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14 de agosto de 2020 | 01:41 am

UM INÍCIO

Tempo de leitura: 6 minutos

Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

No fim das contas, o que mais fica de Apenas o Fim (idem – Brasil, 2008), de Matheus Souza, é a expectativa do porvir. Não só pelo fato de o diretor ter apenas 19 anos quando o fez, mas também porque o que ali existe de discutível parece ser (em visão otimista) menos um problema e mais um modo simples de fazer cinema.

São dois personagens, um homem e uma mulher (os bons Gregório Duvivier e Érika Mader), que diz estar de partida e que tem apenas uma hora para ficar com ele. Woody Allen e Domingos Oliveira, Richard Linklater e seu Antes do Pôr-do-Sol são as óbvias e principais referências ou lembranças. São, em suma, 80 minutos de um filme falado, calcado na palavra de dois personagens e de poucos coadjuvantes.

Pode-se dizer que a mise-en-scène beira o desleixo de tão minimalista, mas sua função parece ser, primeiramente, não atrapalhar o texto; pode-se ainda frisar a crítica ao alegar que ou ele não domina a linguagem, ou a relega para segundo plano.

Por outro lado, da mesma forma que o conteúdo de alguns filmes está na forma, no estilo, é lógico dizer que a relevância de sua obra está no diálogo, na escrita a mão. A palavra é o que importa, a comédia vem em seguida. E nos dois casos ele funciona, especialmente por causa do caráter nonsense, que atinge níveis estratosféricos.

São comentários sobre Backstreet Boys, Star Wars, Transformers e Godard; aranhas, terapia, He-Man, e Itabuna e sua mosquitada.

Em quase todos esses momentos, todavia, Matheus Souza deixa clara a diferença de investimento, a límpida preferência de profundidade para o homem. Ele é tão mais interessante quando fala que ela se assemelha a um subterfúgio para que ele (personagem) divague, da mesma maneira que o audiovisual fica como apenas o meio para que ele (diretor) exercite o que sabe fazer. Quando se exige uma sensibilidade mais aguçada, como no momento em que o casal chora, ele (via atores) demonstra que não transpõe a sensação, para a tela, com a mesma fluência.

Ao término, pode-se falar em exibicionismo, como também pode-se dizer que, pelo menos aqui, Matheus Souza dá sinais de ser mais esperto e inteligente que cinematográfico. Mas esse porém, pequeno, pode ser uma simples questão de (falta de) experiência. E, mesmo que não seja, seria ótimo se as falhas da média de filmes do gênero, no Brasil, fossem como as daqui.

Filmes da semana
1. Lola Montés (1955), de Max Ophüls (DVDRip) (***)
2. Coco Chanel e Igor Stravinsky (2009), de Jan Kounen (Cinema do Museu) (***)
3. Uma Mulher é Uma Mulher (1961), de Jean-Luc Godard (DVDRip) (***1/2)
4. Noite de Estréia (1977), de John Cassavetes (DVDRip) (****)
Curta:
5. Os Filmes que eu não fiz (2008), de Gilberto Scarpa (Canal Brasil) (**1/2)
6. Noite de Sexta Manhã de Sábado (2006), de Kleber Mendonça Filho (Vimeo) (****)
Filmes do mês

10. Uma Mulher é Uma Mulher (1961), de Jean-Luc Godard (DVDRip) (***1/2)
9. O Sol por Testemunha (1960), de René Clément (DVD) (***1/2)
8. Apenas o Fim (2008), de Matheus Souza (DVDRip) (***1/2)
7. Tudo Pode dar Certo (2009), de Woody Allen (Cinema do Museu) (***1/2)
6. Meu Nome é Sabine (2007), de Sandrine Bonnaire (Sala Walter da Silveira – DVD) (***1/2)
5. Noite de Estréia (1977), de John Cassavetes (DVDRip) (****)
4. Antes do Amanhecer (1995), de Richard Linklater (Cine Vivo – DVD) (****)
3. Os Incompreendidos (1959), de François Truffaut (Sala Walter da Silveira – DVD) (****)
2. Antes do Pôr-do-sol (2004), de Richard Linklater (Cine Vivo – DVD) (****1/2)
1. Lola (1982), de Rainer Werner Fassbinder (DVD) (****1/2)
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Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

