Manuela Berbert Manuela Berbert | manuberbert@yahoo.com.br

 

Hoje meu coração está enlutado. Numa coletiva à imprensa, pela manhã, o Provedor anunciou, oficialmente, a descontinuidade dos serviços SUS do Hospital São Lucas e o fechamento de sua porta de entrada no dia 31 de dezembro.

 

Não costumo usar as minhas redes sociais para compartilhar nada além dos meus trabalhos pessoais, mas hoje eu preciso me pronunciar em algum lugar. Há quase quatro anos coordeno o setor de marketing da Santa Casa de Misericórdia de Itabuna, tendo o privilégio de acompanhar de perto o crescimento de diversos setores e serviços dos Hospitais Calixto Midlej Filho, Manoel Novaes e São Lucas. Estive à frente de pautas e publicidade sobre todo o tipo de evolução que vocês possam imaginar, desde cursos de capacitação para funcionários a inaugurações, como da UTI Neonatal e da CTI Coronariana, vendo as unidades serem pintadas, equipadas, e em seguida o seu amplo funcionamento.

Apaguei incêndios junto à imprensa regional também, esclarecendo fatos e tentando inclusive ajudar a resolver o que aparentemente não tinha solução. A média mensal de atendimento dos três hospitais é de 63 mil procedimentos/mês, e achar que tudo conseguiria acontecer de forma ágil e perfeita seria até ingenuidade da minha parte. O tempo me fez entender a diferença entre urgência, emergência e “chilique”, e eu consegui resgatar minhas horinhas de sono que chegaram a faltar no início, já que meu telefone passou a tocar às 22h, às 23h, às 2h da madrugada etc.

A Santa Casa, que caminha para os 100 anos de existência, tem sua história entrelaçada na história de Itabuna, e na de todos nós. O meu respeito pela instituição é imenso, afinal nasci no Hospital Manoel Novaes, vi o meu pai se despedir da vida, nos meus braços, no Hospital Calixto Midlej, renasci no Calixto alguns anos depois, e assim sucessivamente. E sei que tudo isso também acontece na família de todos ao meu redor.

Trabalho diariamente com o diretor e o provedor em exercício. Nesse período, estou na gestão do terceiro provedor que já sentou naquela cadeira. Conheço suas lutas, que vão desde inúmeras viagens a Brasília em busca de recursos para o SUS, a emendas astronômicas divulgadas por deputados regionais que, na verdade, nunca chegaram. Um hospital ia sustentando o outro, um serviço sustentando o outro, até que muita coisa, claro, tornou-se insustentável.

Hoje meu coração está enlutado. Numa coletiva à imprensa, pela manhã, o Provedor anunciou, oficialmente, a descontinuidade dos serviços SUS do Hospital São Lucas e o fechamento de sua porta de entrada no dia 31 de dezembro. Em resumo, o que o governo tem para pagar não o sustenta. Simples assim. Entendido por todos, compreensível para ninguém. Milhões para se fazer um político, quase nada para se fazer política séria. Milhões para estádios de futebol e uma copa do mundo, quase nada para hospitais públicos. E na soma final, lamentavelmente, é o pobre quem paga as contas nesse país, com a própria vida!

Manuela Berbert é jornalista e publicitária.