.

O. C. lembra ainda que o Brasil “exportava técnicas de crueldade para os países vizinhos” – mas mesmo estes (Argentina, Uruguai, Chile e Peru) “levam seus torturadores ao banco dos réus”, enquanto aqui, “o próprio Lula recuou diante dos arreganhos dos quartéis”.

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