<p style=”text-align: center;”><a href=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/70-MM2.jpg”><img title=”70 MM” src=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/70-MM2.jpg” alt=”” width=”559″ height=”95″ /></a></p>
<p style=”text-align: center;”><a href=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/Final-3.jpg”><img class=”aligncenter size-full wp-image-30092″ title=”Final 3″ src=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/Final-3.jpg” alt=”” width=”42″ height=”13″ /></a></p>
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<p><strong>Leandro Afonso</strong> | <a href=”http://www.ohomemsemnome.blogspot.com”>www.ohomemsemnome.blogspot.com</a></p>
<p><em><img class=”alignright” src=”http://roteiroceara.uol.com.br/wp-content/uploads/2009/09/BLOG2_viajo_porque_preciso_volto_porque_te_amo_cultura.jpg” alt=”” width=”368″ height=”182″ />Viajo porque preciso, volto porque te amo</em> (<em>idem</em> – Brasil, 2009), de Karim Aïnouz (<em>O Céu de Suely</em>, <em>Madame Satã</em>) e Marcelo Gomes (<em>Cinema, Aspirinas e Urubus</em>), é um <em>road-movie </em>experimental (também por isso inevitavelmente irregular) que tem de melhor o que de melhor seus dois diretores podem oferecer – especialmente Aïnouz. É um filme em um meio, o semi-árido nordestino, e sobre sentimentos – carinho, amor, rejeição – já visitados por ambos, mas trata também e principalmente das divagações e aflições do personagem principal.</p>
<p>Faz sentido dizer que a maioria dos planos de <em>Viajo porque preciso…</em> não tem significado concreto ou função narrativa. Do mesmo modo, praticamente tudo aquilo que visa o horizonte e paisagens afins dura mais que o que o plano de fato mostra – mas esses fatos são menos um demérito que uma defesa da contemplação. E ainda que muitas vezes simplesmente não haja o que ser contemplado, faz parte do personagem esse sentir-se parado – a agonia e o tédio do personagem chegam a nos atingir, às vezes, sem eufemismo algum</p>
<p>Em filme que se assume tão ou mais experimental quanto narrativo, temos aí, no entanto, talvez – e paradoxalmente – uma tentativa de evitar uma monotonia que a ideia do filme sugere. Quase tudo não acontece em cena, mas na cabeça do personagem principal, a escrever suas cartas – trata-se de um filme epistolar de mão única. Como, então, filmar isso – algo tão ligado a um diário, algo a princípio tão anti-audiovisual?</p>
<p>Não temos uma resposta, mas uma opção arriscada, na qual os melhores momentos vêm de depoimentos (prostituta falando em vida-lazer, por exemplo), quando percebemos que os dois souberam extrair uma sinceridade tocante que emana daqueles que dirigem. Isso sem falar do personagem como entrevistador/provocador, em situação que nos liga inevitavelmente a ele fazendo o papel de diretor.</p>
<p>Esse caráter experimental, contudo, pode camuflar desnecessários tremeliques de câmera ao mostrar o personagem em meio à sua jornada, uma vez que não dá para chamar de experimental (ou dar qualquer mérito aqui) o que já virou um quase padrão – a câmera na mão nos dias de hoje.</p>
<p>Ainda assim, vale dizer que os altos do filme atingem um nível de sensibilidade que vem, entre outras coisas, justamente dessa abstração da narrativa convencional: da por vezes completa imersão em um mundo acima de tudo sensorial. Torto, talvez fatalmente torto, talvez o mais fraco trabalho de ambos, mas com momentos de coragem e brilhantismo bem-vindos.</p>
<h2><span style=”color: #800000;”>8mm</span></h2>
<p><strong>Paixão do visível</strong></p>
<p style=”text-align: left;”><em><img class=”aligncenter” src=”http://harpymarx.files.wordpress.com/2009/03/sylvia2.jpg” alt=”” width=”480″ height=”270″ />Na Cidade de Sylvia</em> (<em>En La Ciudad de Sylvia</em> – Espanha/ França, 2007) é meu primeiro contato com José Luis Guerín, catalão que teve três de seus longas exibidos no Panorama Internacional Coisa de Cinema. (Alguém sabe falar sobre?)</p>
<p>Guerín se mostra preocupado com a cidade, às vezes mais que com seus dois personagens principais, ou – o que pinta com alguma prioridade – as relações entre personagens diversos e o lugar onde vivem. No entanto, a busca dele (Xavier Lafitte) por ela (Pilar López de Ayala) é interessante a ponto de causar angústia quando algo foge do esperado. Ele desenha e retrata a cidade, é ele o mais afetado e sobre quem é o filme, é ele que não sabemos de fato o que sente, viveu ou viu; mas é ela que magnetiza a tela quando aparece.</p>
<p>Todavia, e felizmente, o filme vai além da contemplação de um sensacional rosto de uma boa atriz. Pode-se entrar em longas discussões e análises sobre memória e imagem, sobre miragem e dúvida; em uma palavra, sobre cinema. E, o que é melhor, através do cinema.</p>
<h2><span style=”color: #800000;”>Filmes da semana<br />
</span></h2>
<ol>
<li><strong>Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (Cine Vivo) (***)</strong></li>
<li><strong>Batalha no Céu (2008), de Carlos Reygadas (sala Walter da Silveira) (***1/2)</strong></li>
<li><strong>O Refúgio (2009), de François Ozon (Espaço Unibanco – Glauber Rocha) (***)</strong></li>
<li><strong>O Profeta (2009), de Jacques Audiard (Espaço Unibanco – Glauber Rocha) (***1/2)</strong></li>
<li>O Demônio das 11 Horas (1965), de Jean-Luc Godard (DVDRip) (****)</li>
<li>Na Cidade de Sylvia (2007), de José Luis Guerín (DVDRip) (***1/2)</li>
</ol>
<p>______________</p>
<p><strong>Leandro Afonso</strong> é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.</p>
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